2. Cidadania em Rede e o “crente líquido”

Logo após as manifestações de 2013, com grande protagonismo das redes sociais online, me senti compelido a pensar mais seriedade sobre o fato das redes e como isso poderia impactar as igrejas Cristãs. Penso que a revolução afetiva e o crente “líquido” encontram seu correspondente em processos acelerados de contágio social através das redes. Uma coisa puxa a outra: a revolução afetiva é o “software” e os processos em rede o “hardware” (para entender melhor o que chamo de revolução afetiva, confira a palestra no canal de L’Abri: https://www.youtube.com/watch?v=AtDpUa087PM&t=5283s).

Não é o caso de apenas criticar, mas de compreender: as igrejas diante das redes e da transformação digital. Com esse novo terremoto – a Pandemia – e o desafio da transformação digital batendo à porta das igrejas, a questão ficará ainda mais aguda.

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A surpresa dos primeiros dias de manifestação não impediu a proliferação de palpites e experimentos analíticos por sociólogos, jornalistas, economistas, e observadores menos profissionais que se proliferam na vasta blogosfera e nas redes sociais. Não apenas todo mundo queria participar; todo mundo queria tweetar, ver, compartilhar, ouvir e opinar também.

E esse movimento não vai parar tão cedo. Há muito o que fazer para interpretar o fenômeno; e precisamos nos esforçar para interpretá-lo se quisermos responder a ele de forma inteligente – e tanto faz se você é um oponente ou um participante; o fato é que junho de 2013 e a maior manifestação popular da história do Brasil não podem ser ignorados.

O que está acontecendo, e porque está acontecendo desse jeito? Nesse post não vamos nos debruçar sobre todas as questões mais amplas da conjuntura política e até mesmo sobre o sentido das últimas respostas pelo governo e o congresso, mas sobre o tipo de reação política que acabamos de testemunhar. O que é isso, afinal? Uma convulsão, uma catarse social ou algo mais?

Tectônica

Movimentos tectônicos intensos não são totalmente previsíveis; geólogos sabem muitas vezes que um terremoto pode acontecer em uma área de encontro de placas, mas a previsão pode ser dada como algo “nos próximos dias” ou “nas próximas centenas de anos”. E muita coisa acontece sem aviso.

“Tectônica Social” é uma boa metáfora para exprimir a sensação que todos tiveram, de um movimento massivo, subterrâneo, imprevisível, contra o qual não faz qualquer diferença a opinião. Eu sou radicalmente contra terremotos e vulcões. Acho todos absurdos, barulhentos, perigosos, e fica tudo uma sujeira. Mas fazer o quê? Pegamos um pequeno terremoto em Santiago no ano passado; quem já pegou um sabe que não dá pra ir muito longe ou fazer muita coisa. O negócio é ir pra baixo da mesa mais próxima.

Nosso terremoto brasileiro não ofereceu ainda perigo para a vida das pessoas, mas certamente atingiu em cheio as instituições políticas. Certamente podemos e devemos nos posicionar diante disso, mas um esforço de compreensão empática é essencial. Não se trata apenas de responder se gostamos ou não do que vemos, mas de ouvir o diferente e interpretar essa alteridade.

Aqui transparece um óbvio e repetido erro de muitos observadores, principalmente aqueles de extrema esquerda ou extrema direita que não conseguem ver além do próprio umbigo e avaliam o fenômeno o tempo inteiro do ponto de vista de sua utilidade ou risco para a militância, para o projeto ideológico. Não é que seja errado constatar o que tudo significa para a minha posição (pelo contrário, é indispensável), mas que limitar-se a isso é evadir-se ao diálogo; é trancar-se numa prisão narcisista que só vê o próprio rosto em tudo.

“Tectônica Social” é uma boa metáfora para exprimir a sensação que todos tiveram, de um movimento massivo, subterrâneo, imprevisível, contra o qual não faz qualquer diferença a opinião.

Porque é tão difícil imaginar que o povo pode ser algo mais do que um escravo da ideologia inimiga ou um “camarada” da militância? Talvez o povo não esteja do lado de ninguém. Talvez o povo esteja do seu próprio lado.

A Crise de Representação

O povo protestou contra muita coisa. O que está errado? Tudo, num certo sentido: corrupção, gastos excessivos com a copa mais cara da história, crise geral de infraestrutura, e a sombra da inflação; tudo isso apareceu nas manifestações. Mas o fato mais relevante não foi tanto o conteúdo explícito das reivindicações quanto o modo como elas se materializaram. Deu-se o que alguém chamou de “democracia direta”, ou política de ação direta, esse esforço popular de, como eu descrevi em outro post, contornar o sistema de representação e apertar o pescoço do estado. Não faltaram críticas a essa movimentação como algo “pré-político”, como uma regressão. E parece ser mesmo uma regressão, já que os esquemas estabelecidos de representação e prestação de contas são completamente ignorados enquanto o povo exige do governo todo tipo de coisa, da construção de novas passarelas em rodovias ao impeachment da presidente.

o fato mais relevante não foi tanto o conteúdo explícito das reivindicações quanto o modo como elas se materializaram.

Mas não há do que reclamar, já que a regressão aconteceu no próprio sistema político. As estruturas de representação se descolaram do povo e passaram a operar autonomamente, como um sistema independente que transfere os custos para a base e se perpetua alheio a ela. Há muito tempo as forças que operam na estratosfera política obedecem a interesses politiqueiros e econômicos mais do que às realidades populares, e prevalece um sentimento difuso de que essa esfera é inacessível: “votar pra quê?”. O brasileiro vota, mas o significado subjetivo desse voto é miúdo e volátil. Não é por isso o povo botou o governo e a Fifa na berlinda? No Rio o povo ataca a Alerj; em Belo Horizonte tenta chegar ao Mineirão em dia de jogo da copa das confederações. O problema é o sistema político e aqueles que o manipulam à revelia do povo, simbolizados agora pela Fifa. Não foi o povo quem regrediu; o povo quer o poder de volta, o poder operando em seu favor.

Solubilidade Política

Um sinal exemplar de insensibilidade em relação a esse clamor é a alegação de que o movimento era originariamente de esquerda e que foi descaracterizado; portanto perdeu o sentido. Sim e não; ele foi descaracterizado, mas não por uma orquestração maléfica da direita. O que ocorreu foi um “efeito borboleta”: as reivindicações do MPL (“Movimento Passe Livre” – não confundir com MBL) catalisaram um processo de mudança política; ou, melhor dizendo, dispararam um processo de alteração de estado da “matéria social” que pôs a força política em estado líquido – algo que curiosamente acontece a certos tipos de solo quando há um terremoto. Os tijolinhos sólidos de força política que os políticos costumavam empilhar e transportar se tornaram num fluido inadministrável. A liquefação política aguardava apenas um input de energia suficiente para iniciar o processo, e o MPL fez o serviço.

O susto aconteceu porque o movimento causou demais; não apenas levou a uma vitória imediata do MPL em São Paulo e em outras cidades, como acordou forças contraditórias de todos os tipos. Movimentações fascistas aconteceram realmente, mas muita gente foi pra rua representando a si mesmo ou a seu grupo particular: estudantes, movimentos sociais, militância LGBTs, advogados, profissionais da saúde, sindicatos, grupos de cristãos, artistas e skatistas. Acima de tudo, no entanto, havia indivíduos. Uns mais carnavalescos, outros seriamente politizados, outros nem tanto. Tudo muito líquido, como diria Zygmunt Bauman.

muita gente foi pra rua representando a si mesmo ou a seu grupo particular … Acima de tudo, no entanto, havia indivíduos.

Coagulações

É fato, também, que as coagulações se iniciaram quase simultaneamente; no caso dos cristãos, por exemplo, sua presença nas manifestações antecedeu à sua articulação em vista da visibilidade pública. Na esteira do MPL outros grupos de manifestantes fizeram o mesmo e com mais agilidade, representando diferentes movimentos sociais, mas um tipo em particular de coagulação foi proibida: a dos partidos. As tentativas da própria direção do MPL de interpretar a rejeição dos partidos como fascismo golpista (embora haja fascistas golpistas misturados à massa) chegam a ser infantis no fracasso em reconhecer que o fenômeno todo é a contradição do sistema político, não por uma vontade perversa, mas por uma lógica sistêmica. Não foi a má vontade das pessoas que afastou as bandeiras partidárias, nem o “fascismo”. Foi a lógica do processo, o seu pathos. O erro foi dos partidos de esquerda que não entenderam nada.

Não foi a má vontade das pessoas que afastou as bandeiras partidárias, nem o “fascismo”. Foi a lógica do processo, o seu pathos.

A realidade dessas coagulações ou pontos de solidificação indicam que a liquidez atual tem limites. O povo não permanecerá nas ruas indefinidamente; ainda assim algo mudou no modo de fazer política. O que levou o sistema a essa condição instável, na qual um input de energia dissolve repentinamente o equilíbrio e põe os indivíduos em fluxo?

O Cidadão em Rede

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É que o tecido social mudou, por razões diversas. A sociedade dos indivíduos já é por si mesma líquida, pulverizada, frouxa de conexões tradicionais e comunitárias; a conjuração do estado dos direitos individuais, da diversidade e da autonomia dos indivíduos, com o mercado e sua força destrutiva para o tecido social não poderia produzir outra coisa. Gostando ou não, os movimentos sociais estão de braços dados aqui com o capitalismo de hiperconsumo.

Mas além disso a comunicação em rede condicionou profundamente a interação social. O fluxo de informações e de novas ideias e a velocidade de conexão/desconexão entre as pessoas acelerou-se de forma quase brutal. Conversações que antes durariam duas semanas avançam em dois dias. Impressões são trocadas por vias não apenas textuais mas também sensorialmente elaboradas (vídeos, fotos, e áudios fora do controle da imprensa), e a informação é sistematicamente quantizada (e distorcida) para tornar-se transferível, tuitável e de fácil absorção. O que temos então é um metabolismo comunicacional super acelerado que rapidamente modifica o indivíduo líquido.

O que temos então é um metabolismo comunicacional super acelerado que rapidamente modifica o indivíduo líquido.

A nova conformação em rede possibilitou o swarming, a rápida mobilização de gente na forma de “enxames” que se reúnem em torno de uma causa comum em dois tempos. O swarming é possível porque as redes sociais são amplas, conectando muita gente com muita gente. Redes de amigos não são redes de “amigos”, mas redes de contato informacional e de sondagem social intuitiva. São capacidades “sensoriais” de um tipo diferente, que nos habilitam a captar tendências sociais de forma quase lúdica – memes, vídeos, frases, símbolos, palavras repetidas, hashtags. E assim a rede social faz pela sociedade o que um processador de alto desempenho faz por um software.

É claro que isso é só uma dimensão da vivência contemporânea; afinal o indivíduo ainda tem sua família, sua casa, e seu emprego; mas é certo também que a família obviamente já não tem a mesma solidez, nem a casa, e nem o emprego, nesses tempos em que se diz ao profissional que ele precisa constantemente “se reinventar” para sobreviver. Quanto tempo as pessoas aguentarão permanecer se “reinventando” é difícil dizer; mas essa condição atual tem nítida correspondência com a vivência das pessoas no campo “virtual” – que, afinal, mostrou-se não tão virtual assim!

Novo Protagonismo

Essa nova condição aparentemente possibilitou um protagonismo político inédito para o cidadão em rede, e mesmo que no futuro próximo não vejamos nada parecido com a presente tomada das ruas, o modo de fazer política mudou para sempre. Nenhuma instituição poderá ignorar a rede; a conectividade que ela proporcionou envelheceu o modo antigo de formação de opiniões. Não foi só o estado que ficou sem reação; até mesmo a imprensa tradicional ficou com as calças na mão. Pois os novos cidadãos não fundamentam toda a sua opinião em uma ou outra revista, jornal ou veículo formador de opinião; eles navegam e trafegam, pulam de galho em galho, leem e assistem aqui e ali, compartilham artigos, escutam seu círculo de amigos. A rede vai à frente da imprensa.

E essa atividade não fica presa em um universo paralelo; é a conversa iniciada na mesa do pub ou na porta da igreja que continua pela internet, pelo celular, e define a agenda da semana. De repente alguém apresenta uma ideia, documentos conjuntos são produzidos, encontros são agendados e as ideias pulam da rede para a rua. Esse ponto é muito importante: a “rede” não está dentro da internet. A rede é um fato sólido, integrado no tecido social, sendo a internet apenas uma dimensão dela, um substrato tecnológico. Alcançou-se a fusão entre a rede e a rua. Ai dos políticos que ignorarem essa nova configuração. E aqui eu acrescentaria aos meus colegas: ai dos pastores que não estiverem aprendendo essa lição. No futuro há apenas duas opções: líderes midiáticos de manadas ou catalisadores de processos em rede.

a “rede” não está dentro da internet. A rede é um fato sólido, integrado no tecido social, sendo a internet apenas uma dimensão dela, um substrato tecnológico. Alcançou-se a fusão entre a rede e a rua.

Partidos e Movimentos

O MPL não foi totalmente original em sua estratégia, e aqui me reporto a um artigo essencial no Reaçonaria  de um ex-membro do movimento que vale ler com atenção. Suas táticas se originaram das convulsões antiglobalização que explodiram em Seattle em novembro de 1999, na reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC). Lá as manifestações foram convocadas de forma não hierarquizada e apartidária, e juntaram uma enorme quantidade de gente para protestar e oferecer resistência simbólica. Tudo sem controle de sindicatos ou partidos organizados, deixando atônita a esquerda tradicional.

As semelhanças são intrigantes. Até mesmo versões tupiniquins dos Black Blocs anarquistas (com máscaras e roupas pretas) quebrando lojas e peitando a tropa de choque nós tivemos por aqui – veja mais aqui. Mas há diferenças; onde houve em Seattle uma mobilização longa e complexa de movimentos sociais e instituições, o que tivemos no Brasil foi muito mais fluido e espontâneo. E o papel da internet no processo foi muitíssimo maior, assemelhando-se mais à primavera árabe e à praça Taksim na Turquia.

Essa abordagem cai muito bem para iniciativas anarquistas e mobiliza as massas sem altos custos “pedagógicos” porque focaliza pontos de tensão e capitaliza insatisfações latentes. É claro que um movimento de esquerda que atraia muita gente usando essas táticas não será capaz de manter-se ideologicamente homogêneo e naturalmente se descaracterizará, como de fato aconteceu em São Paulo – e segundo alguns, não apenas na evolução das manifestações, mas na própria estrutura do movimento.

Isso provavelmente significa que uma iniciativa ideologicamente consciente pode empregar essas táticas para realizar mobilizações de massa em torno de um ponto em particular para cristalizar a opinião pública, mas isso não significa que ela conseguirá cooptar essas massas para o conjunto de suas propostas ideológicas. Elas ficam mais politizadas, mas aparentemente continuam a ser o que são, e movimentam-se segundo outras lógicas associativas (colegas de classe, igreja, família, amigos na rede social).

O MPL usou o povo para conseguir “seus” 20 centavos; mas o povo usou o MPL e o processo que ele iniciou para conseguir os 20 centavos e muito mais do que isso, como o revela a rápida movimentação no congresso após os pronunciamentos públicos da presidência do país. Na verdade é até possível que não apenas alguns partidos se capitalizem com novas pessoas, mas que novos partidos emerjam empunhando bandeiras que hoje não são prioritárias.

uma iniciativa ideologicamente consciente pode empregar essas táticas para realizar mobilizações de massa em torno de um ponto em particular para cristalizar a opinião pública, mas isso não significa que ela conseguirá cooptar essas massas para o conjunto de suas propostas ideológicas.

Não é razoável esperar que esse grau de resultado venha a se tornar a regra para quaisquer manifestações. Ainda assim a abordagem pode se mostrar uma estratégia útil de modificação pontual da opinião pública, se dispuser de alguma ressonância na imprensa tradicional. A rede conseguiu renovar a rua como instituição política.

Perigos

Ninguém pense que essa discussão represente alguma louvação otimista; a nova configuração envolve riscos sérios. Em primeiro lugar, há um descompasso entre o acelerado metabolismo comunicacional e o lento metabolismo do pensamento. Pensar dá trabalho e custa tempo. Ideias precisam amadurecer, ficar “de molho”, ganhar massa e corpo; mas a velocidade da rede é muito alta. Daí o perigo já materializado da produção industrial de conceitos como “frangos de granja”, com engorda rápida e baixo valor nutritivo.

O cidadão em rede responde muito rapidamente, mas é raso, e sua liquidez pode viabilizar graves manipulações ainda desconhecidas. Um sinal disso são as mutações aceleradas na opinião pública. “Consensos” baseados em memes de rede social se cristalizam em dois tempos e condicionam a massa emocionalmente. Um possível exemplo foi a rápida exclusão da PEC 37. Tudo indica que foi a coisa mais justa e acertada a fazer; o problema é que pouca gente teve tempo de pensar. Um post no facebook observava que nem tivemos tempo de ler o projeto com cuidado e ele já foi enterrado; portanto temos no Brasil “o manifestante mais rápido do oeste”!

há um descompasso entre o acelerado metabolismo comunicacional e o lento metabolismo do pensamento.

Piadas à parte, trata-se de algo muito perigoso, se eventualmente isso for utilizado para promover o ódio público contra uma instituição, uma pessoa ou uma classe/minoria. O cyberbullying pode ser apenas a ponta do iceberg; cenários mais pessimistas poderiam se desenvolver se a indignação pública se derrama de forma manipulada ou não contra um grupo minoritário, que poderia ser tanto um partido de esquerda quanto uma comunidade religiosa.

No mais, o pior dos riscos é mesmo a fraqueza propositiva dessas movimentações. O “Occupy Wall Street” mostrou grande força simbólica, mas os resultados ainda são etéreos; já a primavera árabe expôs uma pluralidade de forças opostas e permitiu o crescimento da irmandade muçulmana, no Egito. Esses movimentos não geram sozinhos grandes lideranças ou propostas densas e factíveis. Por isso as coagulações a que nos referimos são tão importantes. Depois do primeiro impacto, é delas que poderá vir algo duradouro.

O “Fiel Líquido” e a Igreja em Rede: apontamentos missiológicos

Cristãos mais atentos já haviam notado que o “cidadão líquido” também é o “fiel líquido”; aquele cristão jovem que escorrega facilmente sob certas condições de temperatura e pressão (sem ironia) – e cujo comportamento já se reflete na alta infidelidade eclesiástica, na dificuldade de presença duradoura, e numa altíssima conectividade. Esse “Novo Tipo de Cristão” (agora sim, estou sendo irônico) não forma a sua opinião teológica apenas a partir do púlpito ou da classe de EBD, nem a partir dos pregadores de televisão, e sua comunhão cristã é integrada com a rede. De modo que a Igreja local, queira ou não, está representada na rede por essas pessoas.

O impacto da nova conformação social em rede já vem se fazendo sentir há algum tempo no crescimento de toda uma faixa de cristãos “desigrejados” que escorrem ao largo das igrejas e que marcam presença na rede por conexões assistemáticas, desierarquizadas e voláteis. Eles são articulados e, por assim dizer, “apartidários” em termos denominacionais, mas também se associam em pontos de convergência crítica contra a igreja instituída. Em parte, eles reagem a uma igreja que já não sabe ensinar o cristianismo, e que não se conecta significativamente com o tempo presente.

Nessas condições a solubilidade eclesial é alta. O mesmo cidadão em rede que tornou-se uma força dinâmica positiva contra o sistema político esclerosado pode ser uma força crítica contra as igrejas ou a despeito delas. Esse fato é pleno de ambiguidades; pode ser apenas uma forma de plasmar insatisfações e projetá-las contra a religião ou uma forma de capitalizar possibilidades criativas que ficariam congeladas na instituição.

A melhor forma de lidar com isso não é ignorar ou construir diques contra a “enxurrada”. A igreja precisa estar presente na rede e na rua com a nova geração, habitando esses espaços de forma inteligente e estratégica, acompanhando seus desdobramentos com atenção constante. Trata-se não apenas de ouvir o que está sendo feito, mas de permitir que a nova geração participe também com seus próprios recursos e conectividade, e fazendo a igreja acontecer também no interior da rede. Pois além da igreja sem a rede (a igreja 1.0) e da presença dual dos cristãos na igreja e na rede (a igreja 2.0), está em processo a fusão de uma parte da igreja com a rua e com a rede. Resta saber se a igreja continuará operando no 1.0 quando sua juventude já é 3.0.

O mesmo cidadão em rede que tornou-se uma força dinâmica positiva contra o sistema político esclerosado pode ser uma força crítica contra as igrejas ou a despeito delas. Esse fato é pleno de ambiguidades; pode ser apenas uma forma de plasmar insatisfações e projetá-las contra a religião ou uma forma de capitalizar possibilidades criativas que ficariam congeladas na instituição.

O cidadão em rede veio para ficar, e podemos admitir, sem nenhum servilismo, que a nova realidade precisa ser incorporada, de um modo sábio e reformacional. Não há sentido na crítica moralista, nem tempo a perder; importa agora apresentar respostas honestas e levar nossas práticas catequéticas, cooperativas, evangelísticas e de intervenção transformadora para esse mundo novo, de forma mais consciente e crítica. As igrejas que quiserem permanecer missionais no contexto das cidades globais não poderão ignorar a rede.

PUBLICADO ORIGINALMENTE EM 28 DE JUNHO DE 2013, com o título “Manifestações: a nova cidadania em rede”

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