9. Sobre a minha crítica ao Progressismo Evangélico: Perguntas, Balanço Preliminar e Roteiro de Leituras

Tempo para um “pitstop”: depois da série de artigos críticos, culminando com a discussão da “linguagem da transformação” na missiologia evangélica, decidi fazer uma pequena síntese, responder a diversas questões que me foram levantadas ao longo do debate, e compartilhar a expectativa de estudos futuros. Um passo importante, diretamente conectado à discussão toda, foi o artigo que escrevi para o livro “Igreja Sinfônica”, editado pelo amigo Pedro Lucas Dulci, no qual contribuí com o capítulo “Igreja Católica – As Dimensões da Missão”. Embora sintética, essa é primeira apresentação da minha alternativa ao conceito de “missão integral”.

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“E não vos associeis às obras infrutíferas das trevas; pelo contrário, condenai-as; pois é vergonhoso até mesmo mencionar as coisas que eles fazem às escondidas. Mas todas essas coisas, sendo condenadas, manifestam-se pela luz, pois tudo que se manifesta é luz.
Por isso se diz: Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo te iluminará”. (Efésios 5.11-14)

Queridos leitores,

Entre 2013 e 2015 introduzi uma série de artigos críticos, lidando com problemas do progressismo evangélico e da teologia de Missão Integral, com graus heterogêneos de densidade teórica e de teor apologético. Esses artigos apresentam, de forma um tanto estocástica, uma crítica teológica, filosófica e também pastoral que venho desenvolvendo há alguns anos, em diálogo com vários amigos.

A crítica, como vários já notaram, não está completa. Não exatamente pela precariedade dos argumentos – considero-os sim, ainda precários, muito embora isso não tenha ajudado nem um pouco meus críticos a refutar qualquer um deles – e espero que, havendo a oportunidade, poderei desenvolver o pleno potencial crítico de cada um. O momento, no entanto, é de problematizar, e não de solucionar a todas as questões.

Enfatizo, inspirado pelo texto de Efésios 5 e ilustrando minhas esperanças com a imagem de Santo Agostinho, que a Igreja Evangélica precisa muitíssimo, agora, de um profundo encontro com a verdade, e que esse encontro com a luz da verdade pode ser também, para ela, um momento de ressurreição. A verdade clama pelo coração da igreja evangélica.

Neste post quero, em primeiro lugar, dispersar umas poucas dúvidas que surgiram na mente de alguns leitores nos últimos dias. Quero também apresentar um roteiro de leituras/áudios para os que tem interesse em compreender com mais clareza as minhas ideias, sejam eles meus críticos ou meus defensores. E finalmente, farei um balanço preliminar da nossa situação e indicarei os rumos a seguir.

I. RESPOSTAS A ALGUMAS QUESTÕES

Recebi muitas comunicações bastante indignadas e reativas, o que me intrigou bastante. De dentro da mais profunda irreflexividade, alguns leitores mostraram grau nulo de engajamento crítico, limitando-se a me acusar de arrogância e prepotência ou passaram a derrubar as peças do tabuleiro com aquele apelativo clássico de Pôncio Pilatos: “mas o que é a verdade”? Um deles chegou a discernir em minhas ideias um “fascismo” e um “Macarthismo”. Outro me acusou de fazer “filosofia “café com leite” da Apologética neo-alguma-coisa” por “recalque”.

À parte das histerias costumeiras, recebi questões bastante responsáveis e interessantes. Vou considerar umas poucas que se repetiram mais:

  • Não é o neocalvinismo uma teologia importada e descontextualizada?

A analogia é inadequada: o termo “importação” é empregado para comunicar sub-repticiamente que se trata de uma operação mercadológica e carente de criatividade, “burra”. Ou seja, a pergunta é viciada. Mas enfim, dizer que a teologia veio “de fora” é uma obviedade; qual teologia Cristã não foi “importada” da Europa? Tento, mas não consigo achar sentido na questão. Minto: nem tento.

A teoria da dependência nem mesmo se aplica aqui, já que o neocalvinismo originou-se numa Holanda que, para todos os efeitos, estava e mesmo hoje está longe de ser potência dominante em termos econômicos ou políticos ou acadêmicos. Se o assunto fosse colonização intelectual, o verdadeiro problema seria o domínio de pensadores Norte-americanos (ou “Estadunidenses”, para os iniciados), Alemães, Britânicos (John Stott pode, né?), Franceses (Jacques Ellul também pode?). E o que dizer da colonização da mente da juventude evangélica progressista por autores seculares, lidos em universidades Brasileiras, que ganham preponderância sobre autores Cristãos clássicos e sobre a ortodoxia teológica protestante? Mas as incoerências não param aí: se citamos Herman Dooyeweerd como filósofo Cristão, imediatamente somos lembrados de que a academia Brasileira não o reconhece (fato). Mas, nesse caso, que “imperialismo cultural” é esse? Inconsistências sem fim.

De todo modo, o esforço de contextualização e cross-fertilization foi iniciado, em 2006, quando procurei estabelecer uma aproximação entre o neocalvinismo e a teologia latino-americana nos livros “Cosmovisão Cristã e Transformação” e “Fé Cristã e Cultura Contemporânea”. Mais recentemente esse interesse tornou-se coletivo com as contribuições independentes de outros nomes como o de Leonardo Ramos (PUC-Minas), Jonas Madureira (Mackenzie), Filipe Fontes (Mackenzie), Lucas Freire (em Exeter à época), Guilherme Braun (North-West) e de vários outros interessados nas questões da teologia brasileira. Mas no que se refere a mim, que fique claro: o que temos apresentado não é o “neocalvinismo holandês”, mas o “neocalvinismo mineiro”. Uai sô!

Mas outra qualificação se faz necessária, aqui: estou desenvolvendo uma crítica fundacional ao neocalvinismo, já há dois anos. Os amigos logo descobrirão que para nós não existe vaca sagrada – nem se ela for “holandesa”! E quando apresentar minha crítica, desafiarei os teólogos brasileiros da Missão Integral a fazerem o mesmo com René Padilla.

  • Porque você faz caricaturas do Progressismo Evangélico?

Reproduzo a crítica de um blogueiro e minha resposta inicial:

“ele pinta uma caricatura dos ‘evangélicos progressistas’ brasileiros. Sou evangélico, de origem presbiteriana e tenho frequentado uma igreja anglicana na Inglaterra. Também sou um ‘esquerdista’ como o pessoal diz. Sou membro da Fraternidade Teológica Latino-Americana, instituição que representa o legado da teologia da missão integral. E simplesmente não consigo me ver em nenhuma das categorias que Guilherme de Carvalho elabora. Acho que a leitura dele, de que os evangélicos progressistas praticam um sentimentalismo estético que se mete numa encruzilhada ética e política insolúvel, não capta nem de longe a diversidade ou a complexidade dos seus agentes. Ao caricaturizar os setores evangélicos progressistas Guilherme de Carvalho os transforma numa abstração dentro da qual os próprios progressistas não se reconhecem.”

Ora, em meu artigo eu tenho sido bastante claro: minhas críticas se dirigem àqueles progressistas evangélicos que cometem os erros que descrevi. Por exemplo: de permitirem que o sentimentalismo bloqueie sua capacidade de confrontar os desmandos da “revolução afetiva”. A quem se dirige essa crítica? Aos que cometem esse erro – todos eles. Os que se incomodaram com essa crítica foram exatamente… os que cometem esse erro. Outro exemplo é a falha da “cristologia superestrutural”, o novo misticismo semântico. O erro é evidente; o fato de alguns irmãos que o cometem não se reconhecerem na crítica, mas não serem capazes de explicar que não estão reduzindo a cristologia à ideologia, comunica aos que estão preocupados com esse erro – e são muitos e muitos, dada a significativa ressonância que meu artigo produziu no contexto evangelical, e que foi além do que se vê na rede social – que eles não se reconhecem nesse erro porque não querem reconhecer o erro.

Mas sobre isso, tenho outro comentário: eu não estou caricaturando o progressismo, como se não o conhecesse, pois por quase dez anos me descrevi como um representante de uma ala do progressismo evangélico. Fiz isso no livro “Cosmovisão Cristã e Transformação”, do qual transcrevo um trecho de minha pena:

“…o fato de o interesse por qualquer conceito de ordem da criação ser praticamente ausente das reflexões indica uma real diferença de tendência entre a teologia da missão integral e a perspectiva neocalvinista. Afinal de contas, de qual progressismo a teologia da missão integral fala?

O cristianismo que poderíamos chamar, com Wolterstorff, de cosmoformativo (world-formative) não é meramente disruptivo (ou revolucionário), senão também, redentivo; e não-reacionário, pois compreende que há uma linha de avanço e diferenciação cultural enraizada no mandato cultural em Gênesis. A forma neocalvinista de progressismo seria então o compromisso com a reforma da ordem social, pra submetê-la às leis de Deus; um progressismo reformacional” (Capítulo 9: “A Teologia Política da Missão Integral no Brasil e a Filosofia Social Reformacional: Aproximações”, p. 262-263).

Como o texto deixa claro, eu mesmo me defini como progressista, já em 2006. Se alguns de meus críticos houvessem considerado que minha interação crítica – e empática – com o progressismo evangélico vem de longa data, não teriam caído nessa interpretação superficial e, é preciso dizer, sentimentalista. Ainda que eu houvesse produzido uma mera caricatura, seria prudente conferi-la; mesmo caricaturas tem seu valor! Mas no caso, não foi uma caricatura. Foi um tipo geral, apenas ideal, mas que descreve parte dos progressistas evangélicos com mais de 90%, por assim dizer, de precisão. Mas sei que muitos progressistas evangélicos não são atingidos por minha crítica. O colega Luiz Felipe Xavier, por exemplo (Instituto Izabela Hendrix, BH), por exemplo, não se sentiu; nem Ziel Machado (Servo de Cristo, SP). Eu também sou (seria melhor dizer que fui? estou pensando a respeito) um deles.

Isso torna terrivelmente problemática a seguinte declaração do blogueiro:

Finalmente, concluo com dois pedidos. Primeiro, que Guilherme de Carvalho ouça mais cuidadosamente seus irmãos de fé à esquerda e faça menos generalizações, que não combinam com sua inteligência, erudição e talento literário privilegiado. Cite nomes, fatos e textos ao invés de golpear uma caricatura esfumaçada (pode começar criticando esse aqui, o que muito me honraria se abríssemos essa possibilidade de diálogo).

Bem, então a minha questão é a seguinte: eu ouvi cuidadosamente os irmãos de fé da esquerda. Meu capítulo citado acima foi lido e entusiasticamente aprovado pelo saudoso Dom Robinson Cavalcanti. Por outro lado, o blogueiro não me ouviu cuidadosamente; do contrário, teria se informado sobre a interação reflexiva de longa data que tenho com o progressismo evangélico, e não teria falhado em citar o referido artigo. Mas ao menos o blogueiro referido teve a prudência de desejar abrir um diálogo, ao invés de partir para o mero ataque desinformado que se tornou usual. Que isso seja sempre lembrado a seu favor.

O absurdo é que tenho descoberto que, com pouquíssimas exceções, meus críticos ignoram meus artigos, minhas palestras, e até meus posts de blog, bem como várias referências teológicas e filosóficas que emprego nos meus textos, e continuam irresponsavelmente afirmando que minhas críticas não têm fundamento.

A sugestão de que eu não ouvi os irmãos à esquerda cuidadosamente ou que fiz meras generalizações é perfeitamente absurda. Boa parte dos que me acusam de caricaturar o progressismo evangélico ainda não começaram a interagir seriamente com o meu trabalho. Se isso for verdade, como parece, sou obrigado suspeitar que alguns deles tem alimentado involuntariamente essas caricaturas da extrema-esquerda evangélica.

  • Você não está confundindo TMI e Progressismo Evangélico?

Essa é uma pergunta realmente boa, bem colocada a mim pelo Dr. Jorge Henrique Barro (FTL). Pois as coisas são bem diferentes. A TMI é uma genuína abordagem teológica e missiológica. O progressismo evangélico é uma forma de teologia política e de militância política. São coisas qualitativamente distintas.

Mas elas têm uma conexão interna. Percebi, em meus estudos, que a abertura da TMI para o emprego de mediações socioanalíticas (MSA’s) para a contextualização do evangelho (o “ver-julgar-agir” ou “observar-interpretar-agir”, o famoso “OIA!”) sem um procedimento sistematizado de crítica pressuposicional das ciências humanas é uma fragilidade que se presta à ideologização do discurso missiológico, na medida em que as MSA’s empregadas são sempre ideologicamente constituídas – algumas mais do que outras.

Assim, tem sido comum, para mim, encontrar defensores da TMI que não apenas são progressistas, mas entendem que o progressismo é uma tradução contemporânea e contextualizada das demandas Bíblicas por justiça e misericórdia. Ora, essa crença é terrivelmente questionável, mas uma vez que a ideologia seja absorvida, parece tornar surdos aqueles por ela intoxicados.

Ainda assim, há muitos irmãos defensores da TMI que não são progressistas, ou que são progressistas, mas evitam confundir as preferências humanas sobre economia política e teoria da justiça com as demandas amplas e revelacionais da Escritura sobre justiça e misericórdia. Estes são os que não se apressam identificar a militância política de esquerda com “o bem” e a defesa de ideias conservadoras ou de direta como “o mal”.

Mas outra qualificação é necessária: há progressistas e progressistas, como mencionei na pergunta anterior. Nem todo progressismo evangélico é caricato como o daqueles que confundem a fé com a militância política de esquerda, tratando-a como “o seu ministério”.

  • Não é injusta a acusação generalizante de que a TMI é Marxista? Isso não coloca a todos os defensores sob suspeita, de forma desonesta?

Essa pergunta é tanto sobre aonde estaria o marxismo na TMI quanto sobre o método da minha crítica. É também uma excelente pergunta. Então vamos lá:

– Em primeiro lugar, tenho precedente óbvio para isso. Considere-se as cartas de Paulo, ou de João; nelas, nomes não são dados, quando se atacam falsas doutrinas, exceto em casos extremos. Quando João diz, por exemplo, “Todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne, não é de Deus”, ele estabelece um critério de discernimento ou de “diacrise” sem objeto pessoal, exatamente por ter como alvo uma mentalidade, e não uma pessoa em particular. Paulo faz o mesmo, quando diz “se alguém ensinar outro evangelho…”. Como Pedro, e o próprio Tiago.

Estou combatendo atualmente um grave erro teológico que está obviamente disperso, e que é de difícil detecção. Eu poderia, sim, elencar uma penca de militantes que foram educados na “escola da TMI” e que defendem uma forma mais ou menos definida de marxianização da missão cristã, ou que desprezam a noção de ordem criacional como uma das fontes (ainda que não a única) da ética social Cristã, mas que não tem a projeção ou a importância para justificar um ataque público de minha parte. Mas essas figuras estão presentes na Rede Fale, na Renas, na FTL e em outros contextos afins.

– Em segundo lugar: eu poderia, sim, apresentar uma lista de nomes de jovens estudantes da TMI e militantes das agremiações acima referidas, mas isso seria terrivelmente improprio por um número de razões. A primeira delas, obviamente, é que isso queimaria os nomes desses jovens perante um enorme contingente de pastores e líderes conservadores que compartilham de minhas suspeitas, tornando difícil a sua vida fora dos círculos eclesiais que tratam esse erro teológico com normalidade – tirando também sua oportunidade de pensar friamente sobre o tema. Além disso, alguns deles são desigrejados ou mal relacionados com suas igrejas locais, e isso tornaria sua situação ainda pior. É por misericórdia e, também, por não ser um covarde, que não nomeio todos os que gostaria de nomear.

– Em terceiro lugar, não sei exatamente até que ponto vários dos defensores da TMI estão comprometidos com os erros teológicos e ideológicos que venho atacando. Lancei, então, uma rede: aqueles que ficam em silêncio diante das minhas críticas ou que procuram se defender, acabam entregando publicamente sua inconsistência, ou ingenuamente defendendo o erro, ou sendo coniventes. Estou, publicamente, forçando os defensores da TMI a deixarem a ambiguidade e a dizerem EXATAMENTE o que pensam a respeito de marxismo, de teologia evangélica, de práxis, de luta de classes, de natureza e graça, de Cristologia, de ética sexual, e assim por diante. Com todo o respeito aos irmãos, devo afirmar que há muita dissimulação entre teólogos e militantes evangélicos progressistas que precisa ser desmascarada e posta a público. E quem não deve, não teme.

Mas todos os leitores podem ter uma certeza: não hesitarei em pôr sob escrutínio crítico e, eventualmente, crítica pública, as ideias de nomes importantes como o de Ariovaldo Ramos, ou de Clemir Fernandes, ou de Paul Freston, ou de Ed Rene Kivitz, ou de qualquer líder evangélico no qual eu encontre alguma das falhas que já descrevi: sentimentalismo político e captura pela afetivização da moral, pulsilanimidade na condenação pública da ideologia de gênero, intoxicação ideológica e aparelhamento partidário, imanentização cristológica (a falha metateológica referente ao teosofema de Natureza e Graça), adoção da abordagem dialética ou conflitiva como princípio de organização da missão evangélica, historicismo e recusa do princípio da Ordo Creationis no campo da ordem social e, acima de tudo, o que denominei como o “desvio teleológico” na palestra “A Missão Cristã e a Linguagem da Transformação”. Todas essas chaves críticas, mais do que opiniões excêntricas, baseiam-se na teologia cristã clássica e em orientações apologéticas e pastorais de alcance ecumênico, e serão usadas em defesa da CATOLICIDADE DO CRISTIANISMO EVANGÉLICO. De todo modo, não escrevi nada sobre esses autores porque não encontrei evidências suficientes para tanto ou porque precisarei conhecer um pouco melhor o seu trabalho antes de me pronunciar.

Ora, sou um apologista. Trata-se, pura e simplesmente, de meus deveres públicos, e não de questões pessoais. Não digo isso com espírito contencioso, nem tenho planos traçados de confronto com os colegas citados acima, ou a outros em particular. Citei-os apenas porque alguns acreditam, erroneamente, que pretendo evitar o debate teológico direto. Se houverem motivos, o farei de bom grado.

Seguindo adiante, devo acrescentar: tenho a impressão, às  vezes, de que alguns defensores da TMI, com uma mão, afirmam estar livres do erro marxiano; mas com a outra o praticam, ainda que inconsistentemente ou, talvez, inconsciente.

Um exemplo, bastante comum, é a pratica de conceber as ações de luta pela justiça social em termos de uma luta de classes, e absorver a crítica marxiana da economia política como instrumento hermenêutico básico para orientar essa militância conflitiva. Já debati com militantes da Rede Fale, por exemplo, que não apenas confessam, mas defendem esse ponto abertamentemas negam rotular-se publicamente. Nesse caso, não é preciso confessar qualquer adesão ideológica explícita ao marxismo; basta a adoção desse posicionamento e a militância correspondente. Esse é um tipo dissimulado (ainda que não intencionalmente) de adesão à mente marxiana.

Outro exemplo também muitíssimo comum é a ideia de práxis como chave hermenêutica. Essa noção é frequentemente usada como ferramenta de fazer teológico no qual a situação, interpretada por meio das ciências humanas (e, no caso, por versões esquerdizadas e militantes dessas ciências) se coloca como ponto de referência para a resposta missional e teológica. A ideologia das práxis, embora não exclusivamente marxiana, é um dos principais instrumentos de imanentização do discurso teológico, e uma janela aberta para a cooptação ideológica de seguidores da TMI, a maioria dos quais não são representativos em termos de produção e criatividade, pela ideologia genericamente marxiana da esquerda brasileira, de um modo que os faz ver a si mesmos como “contextualizadores” do evangelho.

  • Qual seria a alternativa às Mediações Socio-analíticas ligadas ao “OIA”?

Aqui entram duas questões importantes: a primeira é que assumo, desde o princípio, a visão agostiniana de que é possível uma verdadeira filosofia cristã, em diálogo com a teologia e submetida ao evangelho, a qual poderia funcionar (e desse ponto em diante, refiro-me a Herman Dooyeweerd) como uma verdadeira heurística das ciências.

Nesse sentido, a filosofia não é mais uma das ciências, mas uma sabedoria crítica destinada a articular nossa vida e reflexão no tempo, e sendo ela passível de incorporação pela teologia filosófica, serviria ao Evangelho da forma que lhe é própria: como serva da consciência cristã reexaminando as categorias fundantes das ciências e examinando o próprio mundo da vida sob a ótica existencial.

Já as ciências humanas são incapazes de fazer isso, pelo fato óbvio de que focalizam abstrações particulares da realidade e, embora possam auxiliar a filosofia a obter maior precisão na descrição da realidade temporal em sua totalidade, não são capazes de dizer nada sobre a sua relação com as outras ciências. Essa tarefa é filosófica (recomendo, a esse respeito, a obra de Abraham Heschel, “Who is Man?”).

Por isso mesmo, toda a ideia de que as ciências humanas poderiam cooperar com a teologia no mesmo sentido que a filosofia é um erro metodológico crucial. Elas não podem fazê-lo, não porque sejam inferiores, mas porque são estruturalmente diferentes e tem outra função na enciclopédia das ciências. Nesse respeito, defendo um retorno à opinião clássica de Agostinho sobre a possibilidade da “Philosophia Christiana”.

II. BALANÇO PRELIMINAR E ROTEIRO DE LEITURAS

É difícil saber a essa altura qual será o impacto das minhas críticas – se nulo, transformador ou apenas polarizador. Do ponto de vista da qualidade analítica das críticas recebidas até agora, julgo que, ou não houve ainda seria interação crítica, significando que devo aguardar com paciência e humildade, ou ela houve e não pôde construir refutação. Provavelmente, um pouco de cada uma.

Um crítico acadêmico, por exemplo, tentou recusar meus argumentos sobre o “sentimentalismo” com a alegação de que uma autora por mim empregada (Eva Illouz) seria meramente… uma ensaísta! Ora, com toda certeza a ensaísta, que é professora de sociologia na universidade Hebraica de Jerusalém, tem livros publicados por casas como a University of California Press, e proferiu as Adorno Lectures no Instituto de Pesquisa Social de Frankfurt, tem credenciais muito superiores a mim e à maior parte dos meus críticos. Vê-se, aqui, que a oposição apaixonada pode desorientar acadêmicos também.

Não nego, naturalmente, que esforços de resposta não tenham ocorrido; mas em sua vasta maioria foram bastante reacionários ou com pretensões acadêmicas vazias, baseadas em alegações de titulação acadêmica mas carentes de gênio criativo. Ao invés de reconhecer os problemas por mim levantados – muitos deles públicos e notórios, mas não descritos com precisão até agora – tentam negar sua existência ou lançam algum paupérrimo Ad Hominem para desviar o foco. Ora, seria muitíssimo interessante ouvir os defensores do progressismo evangélico dando outras explicações para os problemas e propondo soluções diferentes das minhas; isso seria um verdadeiro avanço! Nesse caso eu aceitaria a derrota, feliz; pois quero de todo o meu coração ser capturado e aprisionado pela verdade. Mas a maior parte do que encontrei até agora não passou de respostas reativas, de “bate-pronto”, que negam “de cara lavada” a própria existência dos problemas, ou desviam a atenção para arestas secundárias dos argumentos. Isso é de uma ironia tragicômica: o progressismo evangélico se tornando reacionário e calcificado, tentando a todo custo evitar a sua superação.

Até o momento, minha crítica ao progressismo e a seu uso da TMI tocou nos seguintes pontos (aproveito para fazer indicações de autores de referência, para os interessados em se aprofundar na questão; e que ninguém seja ingênuo em pensar que a crítica em desenvolvimento aqui se reduz ao conteúdo dos posts em meu blog!):

  1. O problema da “intoxicação ideológica” da fé, interpretada por mim como uma manifestação de “idolatria política”. Foi uma crítica iniciada em meados de 2014, e bastante influenciada pelos trabalhos acadêmicos de G. K Beale e de Bob Goudzwaard, mas que pode ser ilustrada com autores mais populares (como Tim Keller, em “Deuses Falsos”). (VEJA AQUI e, de forma puramente “panfletária”, AQUI; e não perca a palestra “Três Tipos de Idolatria”, AQUI).
  2. A crítica da visão teologicamente insuficiente de Estado, que remonta ao MEP (“a visão cristã do estado é a de que o estado não deve ser cristão”) à qual opus minha proposta teologicamente positiva: “a visão cristã do estado é a de que o estado não deve ser Deus”, como forma de dar materialidade à rejeição da idolatria política. Todo o trabalho aqui é profundamente dependente de Herman Dooyeweerd, Bob Goudzwaard, David Koyzis e Santo Agostinho (A Cidade de Deus). (VEJA AQUI e também AQUI).
  3. O problema do sentimentalismo (uma forma artificial e “pós-emocional” de gerenciar as relações humanas) no discurso político e na própria compreensão da fé Cristã que, na esteira da revolução afetiva, bloqueia a capacidade dos evangélicos progressistas de se posicionar em temas graves de micropolítica e das implicações morais de políticas públicas, como no caso particular da militância LGBT. Sobre o tema, foram fundamentais Gilles Lipovetsky, Stejpan Mestrovic e Eva Illouz. Recentemente recebi uma recomendação adicional sobre o tema: “Podres de Mimados: as consequências do sentimentalismo tóxico”, de Theodore Dalrymple. (VEJA AQUI e também AQUI)
  4. O problema da inversão da relação entre Natureza e Graça, de modo a submeter ou subsumir o evangelho a categorias imanentes, com perda de transcendência. Apontei a absorção política da imagem do Cristo (o fenômeno do “Cristo superestrutural”) como evidência dessa inversão, manifesta no “caso Espinal”. Sobre essa inversão, as fontes são Herman Bavinck, Herman Dooyeweerd, Henri de Lubac e John Milbank. Franklin Ferreira recomendou recorrer também, aqui, aos escritos apologéticos de Bento XVI e ao trabalho recente de Clodovis Boff (mesmo dizendo respeito à teologia da libertação, respinga na questão da TMI). (VEJA AQUI)
  5. O problema hermenêutico das mediações socio-analíticas, uma abordagem de teologia pública que não oferece proteção adequada à essência da mensagem Cristã e se presta, ainda que não intencionalmente, à ideologização. Aqui destacamos a importância de James K. A. Smith e Kevin Vanhoozer sobre hermenêutica, Thomas Torrance e Alister Mcgrath sobre a natureza distinta e “katafísica” da teologia Cristã (conferir, em particular, “The Science of God” de McGrath), e de Dooyeweerd sobre a filosofia cristã como heurística das ciências. (VEJA AQUI; sobre Dooyeweerd, AQUI e também o artigo incipiente mas ainda útil, AQUI).
  6. O problema do uso da “linguagem da transformação” de um modo potencialmente perigoso para a fé e a espiritualidade Cristã. Em particular, procurei chamar a atenção para a abertura à influência do historicismo, com sua incompatibilidade para com a ideia Cristã clássica de “Ordo Creationis”; aqui foram críticos Isaiah Berlin (The Roots of Romanticism), Roy Clouser, a “Doutrina Social da Igreja” (da encíclica “Rerum Novarum” até a “Centesimus Annus”; conferir a discussão em “Visões e Ilusões Políticas” de David Koyzis) e, acima de tudo, Abraham Kuyper e Herman Dooyeweerd. (VEJA AQUI e também AQUI).
  7. Também no campo da linguagem da transformação, o “desvio teleológico” implícito no interior, tanto da TMI quanto do Neocalvinismo, que procura localizar o propósito último da existência ou da missão de Deus na mera habitação do mundo ou da ordem temporal, quando a tradição clássica da igreja sempre reconheceu a prioridade hierárquica do eterno sobre o temporal. Fomos muito auxiliados aqui por clássicos antigos e modernos como Agostinho, Boécio, Tomás de Aquino, Jonathan Edwards e Soren Kierkegaard, além de criativos teólogos contemporâneos como John Milbank (“The Suspended Middle”), Hans Boersma (“Heavenly Participation”) e Todd Billings (“Calvin, Participation and the Gift”). Uma referência crucial para a reavaliação da utilidade prática da linguagem da transformação é o trabalho do analista social James Davison Hunter (“To Change the World”). (VEJA AQUI e também AQUI)

Três outros temas estão programados para a nossa crítica, no futuro:

  1. [8] O problema da “inversão moral” (Michael Polanyi) e da transformação da paixão moral em impulsos revolucionários, em contextos de desconstrução niilista da ética, e que caracteriza o “pathos” de movimentos de esquerda altamente ideológicos. Nosso ponto será a incompatibilidade entre o descanso da fé e esse pathos revolucionista, e porque esse pathos tem o potencial de arruinar completamente a piedade evangélica. (VEJA UMA PRÉVIA AQUI).
  2. [9] O problema da adoção da estratégia da “luta de classes” – ou, de um modo mais geral, no contexto hipermoderno, da exacerbação do conflito social – como meio fundamental de promoção do avanço da justiça e, assim, da missão integral. Essa posição não é defendida em textos ou documentos, mas tem sido extensivamente praticada em alguns setores. Alegaremos que essa abordagem supõe uma ontologia de violência, e não de reconciliação.
  3. [10] O difícil problema da “catolicidade” da Missão Integral. Procurarei mostrar que catolicidade é uma categoria mais ampla e importante que a de “integralidade”, e que esta última deve ser submetida àquela, com uma série de implicações importantíssimas para o futuro do evangelicismo.

Além desses dez pontos, lembramos que a forma seminal e primitiva dessas críticas, contendo elementos não retomados na série acima mas ainda válidos, apareceu nos livros “Cosmovisão Cristã e Transformação” (Ultimato, 2006) e “Fé Cristã e Cultura Contemporânea” (Ultimato, 2009). Dois artigos, em particular, tratam da TMI: “A Teologia Política da Missão Integral e a Filosofia Social Reformacional”, no primeiro livro, e “A Missão Integral na Encruzilhada: Compreendendo o Ponto de Tensão no Pensamento de Lausanne”, no segundo livro.

Lembro também dois trabalhos de companheiros nossos: o indispensável livro “Ortodoxia Integral: teoria e prática integradas na Missão Cristã“, do filósofo Goiano Pedro Lucas Dulci, e o artigo “Propostas Teológicas Latino Americanas e a Tradição Reformacional: um olhar inicial“, por Josué Reichow (EST, São Leopoldo).

Finalmente, consideramos um conjunto particular de obras paralelas, disponíveis em língua portuguesa (omitiremos fontes estrangeiras), como essencial para a boa compreensão da nossa posição: os livros “No Crepúsculo do Pensamento Ocidental” (Hagnos), “Raízes da Cultura Ocidental” (Cultura Cristã) e “Estado e Soberania” (EVN), de Herman Dooyeweerd, bem como “Visões e Ilusões Políticas”, de David Koyzis (EVN), “Arte Moderna e a Morte de uma Cultura”, de Hans Rookmaaker (Ultimato) e “A Visão Transformadora” de Walsh/Middleton (Cultura Cristã). Em teologia, disponíveis em português, recomendamos os trabalhos de Alister McGrath e de Herman Bavinck; e sobre a reorientação teleológica da espiritualidade cinco clássicos de espiritualidade bem conhecidos dos evangélicos brasileiros: Jonathan Edwards, Soren Kierkegaard, C.S. Lewis (Peso de Glória), John Piper (herdeiro contemporâneo de Edwards e de C.S. Lewis) e Francis Schaeffer (A Verdadeira Espiritualidade). Sobre questões políticas, vale conferir “Pensadores da Nova Esquerda” de Roger Scruton.

Reitero que a maior parte dos meus críticos, inclusive teólogos e líderes representativos do movimento de Missão Integral, ignora a existência de várias dessas obras, ou ignora parte delas como “enlatados estadunidenses” (o caso de Piper e Schaeffer), bem como ignora meus breves mas irritantes artigos e palestras gravadas, ou os evitam, e por isso tem grande dificuldade de acompanhar nossas discussões. Aqueles que já interagiram com as versões seminais de nossa crítica devem ser cuidadosos em checar se nossos críticos realmente interagiram com a nossa produção ou tão somente reagem emocionalmente aos nossos posts de blog ou de rede social.

III. PAUSA PARA “HIDRATAÇÃO”

Os primeiros sete pontos expostos acima exigem ainda clarificação e correção – são obviamente, testes argumentativos. Os três últimos pontos serão retomados e apresentados a partir do final de Outubro deste ano. A razão é bem prática: os deveres pastorais e, acima de tudo, o compromisso de concluir um livro sobre espiritualidade Cristã, já encomendado para Setembro deste ano, impedirão completamente o meu retorno ao tema por hora. Ele somente será retomado após o “II Curso Faraday-Kuyper de Ciência Tecnologia e Religião” que estamos promovendo para Outubro em Belo Horizonte. Peço aos amigos e críticos, portanto, paciência e atenção mais cuidadosa e menos visceral aos pontos principais dos argumentos, evitando prender-se a minúcias secundárias, bem como evitando posicionamentos reacionários. O pânico não ajudará em nada essa discussão que tem sido adiada por dez anos; e para a TMI só há duas saídas: ou se deixa superar, ou caminha para frente. Retroceder por saudosismo ou reagir de bate-pronto será garantia de derrocada.

Concluo com as palavras do caro interlocutor Jorge Henrique Barro (FTL) dirigidas a mim em um post recente, e que me acompanhará nesse tempo de “licença”, e que deve acompanhar a todos os envolvidos na discussão:

“É hora de entender que nossas diversidades são fundamentais para o desenvolvimento da nossa unidade. Unidade (em Cristo) não se constrói (Cristo já fez isso!). Unidade se mantém (preserva) ou não. Que sejamos achados sempre como aqueles que lutam e se esforçam para “diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz” (Ef 4:3) “até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo” (Ef 4:13).”

ARTIGO ORIGINALMENTE PUBLICADO EM 19 DE JULHO DE 2015

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