O Nome de Deus no Governo Bolsonaro: uma crítica teológico-política

“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não considerará inocente quem tomar o seu nome em vão.” (Êxodo 22.7)

“O Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Quem poderia reclamar de tal slogan exceto alguns laicistas e ateus? Há quem o considere intrinsecamente profano; pois o nome de Deus não deveria ser ajuntado a assuntos terrenos. Bobagem. O poder é uma questão intrinsecamente teológica. E nossa Constituição Cidadã foi promulgada “sob a proteção de Deus”. O nome de Deus não está “dentro” do ordenamento jurídico, é verdade; mas sua presença enche todas as coisas, e todas as coisas existem nele. Até os laicistas.

Mas ainda que plausível De Jure, esse slogan precisará ser verdadeiro, De Facto. Do contrário, serão graves as consequências. Pois da possibilidade de associar o Nome de Deus às coisas, não se segue que isso deva ser feito. Especialmente se for feito de modo vão.

A ascensão da COVID-19 abriu no governo uma crise sem precedentes, que não se transformou em ruptura porque o compromisso emergencial com a nação se sobrepôs à vergonha e à falta de liderança. O transparecimento da problemática dinâmica interna do governo nessa crise oportuniza um balanço sobre a sua fidelidade teológica, e torna necessária e inadiável uma tomada de posição diante do espírito e da direção que vem sendo assumida pela Presidência do Sr. Jair Messias Bolsonaro, a partir do núcleo ideológico que hoje o orienta.

Previno o leitor sobre as palavras que se seguem. São duras de ouvir, e podem causar dificuldades. Mas tenho para mim que não há outro momento para ouvir e pensar. Estamos na Quaresma e, ainda, em Quarentena. Alguns não sairão dela bem. É tempo de pano de saco e de cinza, e a sombra do esquecimento descerá novamente em poucos meses. A dor nos torna sóbrios. Vamos aproveitá-la.

A Ascensão de um Populismo

Como é do conhecimento de todos, o presidente foi eleito democraticamente e concentrando em si as aspirações de milhões de Brasileiros que expressavam, em seu voto, uma recusa histórica ao projeto Lulopetista e à esquerda brasileira em geral.

Para além da normalidade da mera alternância de poder, e da frustração pelo fracasso das políticas econômicas do governo anterior, essa recusa constituiu um gesto de repreensão à mentalidade progressista radical, às políticas identitárias e à leniência com a corrupção, por um lado, e de defesa da família, da moralidade judaico-Cristã, e do combate à corrupção, por outro. Assim se compreende por que o movimento de Jair Bolsonaro obteve amplo apoio da comunidade Cristã em geral, tanto de católicos romanos, quanto de evangélicos de vários matizes, e de outros movimentos de inspiração Cristã.

Entendo que aos olhos de muitos essa linha de explicação soe ingênua; pois mudanças de tal monta deveriam certamente receber explicação estrutural, como procedendo da dança dialética de forças que desce, em última análise, aos porões do modo de produção e às mutações do Capital. A esses haveria muitíssimo a dizer, mas por hora bastará o seguinte: é por esse tipo de teimosia analítica que caíram do poder e até hoje não conseguiram se reorganizar.

Mas voltemos ao mundo real: a nova direita explode, como todos sabem, em 2013, em uma cacofonia de tribos libertárias, liberais, liberais-conservadoras, conservadoras, ultraconservadoras e diversas bolhas protofascistas. É perfeitamente compreensível que a fauna dessa nova direita fosse tão diversa quanto a que se encontra à esquerda, e as escaramuças públicas entre esses grupos emergiram de imediato. E entre esses grupos, o mais influente e briguento era o grupo de Olavo de Carvalho.

O movimento pilotado pelo filósofo ganhou forte apoio entre conservadores em geral, e particularmente entre católicos romanos; eventualmente, e não sem serem periodicamente ridicularizados pelo mestre, evangélicos se submeteram não apenas à doutrina conspiracionista, mas também ao páthos agressivo do mentor. E absorveram esse páthos, dos xingamentos e “palavrões” até à versão tupiniquim do discurso antiglobalista e neo-soberanista que hoje se tornou bastante… global.

Embora haja controvérsias, foi aparentemente recente a dominância do elemento anti-institucional e neopopulista no discurso de Olavo de Carvalho. Esse elemento como que reorganizou o significado dos elementos propriamente conservadores no movimento olavista, imbuíndo-os de um espírito revolucionário e messianista.

Esse é um ponto que merece investigação futura; o “engate” para um messianismo de direita já estava pronto e bem estabelecido na fase anterior dessa dispensação política, sob o Lulopetismo. Ali vimos um processo similar de questionamento institucional e de legitimação do neopopulismo, segundo doutrina recomendada pelo intelectual esquerdista argentino Ernesto Laclau como a solução para o avanço “democrático” das esquerdas na América Latina. Daí o suporte mútuo entre bolivarianos e lulopetistas. É necessário conceder: no que tange ao Foro de São Paulo, Olavo realmente tinha razão.

Enfim, como todos sabem, o Lulopetismo se enroscou demais na “velha política” e no velho sistema de “pagamentos”; e acabou gostando. Eventualmente, a casa caiu. O que foi triste para a esquerda e fez muito mal ao país, mas francamente, não pior ou mais mal que se houvera bem-sucedido.

E eis que uma janela histórica se abre, na “baderna” de 2013. Com o turbilhão que derrubaria do trono o Lulopetismo três anos depois, uma oportunidade se apresentava para a destruição do establishment político e a reconstrução revolucionária do Estado Brasileiro, mas agora do jeito certo. O método seria o mesmo método revolucionário, que o antigo regime não pôde implementar; a doutrina, um “conservadorismo” sui generis; e a causa instrumental, um líder populista. Não precisaria este ser um gênio, nem grandemente carismático, nem grandemente efetivo. Bastaria que fosse muito bem assessorado. A questão seria o homem certo na hora certa.

E esse homem certo apareceu. Com inegável perícia, o núcleo olavista foi capaz de surfar na onda conservadora que se agigantava, e concentrar em si expectativas de liberdade econômica, conservadorismo de costumes, e combate à corrupção e à criminalidade, através de uma figura desconhecida mas capaz de se identificar cultural e linguisticamente com as massas e de se posicionar publicamente por essas causas sem pedir licença aos líderes partidários tradicionais. Formando uma pequena linha de frente de convertidos raivosos e obcecados, com recursos de guerra narrativa importados dos EUA, o movimento de Olavo converteu-se no Bolsolavismo, a linha de frente de sustentação de um neopopulismo de direita.

Mas é importante destacar esse ponto: por artificial que fosse a figura do novo candidato, as preocupações das massas não eram artificiais, mas anseios reais, que a esquerda e os partidos tradicionais não tiveram nem boa vontade nem competência para compreender. E assim se formou a tempestade perfeita que levou ao poder o improvável Jair Messias Bolsonaro. E não somente o homem: com ele, o núcleo do movimento, que viria a ser representado no governo como o núcleo ideológico do bolsolavismo, assentado à direita e à esquerda do mandatário na presidência da república.

Antes de voltarmos à análise da realidade brasileira, será necessário um breve desvio teórico para entender o que aconteceu com a cabeça do Brasileiro durante essa reviravolta.

A Psicologia Social da Mudança Política

Leituras pesadamente influenciadas pela psicanálise buscarão compreender esse processo de identificação das massas com uma figura autoritária como um problema de repressão e neurose; mas a psicologia social contemporânea nos oferece recursos científicos bem mais interessantes que esses fetiches intelectuais da esquerda.

Já há algum tempo venho recomendando os resultados interessantíssimos da Teoria dos Fundamentos Morais, desenvolvida pelo psicólogo social Jonathan Haidt, atualmente na Stern School of Business da Universidade do Estado de Nova Iorque. Empreguei-as, inclusive, para explicar o comportamento do “Porta dos Fundos” no último Natal. Plasmando as observações antropológicas de Richard Schweder sobre a diferença entre culturas sociocêntricas e individualistas, com uma visão neo-Humeana da moralidade humana como fundada em sentimentos morais, uma interpretação evolutiva-darwiniana da origem da moralidade, e uma montanha de dados de psicologia experimental do comportamento moral, Haidt foi capaz de distinguir entre o que ele chama de “paladar moral” e “culinária moral”.

A “culinária moral” seria o conjunto de doutrinas morais e o sistema de formação moral que uma cultura adota. Esse sistema pode privilegiar certos valores sobre outros, e sistemas diferentes podem justificar regras morais úteis como explicações completamente disparatadas. É assim, por exemplo, que o Kantianismo promoverá a monogamia assim como o Cristianismo, mas com explanações diferentes. Cristianismo, Hinduísmo, Utilitarismo e o movimento LGBT+, por exemplo, oferecem culinárias morais diferentes.

O “paladar moral” seria nosso sistema de sentimentos morais, ou sistema cognitivo-moral. Esse sistema envolve pelo menos seis módulos cognitivos pré-programados evolutivamente, que nos fazem reagir em situações nas quais heurísticas emocionais automáticas são disparadas estimulando respostas padronizadas. Essas heurísticas pertencem ao mesmo grupo de mecanismos estudados pelo psicólogo experimental Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia e um dos fundadores da economia comportamental.

Haidt identificou seis áreas de sentimentos morais: “Cuidado/evitar o dano”, “Equidade/evitar injustiça, “Lealdade/evitar a trapaça”, “Liberdade/evitar a tirania”, “Autoridade/evitar a rebeldia”, “Santidade/evitar a profanação”. Esses pares se fixaram em nossa natureza humana porque os sentimentos, hábitos e ideias neles baseados garantiram sucesso a grupos humanos. Foram selecionados evolutivamente.

De modo que o “paladar moral” é universal, mas a “culinária moral” é relativa ao contexto histórico e cultural. Naturalmente, há limites para a flexibilidade na doutrina moral, porque todas as culinárias morais precisam trabalhar com os seis módulos fundamentais. É por isso que as doutrinas morais diferem, mas continuam cheias de semelhança.

Em tempo: do fato de que nosso aparelho cognitivo-moral teria origens evolutivas, não se segue que não teria simultaneamente origens divinas. Deus usou para constituir a natureza os meios que usou, e que a ciência luta para compreender. Ademais, esse aparelho é um sistema cognitivo, e isso é compatível com o realismo moral.

Tudo isso poderia soar academicamente interessante e quase inútil para a nossa discussão política, se a investigação empírica não houvesse detectado um fenômeno surpreendente: uma culinária moral pode manipular o paladar moral, ainda que não possa alterá-lo. Assim como esquimós não tem o sabor “doce” em sua culinária porque não há frutas ou mel disponíveis no Ártico, uma sociedade pode “desligar” alguns fundamentos morais e super-excitar outros.

Haidt descobriu, para sua surpresa, uma bifurcação na imaginação moral ocidental. Pessoas em ambientes de periferia, de classe baixa, ou altamente religiosos, ou interioranos, trabalhariam com todos os seis fundamentos morais, exatamente como pessoas em culturas sociocêntricas por todo o globo, sejam elas hindus, budistas, confucionistas, católicas, ou praticantes de religiões tradicionais. Mas pessoas com educação liberal, maior renda, e maior envolvimento com a vida urbana, trabalhariam com um conjunto menor de prioridades morais: cuidar para reduzir o sofrimento, garantir a liberdade de todos, reduzir a desigualdade. A equipe de Haidt deu a esse subgrupo da sociedade ocidental o apelido de W.E.I.R.D. (em inglês, “estranho”): “Western, Educated, Industrialized, Rich & Democratic” (Ocidental, Educado, Industrializado, Rico e Democrático).

E ao cruzar os dados da divisão política dos EUA com o questionário de Fundamentos Morais, a equipe de Haidt descobriu que os progressistas estadunidenses são, em sua maioria, pessoas W.E.I.R.D., defendendo com unhas e dentes uma culinária moral mais reduzida, focada na felicidade individual. Para essas pessoas, os temas da “autoridade”, da “lealdade” e da “sacralidade” não são importantes. Valores ligados a esses temas são vistos pelos W.E.I.R.D. como ameaças à felicidade e à liberdade. Isso ocorre, segundo Haidt, porque esses fundamentos morais mais “conservadores” impõem limites à liberdade individual, o que entra em choque com os princípios do liberalismo político.

Por outro lado, republicanos conservadores tendem a valorizar os fundamentos desprezados na culinária moral democrata porque esses valores seriam exatamente os valores necessários para a integração comunitária. São valores presentes em todas as sociedades menos individualistas e mais sociocêntricas.

Haidt representou isso em tabelas e gráficos que ficaram bastante populares, como o que se segue. Neles se pode ver que quanto mais caminhamos em direção à esquerda (rumo ao progressismo liberal), mais se privilegiam os fundamentos morais da “felicidade” e da “autonomia” e maior o desprezo pelos fundamentos conservadores; e quanto mais caminhamos para a direita, menos se valoriza esses fundamentos e mais importância se dá aos fundamentos “conservadores”.

Mapa com linhas pretas em fundo branco

Descrição gerada automaticamente

Segundo esse modelo, a posição de equilíbrio, na qual todos os fundamentos morais são contemplados, se encontra, no caso da política dos EUA, ao redor do centro/centro-direita (sustento que a realidade Brasileira é similar).

À esquerda, a ênfase nos fundamentos morais da felicidade e da autonomia se manifesta principalmente nas doutrinas do liberalismo dos costumes – o tipo de mentalidade terapêutica e libertária que ganhou a consciência ocidental desde a revolução sexual, particularmente, 1968. Trata-se, naturalmente, de uma esquerda bem diferente da tradicional, altamente dependente da autoridade e da lealdade: estamos falando da esquerda liberal e identitária, que domina hoje o partido Democrata, nos EUA, e a esquerda brasileira, que se tornou uma filial dos democratas. Essa realidade veio a se reproduzir no Brasil.

Minha hipótese é a de que, nas últimas eleições, pela primeira vez, o embate deixou de ser basicamente entre a melhor e a pior versão de centro esquerda disponível aos eleitores, e se tornou um choque entre o Brasil W.E.I.R.D. e o Brasil profundo, moderadamente conservador. Mas como nos tornamos tão semelhantes aos EUA na imaginação política?

Como os W.E.I.R.D. afundaram a Esquerda

Não é tão complicado. O fato é que o movimento internacional de Direitos Humanos cumpriu de modo exemplar a tarefa de exportar globalmente o liberalismo identitário dos EUA – isso foi matéria de outro artigo meu na Gazeta: “A Ideologia dos Direitos Humanos”. Foi sobre o fato dessa exportação, ainda hoje capitaneada por organizações como a Open Society, que Olavo de Carvalho deitou e rolou. Assim, de movimento originariamente focado na luta de classes, direitos civis e combate à desigualdade econômica, o lulopetismo se rendeu ao método da esquerda americana, baseado na expansão simultânea da autonomia individual, por meio do liberalismo dos costumes, e do aparelho estatal, que tutela e pastoreia o indivíduo atomizado. Sim, um curioso paradoxo, como observou Patrick Deenen em Why Liberalism Failed, e que comentei em outro artigo na Gazeta. Claro, os debates teóricos eram profundamente alimentados em grandes mentes da esquerda. Mas e quanto ao método identitário? Foi importado dos EUA. Afinal, quem entende de método é estadunidense.

Ocorre que a sociedade brasileira, na maior parte, ainda que de forma absolutamente inconsistente, manteve uma forte veia sociocêntrica e não se tornou consumadamente W.E.I.R.D. Os evangélicos, em particular, não o são, e dificilmente serão. E essa sociedade real, absolutamente invisível ao olhar W.E.I.R.D. da elite cultural de esquerda e da imprensa estabelecida, tolerou o Lulopetismo em nome da inclusão econômica. E, claro, com um empurrãozinho do Nordeste, que foi finalmente levado a sério por uma Presidência. Falo por mim mesmo: sendo evangélico, votei em Lula e em candidatos do PT, PSD e, localmente, no Partidão. Milhões fizeram a mesma coisa.

Mas eventualmente bateu o sino da meia-noite, e a carruagem virou abóbora. Com o colapso econômico e a exposição da gigantesca máquina de corrupção, herdada e miraculosamente aperfeiçoada pelo petismo, a tolerância das massas acabou. Mais: o malfadado Plano Nacional de Participação Social revelou o veneno hegemonista do Lulopetismo, e roubou a sua plausibilidade para a classe média. Enquanto isso Olavo de Carvalho, com inegável perspicácia, fez o que pôde para mostrar o sistema internacional de exportação da moralidade W.E.I.R.D/Democrata/Globalista.

Chegamos assim aos estertores do antigo regime: sem o analgésico da inclusão no consumo, a dor de cabeça crescente das políticas de identidade se tornou insuportável. Felizmente havia outro analgésico fortíssimo e imediatamente disponível: o bolsolavismo.

O “Fascismo” e o Dilema Conservador

O que um conservador moderado e um centrista deveriam fazer diante desse quadro? Isso me preocupou bastante quando amigos me consultaram sobre apoiar ou não o governo eleito ao final de 2018. De uma rápida reticência inicial, concluí que a participação era necessária. Não apenas porque o processo de enfraquecimento do Lulopetismo precisava ser mantido, mas também porque o Bolsolavismo não poderia ser o representante exclusivo nem o futuro do movimento conservador. A melhor coisa a fazer seria acompanhar de perto o movimento, seja para evitar que ele arrastasse o Brasil a um abismo fascista, seja para reabsorvê-lo em um conservadorismo moderado, caso uma oportunidade se manifestasse.

Aqui cabem algumas distinções importantes. Segundo a Teoria dos Fundamentos Morais, numa sociedade democrática liberal como os EUA há dois tipos de extremos possíveis: a extrema esquerda, nesse caso, não se encontra em alguma relíquia política como o comunismo tradicional, mas em um movimento altamente afetivo, expressivista e atomizador, e ao mesmo tempo anárquico, resistente a discursos de ordem social, e antirreligioso ou ao menos iconoclasta. Ora, aqui se encontram as políticas de identidade, corretamente descritas por Antônio Risério como portadoras de um “fascismo identitário”.

Mas e quanto ao movimento Bolsolavista? Muito já se apontou a existência de traços fascistas nesse movimento. O populismo e o desprezo pelas instituições, aliado ao discurso maniqueísta do “nós versus eles” e ao assassinato de reputações, já foram apontados como marcas inambíguas. Mas isso não ajuda tanto assim; os quatro sinais são reconhecidamente presentes no Lulopetismo, ainda que devidamente cozidos no dendê.

O fascismo de direita se distingue do fascismo de esquerda pelo seu páthos. Embora com muitos traços psicológicos comuns, como a manipulação do ressentimento, o fascismo de direita é muito mais conscientemente voltado para valores sagrados, para a honra à autoridade e para pactos de lealdade. O fascismo de direita é muito mais “sério” que o fascismo desbundado da esquerda, que criançada anda mamando, no colo da classe universitária. É um fascismo de farda e penteado, por assim dizer. E isso é iluminado pela direção das tabelas de Jonathan Haidt: progredindo à direita, os fundamentos morais focados no cuidado, felicidade e liberdade perdem importância – o bem-estar do outro perde importância – e o autoritarismo passa a ser celebrado.

Em tal universo, o que resta à centro-esquerda, centro e centro-direita? Fazer o possível para moderar os fascismos, desnaturá-los e, se possível, sucedê-los. O que, certamente, é uma tarefa bastante chata. Mas impedir a guerra e esvaziar as sanhas é digno de honra.

O fato é que, ainda que surfando em uma onda conservadora, o núcleo ideológico bolsolavista não era e nunca foi a própria onda. Milhões de católicos e evangélicos votaram em Bolsonaro, e muitos que votaram no outro lado votaram mais para evitar um mal do que por uma crença no projeto da esquerda. Esse núcleo ideológico não ascenderia ao poder sem a ajuda de militares moderados, católicos comuns, evangélicos, liberais, e quadros técnicos menos interessados em revolução e mais preocupados com soluções. E quando o governo foi efetivamente formado, formou-se como um composto de todas essas forças.

O dilema adiante, portanto, não era primariamente o de apoiar ou não o bolsolavismo, mas o de dar representação efetiva no poder à imaginação moral das massas conservadoras, e manter o balão presidencial firmemente amarrado ao chão do movimento que o elegeu, independentemente dos sonhos do núcleo ideológico. Mais: caberia a esse núcleo ideológico, (identificável pela coesão narrativa), sob os olhares do restante do governo, a capacidade da boa liderança.

Diante disso, dei meu conselho aos amigos moderados: participem do governo. O mesmo conselho que daria a qualquer amigo convidado a um governo de esquerda. Os Cristãos precisam se fazer representar. Precisam colocar suas agendas, fazer pressão e participar, sempre e enquanto não forem obrigados a fazer coisas que desaprovam, e a dizer coisas que não acreditam. Eventualmente esse mesmo argumento foi usado “contra” mim. E por essa razão aceitei o cargo de Diretor de Promoção e Educação em Direitos Humanos.

Em minha curta experiência de nove meses e pouco no governo, testemunho que nenhuma política efetivamente fascista foi implementada no MMFDH. Sim, isso foi um ponto a favor do governo Bolsonaro. Em diversos lugares li sobre os terríveis “retrocessos” em direitos humanos sob a direção da ministra Damares, mas mesmo antes de entrar no governo eu já havia notado o daltonismo dessas críticas. Tratava-se de pura histeria de uma esquerda identitária e fascista que não podia aceitar a derrota política. E quando abrimos a “caixa preta”, por assim dizer, ficou claro o quanto o sistema de proteção que herdamos do antigo regime era ineficiente e inferior à propaganda estatal.

Tudo o que vi no Ministério foi gente lutando com parcos recursos e parca influência política para implementar Direitos Humanos, ainda que sob uma interpretação conservadora; com uma gramática diferente do “dialeto liberal dos direitos humanos”, segundo a criativa observação da jurista de Harvard Mary Ann Glendon, em Rights Talk.

Eu avaliaria o grau de fascismo de um governo em três níveis: em seu páthos, em sua política, e em sua política pública. O governo Bolsonaro não apresenta nenhum dos três de forma consolidada. Em primeiro lugar, não há fascismo na política pública deste governo, e desafio o leitor a provar que exista. Nesse momento de pandemia, como ilustração, não se vê nenhuma ação agressiva de cerceamento de informações ou violação de liberdades civis por iniciativa do executivo. E inúmeras situações-teste já ocorreram sem resultado positivo. A esquerda insiste em gritar isso, mas ninguém liga. Porque todo mundo sabe que é mentira.

A coisa muda de figura quando chegamos à política. Ao longo dos meses tornou-se progressivamente visível a direção anti-institucional, populista e nacionalista no trato governamental com os poderes, com a imprensa, e em alguns contextos, como o MEC. A presidência não honra os “magistrados inferiores” e os outros poderes. Essa política revela uma vontade fascistóide.

Mas o assento efetivo do nosso “protofascismo” tupiniquim é realmente o páthos. Há, no núcleo ideológico, um sentimento autoritário, um sagrado pervertido, uma atitude de desprezo pelo vulnerável, um espírito ressentido e doente. Esse páthos, a bem da verdade, pode acometer a qualquer um. Mas quando se torna coisa doutrinária e inspiração metodológica, é algo realmente perigoso. A política, de um meio de amar e cuidar, torna-se uma extensão da guerra, um instrumento para arrasar, destruir e extirpar. Todos viram esse sentimento estranho evidente na alma do movimento bolsolavista.

Ainda assim, esse páthos, que tem seu epicentro em um elusivo mas real núcleo ideológico e em representantes em vários escalões, não é dominante no governo efetivo. Distinga-se o “governo” da “presidência-núcleo”, e ficará claro que a maioria dos ministros, secretários e diretores são apenas gente conservadora ou liberal que deseja servir ao país, e não prioritariamente fazer a revolução antiglobalista de Olavo de Carvalho. O Governo, no sentido lato, não é fascista.

COVID-19: A Realidade à Tona

Para ser absolutamente franco, eu nunca fui um “crente” no Bolsonarismo. Votei em Marina Silva no primeiro turno, e ia votar nulo no segundo, mas acabei justificando a ausência por estar em trânsito. Votei em Marina em luto, porque inicialmente via nela a melhor chance de vincular livre-mercado, conservação ambiental e sustentabilidade, direitos humanos e uma voz para os Cristãos na área de costumes e ordem social, mas constatei que ela não conseguiria fazê-lo, ao entregar a bandeira pró-vida e intimidar-se na objeção ao casamento igualitário. Votei já descrente. Por obra de maus assessores, a vi tomar a péssima decisão de disputar o voto da esquerda W.E.I.R.D. Com isso seu eleitorado Cristão debandou para a direita. Mas eu fiquei fielmente entre o 1% derrotado, como num ato de despedida. Espero que um dia ela remende isso. Precisamos de Cristãos no governo que não tenham medo de assumir seus valores na esfera pública.

Ainda assim, dado o meu discurso de alguns anos sobre os problemas da revolução afetivo-identitária, senti-me compelido a contribuir com o governo. Entrei de boa fé, pensando em como fortalecer a agenda social, em perspectiva Cristã. No atual universo político, sendo pró-vida, pró-família, Dooyeweerdiano e comunitarista, sou centro-direita, enfim. Mas ao aceitar o cargo, ainda que reconhecendo a força do Bolsolavismo, não estava clara para mim a possibilidade ou impossibilidade de reversão dessa ideologia. Àquela altura eu não teria como responder a tal questão; seria necessário me aproximar mais e entender o fenômeno. Quem sabe a realidade ajudaria o governo a tirar o seu Cristianismo do papel? Tive que fazer a aposta. Sim, admito: foi uma aposta otimista. Mas não sou dado a esperar sempre o pior.

Crise após crise, no entanto, dissiparam tais dúvidas. E a crise realmente crucial foi a presente conflagração da COVID-19. Diante dos olhos incréus de todos, o Ministério da Saúde fazia o seu melhor para organizar uma resposta à pandemia enquanto o Presidente dava a ressonância mais pueril à narrativa negacionista do núcleo ideológico. Notava-se a gravidade da situação global e o enorme risco de vida para todos, mas especialmente para os vulneráveis, como os velhos, os portadores de doenças crônicas, os pobres espremidos em milhares de favelas e no transporte público, e os trabalhadores informais que vivem de negócios diários. E, no entanto, a nossa direita protofascista fazia pouco da crise. E promovia uma absolutamente perversa e irresponsável manifestação num fatídico quinze-de-março. Não importa se o Congresso realmente vinha chantageando o Executivo; isso é outro assunto. Esse quinze-de-março viveria eternamente, se Deus não fosse destruir todas as coisas no fim do mundo.

Apenas com muito esforço a Presidência cedeu lugar à ciência, e vimos florescer Mandetta, o homem certo na hora certa. Enquanto isso, prevendo o desastre, Olavo de Carvalho proclamou em seu Instagram a “covardia” do presidente, por não haver “desarmado” desde o início os seus inimigos, e por ter dado ouvidos aos moderados e medrosos. Que essa “covardia”, que na verdade é lucidez, seja lembrada em louvor do Presidente.

Aí está, nua e com as vergonhas expostas, a estrutura do regime: um governo rico de conservadores bem-intencionados e de técnicos competentes, gerido por um presidente que se deixa controlar por um núcleo ideológico que o aliena da sua tarefa. E esse núcleo ideológico colocou a nação em perigo. Esse núcleo precisa ser confrontado e enquadrado pelo Presidente. Bolsonaro precisa destruir o poste-ídolo levantado no Palácio do Planalto, o poste que traz a imagem do seu rosto, e que foi posto lá por ordens do Sumo-Sacerdote Olavo de Carvalho. Bolsonaro precisa deixar o papel de lacrador-mor e se tornar homem de Estado. Do contrário, Senhor Presidente, como cantou certo profeta, God’s Gonna Cut you Down.

Diante desses fatos, e de outros fatos políticos importantes, que ocuparão a minha atenção agora, e que não dizem respeito ao executivo, concluí que deveria deixar o governo. E pedi a minha exoneração. Não porque considere a convicção Cristã como necessariamente incompatível com a participação em um mau governo; longe disso! Insisto que cristãos no governo façam o máximo possível para permanecer e ser a luz do mundo onde estiverem. A questão é que, doravante, eu não poderia mais atuar como servidor público nesse governo e ao mesmo tempo ajudar os Cristãos evangélicos a interpretar o fenômeno como teólogo público. Essa foi uma questão muito pessoal e vocacional; tive que largar o paletó e pegar o cajado por uma demanda pastoral e teológica.

Certamente que os cínicos se levantarão para dizer que “já sabiam”. Já sabiam o que era o governo e no que ele se tornaria. Mas isso é uma trivialidade. Quem não sabia o que era o Bolsolavismo? A questão é outra: de que modo o movimento conservador se comportaria com o avanço do processo histórico? Fossem esses sábios tão sábios assim, teriam previsto 2013 e o impeachment. Estes seguem ignorantes como sempre. Enfim, quem “sabe” que tudo vai dar errado, sempre, faz aí a sua aposta, é o pai de todos os cínicos, aquele que anda ao redor da terra, buscando um justo para tentar.

O Pecado e a Penitência da Presidência da República

Até agora apresentei basicamente uma narrativa política. O modo como leio o processo histórico recente, e o modo como decidi responder a ele. Mas isso não é tudo. Há outro problema que me assombra, uma camada mais profunda, um assunto muito mais grave do que os labirintos horizontais da política. Esse assunto é a questão teológico-política.

Após pouco mais de um ano, torna-se cada vez mais claro para os Brasileiros e para os Cristãos que a presidência e seu núcleo ideológico não apresentam a capacidade de representar valores Cristãos no mundo público. Embora essa incapacidade não seja novidade, podemos dizer que ela progrediu do estágio de ameaça potencial para o de realidade efetiva.

São diversos os fatos que confirmam essa incapacidade, e alisto abaixo seis, sendo seis o número do homem:

Em primeiro lugar, o espírito revanchista e cheio de ressentimento, e carente de qualquer movimento dialógico e reconciliatório, cultivado e propagado pelo núcleo ideológico, patente na queima de reputações, na incivilidade no debate público, e na incapacidade de construir círculos de cooperação a despeito das divergências, constitui clara negação do espírito Cristão que, segundo o exemplo de Cristo, promove a pacificação, a tolerância na diferença, e a comunicação genuína. O pathos do atual governo não é cristão.

Em segundo lugar, o desprezo pelas instituições e a tentativa de governar manipulando as massas contra outras autoridades públicas é autoritarismo, e reproduz o mesmo método neopopulista renovado pelas esquerdas na fase anterior da atual “dispensação” política, método esse que desrespeita o princípio da subsidiariedade e oportuniza o erro messianista. Sabendo que autoridades públicas são servas de Deus e dos homens, o estímulo e a tolerância da presidência da república a claros gestos de idolatria política, oriundos da extrema direita e de apoiadores radicais, constitui negação da visão Cristã do poder político.

Em terceiro lugar, o desprezo pela imprensa e pela comunidade acadêmica e científica e o esforço para desqualificar a autoridade desses campos se mostra uma perigosa faceta do autoritarismo. Muito embora seja indiscutivelmente verdadeiro que amplos setores da imprensa hoje careçam de práticas éticas de comunicação, de genuíno pluralismo, e de capacidade de respeitar posições conservadoras na arena pública, não é função do Estado desqualificar o jornalismo nem a universidade, mas assumir a liderança nacional na construção do diálogo e no fomento a melhores práticas. Embora não tenha havido cerceamento da liberdade de pensamento e expressão, tal desqualificação constitui uma forma de autoritarismo soft, ainda incompatível com a visão Cristã da autoridade como serva da sociedade.

Em quarto lugar, o necessário e louvável amor pela pátria degrada-se em um nacionalismo. Esse nacionalismo lança o compromisso com a história, a tradição e a autoridade, em antítese contra o diálogo internacional com sua ênfase na solidariedade humana, alimentando teorias conspiratórias contra os sistemas de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. Embora tais sistemas manifestem reais desvios ideológicos, e o neo-soberanismo tenha um papel histórico salutar, as pessoas e o planeta não podem ser invisibilizados em nome da “nação”. O nacionalismo, ou idolatria da nacionalidade, constitui clara negação da visão Cristã da soberania e da nação. O “Brasil” não está acima de tudo. A pessoa humana está acima de tudo o que é temporal, pois apenas ela é Imago Dei.

Em quinto lugar, o descuido pela pessoa humana e pelo meio ambiente é incompatível com a ética Cristã do cuidado. Esse descuido se mostra no preconceito, dentro do governo, contra a promoção da dignidade e dos direitos da pessoa humana, no descompromisso com os vulneráveis, e no desinteresse pela conservação ambiental, muitas vezes em nome de um liberalismo econômico e político. A despeito dos honoráveis esforços de setores cristãos do governo para manter vivas essas pautas, a presidência e o núcleo ideológico pouco se importam com elas. Em poucos momentos esse desprezo mostrou-se tão evidente quanto na resposta inconsequente da presidência diante da ameaça de pandemia global. Esse ethos predatório constitui clara negação da visão Cristã da pessoa humana, da sociedade e da Criação. De que adianta ser “pró-vida” e “pró-família”, se o princípio da fraternidade é tão despudoradamente ignorado?

Em sexto lugar, o desprezo pela vida humana se manifesta em uma patológica celebração simbólica da violência. Novamente, reconheço e honro os esforços do ministério da justiça no combate à corrupção e no empoderamento dos sistemas de segurança pública. Mas a celebração inconsequente da violência e do armamentismo e a banalização da morte destroem a capacidade do governo de se comunicar com as faixas da população que mais sofrem com a criminalidade, e legitimam o espírito autoritário nesse sistema. Embora seja Cristão priorizar as vítimas de violência e agir duramente contra o crime, não é papel do Estado concluir o processo de desumanização do criminoso, pois só Deus tem esse poder. E não nos esqueçamos: um partido que aceita ser representado como uma “aliança” feita de balas é um insulto ao Criador da vida.

Diante desses fatos, só posso considerar que, em seu mote “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o Governo Bolsonaro, a partir de seu núcleo ideológico, usa o nome de Deus em vão, violando, entre vários outros, o terceiro mandamento do decálogo. Pois ele usa o nome de Deus, e solicita assim a colaboração das igrejas Cristãs, negando o próprio espírito do Cristianismo. E usar o nome de Deus para fins escusos é exatamente o que é proibido pelo Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés, e de Jesus Cristo.

A incapacidade de honrar a Deus decorre do fato de que o “Deus” do governo Bolsonaro é uma abstração. É um símbolo de autoridade. Embora Deus detenha, de fato, toda a autoridade, sendo o “Todo-Poderoso”, esse Deus é o Pai de Jesus Cristo, segundo o Credo Apostólico. Não compreendemos o Deus Todo-Poderoso sem Jesus Cristo. E Jesus Cristo está ausente do núcleo ideológico. Jesus Cristo, servo dos homens, pacificador, cuidador do rebanho de Deus, onde ele está? Um governo que se preocupa mais com a narrativa antiglobalista do que no impacto da Pandemia sobre os idosos, o que sabe ele sobre Jesus Cristo?

1A palavra do SENHOR veio a mim:

2″Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza e dize aos pastores: Assim diz o SENHOR Deus: Ai dos pastores de Israel, que cuidam de si mesmos! Não devem os pastores cuidar das ovelhas?”

3″Comeis a gordura e vos vestis da lã; matais o animal engordado; mas não cuidais das ovelhas.”

4″Não fortalecestes a fraca, não curastes a doente, não enfaixastes a ferida, não fostes procurar a desgarrada e não buscastes a perdida; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.”

5″Assim se espalharam, por falta de pastor; e serviram de alimento para todos os animais selvagens, pois se espalharam.”

6″As minhas ovelhas andaram desgarradas por todos os montes e por toda montanha alta; as minhas ovelhas andaram espalhadas por toda a face da terra, sem que ninguém as procurasse ou as buscasse.”

7Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do SENHOR:

8″Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, já que as minhas ovelhas foram entregues à rapina e serviram de alimento aos animais selvagens, por falta de pastor, e os meus pastores não procuraram as minhas ovelhas, pois cuidam de si mesmos e não das minhas ovelhas;”

9ouvi, ó pastores, ouvi a palavra do SENHOR:

10″Assim diz o SENHOR Deus: Eu coloco-me contra os pastores; exigirei as minhas ovelhas das suas mãos e farei com que deixem de cuidar das ovelhas, e não cuidarão mais de si mesmos. Livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que não lhes sirvam mais de alimento.”

Profeta Ezequiel, 34:1-10

Essas foram as palavras do Senhor aos príncipes, chefes das cidades, autoridades e sacerdotes de Israel. A função das autoridades é cuidar das pessoas. Cristo se entregou pelas pessoas. Um governo Cristão se ocupa da pessoa humana. Mas núcleo do atual governo – não todo ele – se ocupa de uma narrativa. De abstrações morais. Pode ser um governo vagamente “teísta”, mas não é Cristão. Um governo de espírito Cristão seria conservador nos costumes, mas também na imitação de Cristo. Seria anti-aborto e pró-humanização dos presídios; pró-família e pró-conservação ambiental. Se oporia à revolução sexual, como deve ser, mas recusaria toda a mentalidade revolucionária. Falaria em liberdade, sim, mas não esqueceria a igualdade, a fraternidade, e a dignidade humana. Inclusive a dignidade de jornalistas, por chatos e enviesados que sejam.

Um governo que não sabe nada sobre Gandalf e sobre o Barbárvore, e que imita o mago branco Saruman não pode ser cristão. Se ele se diz cristão, mas apenas tolera direitos humanos, e sua pauta social chega sempre atrasada, e não tem uma doutrina social Cristã em seu plano de governo: pode até ser politicamente legítimo, mas teologicamente é uma farsa.

Essa constatação cria um problema não apenas político, mas teológico e pastoral. Como ministros, teólogos e líderes Cristãos, muitos de nós entendemos que a presença Cristã na arena pública é legítima, que a colaboração entre o Estado e as igrejas pelo interesse público é constitucional, e que a fé Cristã tem contribuições para a sociedade moderna que os discursos secularistas são incapazes de alcançar.

No entanto, essa contribuição vem sendo manchada pela presidência da República.

Acuso, portanto, como pastor evangélico que sou, a presidência da República e o núcleo ideológico do governo do pecado de heresia, de confundir e dividir o povo de Deus, lançando-o entre Scyla e Caríbdis, para escolher entre os falsos deuses da esquerda identitária, ou os falsos deuses do bolsolavismo. Aconselho a presidência da República a mudar seus caminhos, a buscar arrependimento diante de Deus, e a abrir imediatamente o diálogo com a sociedade, incluindo os setores moderados da oposição. Pois o presidente é presidente de todos, e não apenas de alguns, e sua regra não é a revolução, mas a prudência.

Pois pelo bem das comunidades, muitos de nós demandarão que o presidente cesse de empregar o Santo Nome de Deus em suas empreitadas, e de confundir as mentes dos Brasileiros. E tão certo quanto vive o Senhor, se tal arrependimento não ocorrer, usaremos todos os meios religiosos possíveis para proteger o rebanho do Senhor contra os lobos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Lembraremos a nossos rebanhos que o Deus do Bolsolavismo é tão falso quanto o Cristo da Mangueira.

Não escrevo tais palavras para municiar a extrema-esquerda. Pelo contrário, gostaria de ver mudanças. Uma reorientação. Uma retomada do espírito cristão, exatamente para não termos que voltar ao suplício da esquerda revolucionária.

Não me iludo; estou ciente de que meus reclames pouco farão para mudar a política deste governo. Mas o governo nem é a minha prioridade. A postura e testemunho da comunidade Cristã diante da pessoa humana: essa é a grande questão. Afinal de contas, o Brasil é importante, mas não está acima de tudo.

***

PÓS-ESCRITO: Respostas a algumas críticas sobre a minha participação no Governo Bolsonaro

Recebi vários feedbacks sobre a minha saída e meu artigo sobre o “nome de Deus no governo Bolsonaro”. Entre elas, algumas críticas mais elaboradas mas que pelos muitos erros de interpretação, mereceriam resposta de esclarecimento, inclusive para fins. É o caso da resposta que segue, e que incluí para fins de registro.

Apesar dos muitos afazeres, e de uma reticência inicial, achei pertinente responder à crítica feita contra mim pelo senhor Caio Peres, ao menos para esclarecer meus amigos sobre o que penso dela. Sua crítica foi motivada pelo artigo que publiquei em meu blog pessoal, disponível no link: https://guilhermedecarvalho.com.br/2020/03/20/o-nome-de-deus-no-governo-bolsonaro-uma-critica-teologico-politica/.Para quem se interessar, a crítica feita por Caio Peres está disponível aqui: https://www.facebook.com/notes/caio-peres/pontos-sem-n%C3%B3-na-teologia-p%C3%BAblica-evang%C3%A9lica-conservadora-reformada/10159686358673496/.Decidi faze-lo porque ele entende que devo reconsiderar meu papel como teólogo público. Ele diz explicitamente que “tem dificuldades de me levar a sério como teólogo público”. E realmente, em seu artigo, ele não problematiza uma ou outra de minhas ideias mas a mim mesmo e ao meu trabalho. Foi uma crítica bastante dura e pessoal, cujo foco não esteve em minhas propostas, mas minha pessoa, e cujo objetivo foi claramente por em questão a legitimidade do meu trabalho. Trabalho que, embora Caio não leve a sério, aparentemente o deixa bastante preocupado, dada a extensão de sua resposta.De saída, observo que algumas de suas críticas foram boas, e as tomei para mim. Espero melhorar. Devo reconhecer também que na versão publicada por ele, Caio tomou cuidados no sentido de dizer que não pretendia me ofender nem me difamar. Foi um nobre disclaimer da parte dele, que é digno de nota. Ainda assim, não penso que suas críticas tenham sido formuladas com bom espírito, temo que elas transpareçam uma ansiedade do senhor Caio para vindicar sua própria posição como crítico isento da ortodoxia teológica reformada brasileira, e como alternativa dialógica. Como também vejo posturas bastante inadequadas por parte do Caio, e que são indissociáveis de sua leitura do meu trabalho, será necessário mencioná-las.Em primeiro lugar, penso ser necessário deixar claro em que sentido fui ofensivo, questionando a fé e a integridade do Caio, segundo suas palavras. De fato, pedi desculpas por ter entrado em uma discussão que o expunha em um contexto desnecessário, que se constituía tão somente de discussões mais superficiais em rede social. Essas discussões não se iniciaram, no entanto, porque eu as tenha aberto unilateralmente, mas em resposta ao hábito do senhor Caio de frequentar minhas redes sociais problematizando posições minhas em longos debates de rede social que todos conhecem. Admito ter caído na tentação de dar corda a essas discussões e até de reproduzir o seu comportamento. Eventualmente, vendo suas posições heterodoxas expostas, ele se sentiu ofendido.Mas a matéria do meu questionamento era válida: segundo o Caio deixou muito claro, ele não tem grande apreço pela tradição teológica evangélica nem grande interesse por respeitar ortodoxias. Em mais de uma ocasião já expressou descrença na ideia de infalibilidade da Escritura. Sua atitude, em teologia, é basicamente de um livre-pensador.Ora, certamente isso é permitido a qualquer pessoa; ninguém tem o dever de alinhar-se com uma ortodoxia Cristã evangélica (embora, como o Caio já deixou claro, na opinião dele nem existe, de jure, ortodoxia evangélica. Existe apenas a pluralidade). No entanto, em minhas discussões com ele, não apenas lamentei essa posição; eu realmente disse que alguém que circula na comunidade evangélica desautorizando teólogos e líderes eclesiásticos, e questionando doutrinas centrais dessa comunidade, em algum momento será chamado à responsabilidade. Caio considera isso arbitrário, porque não tem muito interesse em hierarquias, dogmas, sistemas, disciplinas, etc. Mas a maioria dos cristãos não concorda com ele, evidentemente. Considero lamentável que alguém com sua capacidade decida se marginalizar, dedicando-se a inventar a roda teológica e demonstrar que a ortodoxia evangelical e reformada em particular não sabe o que diz.Mesmo assim, é possível que ele traga alguma grande contribuição. Kierkegaard alienou-se do mainstream do Cristianismo hegeliano de sua época e trouxe contribuições fabulosas ao mundo e a igreja. Pode ser o caso do Caio, como posso saber? Mas devo adverti-lo de que para cada Kierkegaard que se levanta, há muitos e muitos aventureiros intelectuais, e uma profusão de hereges. A pinguela é estreita. Caminhe com cuidado.Sobre as perguntas formuladas pelo Caio:

1. Governo Anti-Cristão ou Mau Governo?

O senhor Caio aponta uma ambiguidade no meu texto, quando digo que o governo seria anti-Cristão e ao mesmo tempo que seria apenas um “mau governo” do qual Cristãos poderiam legitimamente participar. E ele aponta, nessa ambiguidade, uma tentativa de me justificar da participação do governo, ao mesmo tempo que tento me desvincular do que é mais claramente “nocivo” no governo.Penso que Caio está correto num ponto. Em minha indignação contra a postura assumida a partir do núcleo ideológico, diante da Pandemia, acusei o governo de ser anticristão. Mas realmente esse é um julgamento muito difícil de fazer. Há governos explicitamente ateístas e anticristãos, no sentido estrito. Mas isso não se aplicaria de modo consistente, nem mesmo, antes, aos governos petistas, tendo em vista a conhecida história do impacto do Cristianismo na origem do partido, e na presença de muitos Cristãos. O fato é que a presidência Bolsonaro é abertamente pró-cristã. Embora, evidentemente, sem entendimento. Seu zelo tem tanto entendimento quanto o dos compatriotas do apóstolo Paulo (ou seja, nenhum).Em termos de mérito, no entanto, pode-se alegar que o governo Bolsonaro é, no conjunto, falsamente cristão, pseudocristão; ou que é subcristão, insuficientemente Cristão. Talvez eu devesse ter dito que o governo Bolsonaro é subcristão, inconsistentemente cristão. Ele tenta ser, mas não consegue. Mas não posso negar que, por exemplo, no MMFDH haja um hercúleo esforço intelectual e prático para expressar valores Cristãos, ainda que esse esforço venha sendo parcialmente eclipsado pelos compromissos da ministra Damares com Bolsonaro.Nesse ponto, devo mencionar que o governo é uma estrutura de alta complexidade. Um dos meus aprendizados na administração foi, por assim dizer, abrir a “caixa-preta” governamental e observar seu interior. Que surpresa!O que encontrei foi uma extensa rede de contatos políticos, funcionários de carreira, indicações políticas, indicações técnicas, e pessoas com todo tipo de posição política: uns poucos, Bolsonaristas e Olavistas radicais; alguns simpatizantes. Outros, conservadores tradicionais, trabalhando em setores muito específicos. Alguns técnicos, completamente desinteressados em ideologia. E alguns de esquerda mesmo, mas aguentando tudo por amor ao trabalho que já realizavam, e até mesmo, pelo salário, porque não teriam como sustentar suas famílias de outro jeito.Foi uma iluminação; lembro-me de que na era lulopetista eu sentia indignação por ver alguns Cristãos evangélicos em cargos públicos, mas não atacava esses tantos. Meus debates eram mais com militantes ideológicos que tentavam se infiltrar nas igrejas.Mas hoje entendo o quanto até mesmo esse pensamento era injusto em relação a essas pessoas. Nem sempre elas concordavam com o que o núcleo de poder governamental fazia; mas sabendo que denúncia e indignação pública nem sempre são eficientes, muitas delas trabalhavam em seus setores, desenvolvendo abordagens fabulosas e interessantíssimas de política pública que faziam grande diferença para as pessoas que eram atendidas, e que não tinham absolutamente nenhuma relação com “o projeto de lei anticristão da Senadora X do partido Y que tinha relações perigosas com o governador Z”.Quantas vezes vi um funcionário terceirizado, ou um de carreira, ou um DAS sorrir pra mim, brilhar os olhos e me fazer saber que há muito tempo trabalhava no governo, sendo Cristão, e que sempre precisou reprimir seus pensamentos, mas agora se sentia feliz em trabalhar? Ou me agradecer aliviado pelo fato de poder trabalhar sob um diretor que, mesmo sendo evangélico e conservador, não perseguia ninguém?Um governo é feito de dezenas de milhares de pessoas, e a maioria só quer trabalhar. Quer ajudar os colegas, fazer rodar uma política pública sensacional, com pouco dinheiro, pessoal e contra uma burocracia exasperante, e só de haver ali um Cristão que eleve o moral, muita coisa pode ser feita.Uma coisa ficou bem clara para mim: nunca mais criticarei qualquer Cristão em qualquer cargo de governo, apenas porque o seu chefe ou a presidência disse X ou Y. Procurarei primeiro saber se aquilo tem alguma relação com o seu trabalho específico, e se ele de algum modo promove uma política pública claramente contrária ao Cristianismo Não me lembro de ter feito isso com ninguém (embora tenha pensado), mas se fiz, peço perdão. Hoje sei orar muito melhor por Cristãos no governo, e farei isso quando houver alternância de poder. Aliás, já estou fazendo, agora como oposição conservadora a Bolsonaro.Isso dito, reafirmo: sim, penso que os Cristãos que estão no governo podem seguir no governo enquanto lhes for possível, pressionando internamente para que os padrões éticos sejam elevados, e o governo tenha uma posição melhor.Pense nos Cristãos num governo, fazendo analogia como o modo como o Mandetta esteve lá: muitas vezes, sendo sal da terra onde estão, podem introduzir sutis reorientações, vitaminar políticas públicas esquálidas com valores Cristãos, e até mesmo alterar o pathos, a ambiência do lugar, de modo que haja respeito e solidariedade. Pense no que foi a saída de Mandetta do MS. Algum Cristão deveria ter desejado isso? Não foi bom que Mandetta tenha estado no governo, para fazer a queda-de-braço e forçar a quarentena, para ganhar tempo e levantar estruturas emergenciais? Algum Cristão deseja seriamente que todos os bons quadros saiam do governo e sejam substituídos por ideólogos, para que a ideologia entre em colapso logo, mesmo que o país afunde de vez e que milhares morram por isso? Porque isso é melhor do que deixarem milhares morrerem em nome da “economia”? Seria isso compatível com o Cristianismo?Não, isso seria perfeccionismo; típico de certas formas de anabatismo e, particularmente, da juventude contemporânea. Temo que o Caio esteja exatamente aqui. Mas o agostinianismo político não vê a coisa desse modo.Se há limites? Sim. Entendo o seguinte: se um agente público Cristão é obrigado a promover uma política pública da qual não pode participar, por motivo de consciência, ele deve resistir naquele ponto. O caso é que jamais, em qualquer momento, eu e meus colegas Cristãos no MMFDH fomos obrigados a promover uma política pública anticristã, mesmo que o discurso de alguns setores, como o do Ministro da Educação, seja claramente contrário ao Cristianismo. Portanto, é possível ser Cristão e participar de um governo subcristão ou ruim, enquanto ele puder se preservar de envolvimento pessoal com o mal. Essa é uma visão Agostiniana sobre participação Cristã em governos.

2. A Narrativa Vitoriosa

Vejamos a interpretação da minha narrativa.

Erro na Análise dos Processos Históricos

Sobre as motivações porque muitos votaram em Bolsonaro, é realmente correto apontar que a motivação de muitos era realmente de identificação com os antivalores que ele representava. Essa observação é muito pertinente: obscurantismo, espírito anticiência, nacionalismo, tudo isso estava lá. Caio está certíssimo ao dizer que embora muitos tenham votado em Bolsonaro “apesar de”, muito votaram “por causa de”.Mas se escolhermos tomar o “por causa de” como referência principal, também precisaríamos dar um salto: será que os milhões que votaram em Bolsonaro seriam todos coniventes e simpáticos aos piores aspectos do projeto, incluindo o bloco evangélico? Sob o risco de ser acusado de “polianismo”, penso que não cabe lançar tantos na vala comum, sem mais.Infelizmente, no entanto, a existência de setores radicais e doentes em uma composição política é inevitável num processo de polarização política. Não havendo terceira via, os setores mais radicais de cada lado necessariamente apoiarão o lado mais próximo deles e, eventualmente, esses setores podem ganhar precedência, se não forem contidos pelos próprios moderados. Assim a extrema-esquerda também apoiará qualquer um mais à esquerda, mesmo que ele seja, na verdade, um moderado. Na verdade, essa é uma observação absolutamente trivial. Não faz diferença nenhuma para a escolha de lados, exceto, obviamente, no sentido em que cada lado precisa policiar seus extremos. É só isso.Como explicação da ascensão do Bolsonarismo, o ganho explanatório disso é diminuto. O Caio apenas reproduz aqui os sentimentos de horror da esquerda, diante da ascensão do conservadorismo, que não mostram nenhum poder de análise. Em meus artigos na Gazeta do Povo apresentei interpretações do processo histórico, por autores à esquerda (como Mark Lilla), conservadores (como Patrick Deenen) e centristas (como Haidt) que explicam em termos de mudanças estruturais os excessos da pseudopolítica recente das esquerdas, e como elas estimularam movimentos neossoberanistas, conservadores, e, não nos esqueçamos, da extrema-direita. Essa interpretação remonta à sociologia do autoritarismo e do colapso da ordem social desenvolvida por Michael Polanyi e por Robert Nisbet depois da Segunda Guerra Mundial, e que muitos vem retomando. É a base para a minha análise do processo autoritário Brasileiro.A esquerda liberal e progressista perdeu as eleições exatamente porque lê a realidade como o Caio a lê: sem autocrítica. Ele diz que os antivalores eram berrados e os valores sussurrados. Evidentemente porque, por exemplo – e isso é uma referência ao discurso, e não à eficácia das políticas públicas, o que é outra história – temas como família, luta antiaborto, expansão das liberdades econômicas, combate à anomia no ambiente escolar, combate à corrupção sistêmica e soluções para a segurança pública, que foram insistentemente berrados durante a eleição pela direita, aparentemente não contam como valores para o Caio. Muitos berraram esses valores, mas ele não ouvia. Só ouvia o ruído dos antivalores. Isso é da essência da polarização moral atual, exatamente como foi descrito por Jonathan Haidt. A leitura política de Caio não é um esclarecimento, mas uma parte da confusão.Naturalmente, o compromisso efetivo de Bolsonaro com os valores conservadores torna-se uma piada, à medida em que os quadros que poderiam materializar tais valores abandonam o governo. Não entendo o porquê, mas Caio sugere que eu considerei Bolsonaro um representante desses valores. Mas quero deixar algo bem claro: eu nunca pensei que Bolsonaro fosse capaz de representar esses valores cristãos. Nunca defendi isso, nem antes, nem durante, nem depois. Bolsonaro não estava à altura dessa agenda. E, como já disse dezenas de vezes, não entrei para o governo por essa razão.Mas consideremos então essas tantas pessoas que se arrependeram de votar em Bolsonaro, e são muitas e muitas. Por que elas estão se arrependendo? Exatamente porque votaram no homem com os olhos na “parte boa” de sua agenda, e não na parte ruim. Elas ouviam o que Caio não ouvia, mas não ouviam o que Caio ouvia. Mesmo alguns que agora o apoiam, o apoiam ignorando seus defeitos por excesso de credulidade. Puro tribalismo moral, e não necessariamente uma adesão refletida aos vícios morais e políticos da extrema-direita. Independentemente do que pensemos a respeito, é assim que o mundo real funciona. Não foi diferente no governo anterior – e não escrevo isso por concordar. É um dado analítico.Por sinal, é por isso que não faz sentido cobrar expiação de pecados do mero eleitor (distinguindo-o dos idólatras políticos) que tem posição ideológica diferente da nossa. Porque a linha entre ele e nós é tênue. Um pequeno nudge pode mudar a posição dele. Mas se o atormentamos com raios e trovões de juízo ele pode endurecer a posição e continuarei perdendo as eleições no próximo termo. Em suma, esse é um dos comportamentos mais imbecis praticados em redes sociais hoje. Nesse campo, a maior parte dos crentes que palpita sobre o tema nas redes está, infelizmente, na infância política.Quanto aos valores que poderiam ser defendidos sob o governo Bolsonaro, isso é realmente bastante irônico. O fato é que, mesmo com seus desmandos, há sim muitas coisas que não poderiam ser construídas sob outro governo, mas que poderiam ser construídas sob este governo SE Bolsonaro delegasse essa tarefa. Caio gostaria de me pintar como maniqueísta, mas o vejo bastante maniqueísta aqui. As novas políticas que vinham sendo desenvolvidas a partir do MMFDH, se vingarem, são excelentes na minha opinião. Iniciativas na área de família, dignidade da mulher, Criança e Adolescente, e novas tecnologias para proteção de testemunhas, o programa Escola do Bem Comum, e os novos projetos para Liberdade Religiosa.Podemos dizer mais: se Bolsonaro houvesse mantido seu compromisso com quadros técnicos, teria deixado Mandetta trabalhar, e estaríamos melhor hoje. Se houvesse dado apoio à luta anticorrupção, Moro teria ficado. Ao contrário do que ele sugere, isso não estava decidido lá atrás, no início do governo. Será que Mandetta, Moro, Teich, e muitos outros, seriam apenas ingênuos ou seriam gente pervertida? Nenhum dos dois. E a história não estava predeterminada. Eles não cometeram crimes ao entrar para o governo, porque decisões fatídicas que Bolsonaro faria ainda não haviam sido tomadas. Bolsonaro até poderia ter feito escolhas melhores, e seria maniqueísmo julgar a todos de forma absoluta, como se não houvesse a zona cinzenta do mundo real, e como se as decisões não fizessem diferença no julgamento político.O governo Lula fez muita coisa boa. FHC também, antes dele. E mesmo Bolsonaro tinha algumas boas agendas que os Cristãos deveriam apoiar. Os eleitores de Lula e de FHC não eram todos idiotas por conta dos erros posteriormente cometidos por eles. O maniqueísmo idiotiza e destrói a nossa capacidade de ler a complexidade da realidade.

Simetria entre PT e Bolsonaro

Não penso que haja muito o que responder aqui. Como Nisbet, considero negacionista qualquer tentativa de ignorar a relação entre a ascensão do autoritarismo com processos anteriores de corrupção do tecido social. Minha interpretação sobre como, de formas diferentes, o lulopetismo e o bolsonarismo trabalham enfraquecendo o tecido social e as ordens de autoridade, usando o método neopopulista já foi apresentada nos últimos artigos na Gazeta, e não acho necessário desenvolve-la aqui.Digo apenas que a visão do Caio sobre como o lulopetismo seria melhor do que o Bolsonarismo porque se preocupava com os vulneráveis da sociedade e que não havia abuso da fé Cristã é de ingenuidade supreendente. Ele se esqueceu do abortismo, do Kit Gay e de programas de intervenção moral na família (programas que tive a oportunidade de examinar mais de perto, no governo), da oposição a projetos sociais cristãos, do PNPS, do mensalão, das descobertas da lavajato, da ruína econômica do país, e de tantos outros problemas que berram, mas que Caio não consegue ouvir.Ora, é claro que o lulopetismo não apresenta as seis características anticristãs do governo Bolsonaro que eu mesmo apontei. Esse é o ponto: ele apresenta outras características anticristãs, outros pecados, que para muitos esquerdistas são coisas perdoáveis. Eu leio essa interpretação maniqueísta, aqui, como um exemplo de forte filtro W.E.I.R.D. Para uma rápida exposição do impacto destrutivo desse maniqueísmo no processo político, recomendo meu último artigo na Gazeta: “A Guerra Civil dos Sentimentos Morais.”

Quem é Quem nessa História

Essa seção da crítica do Caio é uma das mais problemáticas. Em primeiro lugar, quero destacar que a resposta à sua pergunta sobre onde está a “linha divisória” entre os radicais e os conservadores está claramente dada no meu artigo original. Os radicais são pessoas comprometidas com o “Bolsolavismo”, o projeto de Olavo de Carvalho com seus elementos autoritários, revolucionários, perenialistas, etc. Dentro do governo isso não é difícil de identificar. Acompanhe-se os discursos, os métodos, as amizades, e se mata a charada.Agora, se Caio deseja nomes, seria necessário que eu expusesse muitas pessoas, e dissesse muitas coisas de modo intempestivo. Isso é realmente um problema; o Caio se posicionou como meu oponente desde que, numa conversa de facebook, vista por quase ninguém, ele se sentiu teologicamente exposto. Ele deixou claro que acha isso desleal. Mas espera, ao mesmo tempo, que eu apresente aqui uma taxonomia de todos os Cristãos verdadeiros que estão nesse governo, em um momento histórico delicado, para satisfazer seus incômodos. Ora, não posso faze-lo, a não ser disparando “fogo amigo”.Consideremos, por exemplo, Franklin Ferreira, citado pelo Caio. Franklin sabe aonde divergimos. Mas reconheço o trabalho dele. No entanto, apesar de ser cioso de pessoas que criticam duramente a esquerda evangélica, Caio não tem nenhum zelo pela imagem dos reformados Brasileiros, visto que eles representam coisas como Calvinismo, ortodoxia, disciplina eclesiástica, tradição e teologia dogmática, coisas que ele mesmo não preza muito, e não faz esforço por proteger a imagem desses pastores e líderes. Mas seria realmente o caso, para mim, de trocar o valor de gente que já prestou serviços reconhecidos à igreja, para satisfazer aos muitos críticos da internet, cuja voz é volumosa nas redes sociais, mas cujo serviço prático à igreja é neófito ou inexistente?Em todo o caso, tenho minhas críticas aos “grandes”. Mas como ocorreu antes, são críticas a ideias e soluções ruins, esposadas por muitos reformados, e não a pessoas individuais. Como a minha crítica recente ao negacionismo científico. Fui explícito sobre o fracasso dos reformados a responder a isso adequadamente. Mas não difamo indivíduos.Mas voltando à política: se o Caio pensa que é fácil para mim criar essa narrativa de conservadorismo plural, como forma de me defender, pouco me importa. O jogo político está em curso, e não posso parar para atende-lo. Eu seria um ingênuo fazendo isso. Quando for conveniente, direi o que acho necessário. E quem não quiser acreditar em mim até lá, não precisa.Ademais, os recentes conflitos entre Mandetta, Sérgio Moro, Nelson Teich, e diversos servidores de segundo e terceiro escalão com a presidência, são perfeitamente suficientes para exemplificar meu ponto sobre as diferenças dentro do governo e sobre a existência inicial de um forte bloco moderado, se o leitor tiver boa vontade para admiti-lo.

Guerra Cultural

Em primeiro lugar, devo dizer que não falei em guerra cultural, no meu texto. Aliás, em lugar nenhum. Não sei de onde o Caio tirou isso. No governo, eu trabalhava precisamente contra a noção de guerra cultural, e era conhecido no MMFDH exatamente por isso.Mas houve um acerto nesse trecho. A crítica do Caio sobre minha ironia aos “cínicos”, que já sabem que vai dar tudo errado, é justa. Eu escrevi pensando mesmo em um estereótipo de cínicos, que existem e dos quais conheço vários. Mas pensando bem, há muitos que apostaram contra o governo e que não o fizeram por ser cínicos, e eu botei todo mundo no mesmo saco. O próprio Caio, pelo que me consta, não cabe nesse saco. Errei, mesmo. E sim, essa postura não é digna de um teólogo público. Peço perdão aos que se viram injustiçados por meu comentário generalizante. Na verdade, a crítica aos cínicos deveria ser feita com uma importantíssima qualificação: “alguns”. Espero não cometer novamente esse erro.Mas quanto ao que era o Bolsonarismo, Caio insiste num ponto que já expliquei e não vou repetir detalhadamente aqui. O que pensava do núcleo ideológico, eu disse antes de aceitar entrar no governo, que não era e não é uniformemente bolsonarista, e depois de trabalhar dentro do governo, certamente conheço o fenômeno melhor do que o senhor Caio. Minha crítica ao Bolsonarismo se encaixa em minha crítica geral ao fenômeno da atrofia de sensibilidades morais e a emergência do que chamo de mentalidade de “minotauro” (Michael Polanyi). Não se trata de um improviso. É uma pena que o senhor Caio me subestime tão terrivelmente aqui.Não considero o “e daí” de Bolsonaro coisa trivial. Tanto não considero assim que deixei o governo deixando pra trás amigos, projetos e oportunidades. E assim fizeram vários outros. A impressão que tenho, nessas falas de Caio, é que ele está falando de outra pessoa.Sobre a “extremização” da esquerda (ou o processo de caracterizar toda a esquerda como se fosse extremista), quero dizer, em primeiro lugar, que o Caio pede um equilíbrio que ele mesmo não pratica. Exige o reconhecimento de pluralidade na esquerda, mas em toda a sua crítica a mim, questionou a existência de pluralidade na direita, inclinando-se a colocar todo e qualquer participante deste governo no mesmo saco.Mas sim, há diversidade na esquerda. Sei disso. Mas a voz moderada da esquerda foi, infelizmente, silenciada. Hoje a direita Bolsonarista tem uma forte oposição conservadora. Mas onde está a oposição moderada, dentro do campo da esquerda, ao fascismo identitário? Em particular, onde estão os evangélicos de esquerda moderada que se opõe firmemente a esse fascismo? Onde estavam eles quando a esquerda reinava, soberana? Estavam escondidos em cavernas?Onde estava essa esquerda evangélica moderada, quando eu advertia sobre a desgraça que as políticas de identidade trariam? Nem depois que Mark Lilla mostrou a simbiose entre a Nova Esquerda e Trump, essa esquerda evangélica moderada teve coragem de dar as caras. Continuou quietinha nas cavernas.Na verdade eu conheço alguns irmãos de esquerda cristã moderada que são públicos sobre isso, pelos quais tenho admiração, como os irmãos da comunidade Âncora, em Vitória (ES), que reúnem ortodoxia evangélica, visão moral evangélica, e uma agenda social voltada para vulneráveis e injustiçados. Mas não são muitos; e infelizmente Caio Peres não está entre eles.É por isso que ele se incomoda tanto com a “estremização” da esquerda. Ele mesmo não apresenta defesas contra ela. E a razão, segundo indicada em suas expressões de sensibilidade moral e suas ideias heterodoxas e afetivistas sobre família, adoção, e outros temas, parece ser que ele não apenas pensa como um W.E.I.R.D., mas que o faz acriticamente – pois é possível, mesmo pensando a partir de certo paladar moral, viajar hipoteticamente através de outro universo visando estabelecer negociações.Os que me conheceram há pouco talvez não saibam que venho do campo da esquerda, e que aos poucos me movi para uma posição mais conservadora, na medida em que pude constatar a inabilidade dos líderes da esquerda evangélica de entenderem e responderem com celeridade à ameaça do fascismo identitário, que vinha se desenhando no horizonte. O próprio Dom Robinson Cavalcanti, finado bispo anglicano da diocese do Recife e em sua época o maior ícone da esquerda evangélica, o qual prefaciou nosso livro “Cosmovisão Cristã e Transformação” lançado pela Ultimato em 2006, premiado com o Areté em 2007, subscreveu integralmente a minha tese sobre a visão social do movimento evangélico progressista.Nessa época e depois, lancei críticas ao movimento de Missão Integral, por deixar esse flanco aberto, e todos os meus temores se concretizaram a partir de 2015 como movimentos como o Festival “Reimaginar”, a popularização de evangélicos “inclusivistas” e a ascensão de uma espécie de “psolismo evangélico”, com “estrelas” como Henrique Vieira. Muitos que me acompanham desde que lancei o alerta, em 2005, puderam confirmar que, dez anos depois, meus temores sobre o impacto do progressismo eviscerando a fé evangélica do que lhe restava de um sentido de ordem criacional se concretizaram. Em parte, essa fraqueza no discurso de missão integral foi causada por falhas teológicas não muito diferentes do estilo de livre-pensador que meu crítico decidiu adotar. Temo que falte ao Caio a visão de profundidade histórica para a grandiloquente denúncia contra mim que ele pretende fazer. Ou melhor: ele está tão mergulhado dentro do problema, que não consegue enxerga-lo.Finalmente, quanto à acusação de que minha postura se define como “guerra cultural”: essa é uma longuíssima história. Certamente, embora sustente o princípio Kuyperiano da antítese espiritual, como aspecto inevitável da atividade cultural Cristã, não penso que o cerne da presença Cristã pública seja o conflito e a guerra. Não penso, e exatamente por isso tenho buscado contatos mais amplos e a construção, com amigos, de projetos de política pública centrados no bem comum, o que já iniciei quando no governo. Minha posição, a esse respeito, foi claramente apresentada no prefácio ao livro “O Problema da Pobreza”, de Abraham Kuyper, lançado pela Thomas Nelson neste ano. Penso que o cerne da política Cristã é o cultivo do bem comum, e esse bem é de todos, incluindo os extremistas.Por sinal, a essa altura posso dizer que enquanto estava no governo, eu e outros cristãos fizemos esforços para promover o conceito de “bem comum”, trazendo muitas pessoas para o nosso lado mas também deixando muita gente desconfiada. A ministra Damares chegou a me contar que alguns no governo me consideravam um comunista infiltrado. Naturalmente, não sou comunista, como a Ministra sabia muito bem. Eu não estava no governo para fazer “guerra cultural”, mas para fazer política, enquanto arte do possível.Por outro lado, no entanto, vejo que Caio é tão comprometido com a guerra cultural, que considera inaceitável que alguém trabalhe e ajude a um governo com o qual não concorda, e por outro lado, é condescendente com a esquerda identitária. Ora, de que modo isso difere do Bolsonarista, para o qual os erros da extrema-direita podem ser suportados com paciência, mas alguém que tenha participado do governo Lula está eternamente condenado?Caio quer que todos os que não votaram como ele peçam perdão pelo erro, e expiem seu pecado. Ficou feliz com a retratação do meu confrade Francisco Razzo, e me tem como um problema, porque não pedi perdão. No entanto, não votei em Bolsonaro; votei em Marina Silva. Entrei no governo Bolsonaro para ajudar meus amigos e o país, e saí quando entendi que a política Cristã, a minha igreja e minha família precisariam mais de mim fora do governo. Infelizmente, para ele, não tenho do que pedir perdão, nem exigirei de outros irmãos no governo que peçam perdão, a não ser que eles se envolvam em atos anticristãos, o que até agora, pelo que sei, não aconteceu. Ademais, depois de conhecer de perto as complexidades da vida política, entendo que nem sempre é possível emitir um julgamento claro sobre as escolhas políticas em cada momento.Afirmo que minha mentalidade é muito menos radical que a do Caio. Eu trabalharia, hoje, num governo de esquerda, com a área de Direitos Humanos, se fosse convidado. Representaria alegremente, lá dentro, uma posição conservadora (embora pense que isso dificilmente acontecerá). Ao contrário do Caio, não sou um purista. Mas sim, sou totalmente contra os fascismos. E onde estiver, vou me esforçar para moderá-los e desnaturá-los.Caio sente em mim essa tremenda intolerância porque, em minha opinião, essa é a intolerância que ele sente em relação a crentes conservadores, e especialmente dos Reformados e dos que criticam sua postura de livre-pensador não-confessional.

E, Então, Como Viveremos?

Na opinião do meu crítico, foi a minha narrativa, extremizadora, o que tornou inexistente, para o evangelicalismo reformado conservador, as posições de centro-esquerda. Esse é um dos pontos na crítica do Caio em que o vejo mais fora da realidade. Em primeiro lugar, eu não tenho tal grau de influência sobre a comunidade reformada. Como aquelas pessoas que sofrem de fobias, vendo aranhas e baratas com aparência gigantesca, Caio me vê maior do que sou. Isso acontece, penso eu, porque ele desconhece a comunidade evangélica em geral e reformada em particular. Ou conhece pouco.E a sua afirmação de que eu contribuí para criar o ambiente inóspito a evangélicos progressistas é brutalmente ignorante, e também cruel, ainda que não intencionalmente.Eu me considerava, em 2005, um progressista. E fiz um amplo esforço para convencer os evangélicos progressistas de que uma reorientação ortodoxa e litúrgica era necessária, ou o movimento seria gradualmente rejeitado pelo mainstream evangélico.Ao mesmo tempo, eu argumentava com os amigos reformados que me davam ouvidos, que eles deveriam ser menos críticos da esquerda evangélica. Eu dizia isso ao Franklin, por exemplo, já que ele o citou. Mas a cada passo que a esquerda evangélica dava rumo ao abismo lulopetista – abrindo caminho para a nova direita – meus argumentos em defesa da esquerda evangélica perdiam força.Eventualmente, no segundo semestre de 2014 participei, a convite, de uma mesa plenária do Encontro Nacional da Aliança Cristã Evangélica Brasileira, em São Paulo, no qual expressei claramente minhas preocupações teológicas e a reorientação que, em minha opinião, precisava acontecer. Estava “todo mundo” lá. Em 2015, dez anos depois da conferência de Cosmovisão em Curitiba e da produção do nosso livro, eu comecei a dizer publicamente, em artigos no blog da Ultimato, que a porta estava se fechando. Poucos me ouviram, e diversos líderes evangélicos da geração 80’ e 90’ se comunicaram comigo privadamente, admitindo que eu estava certo ou parcialmente certo. Eu abandonei o campo evangélico progressista lentamente, e com pesar.Essa crítica do Caio é profundamente injusta, uma vez que chorei por diversas vezes a “destruição de Jerusalém”, por assim dizer. Eu fiz a advertência de que o movimento evangélico daria uma guinada à direita. Poucos me ouviram, e a partir de 2013, o processo foi iniciado, deixando a todos de calças na mão.E mesmo agora, eu digo aos reformados: deveríamos ter construído alianças com os evangelicais da esquerda que são moderados. Fazer um gesto de aproximação. A verdade é que, seja por falta de visão, em alguns casos, ou de oportunidade, por outros, isso não ocorreu. Mas como ocorreu antes, poucos me ouvem. E agora, temos que lidar com um Bolsonarismo evangélico.Qual a ajuda que os evangélicos de esquerda moderada, que sabem que o fascismo identitário precisa ser rejeitado, poderiam dar agora? Penso que poderiam se aproximar de agendas conservadoras que tem ressonância com a tradição Cristã social, e poderíamos construir algo juntos. Penso que há muitos eleitores da direita que não veriam problema em cooperar com cristãos mais à esquerda, ao menos ao redor de áreas de acordo. Essa é, também, a minha mensagem aos conservadores evangélicos moderados: devemos priorizar o eixo da doutrina social Cristã, acima das soluções técnicas específicas baseadas em ideologias contemporâneas nas áreas de economia e governança.Enfim, repudio com toda a veemência essa acusação do senhor Caio, que pretende me culpar pelo fracasso da esquerda evangélica em lidar com seus problemas internos.Em conclusão, gostaria de observar que o senhor Caio levantou diversas perguntas, que considero interessantes. O espírito ressentido e vingativo com as quais ele as embrulhou, no entanto, propondo, para todos os fins práticos, que eu abandone a função atual como teólogo público até que me torne mais maduro (como se a polêmica teológica e moral não fosse um aspecto histórico da atividade apologética Cristã), é menos ruim para mim e mais para ele. Sua crítica a mim é bastante virulenta e pessoal, e não se encaixa no padrão que ele pensa que eu deveria usar em minha atividade.Em todo o caso, meu conselho ao Caio e a pessoas que compartilhem seu pathos seria o seguinte: sejam bons teólogos para a igreja. Deixem o estilo “Chuck Norris” de combatentes solitários, e se submetam a uma tradição. Trabalhem em time. Aprendam a amar a ortodoxia. Tenham pastores. Pertençam a uma igreja. Talvez vocês compreendam por que, mesmo tendo minha identidade distinta, transito entre um círculo de teólogos (que o Caio despreza). Talvez vocês descubram que não sou eu o descaminho do movimento evangélico brasileiro, e que os verdadeiros problemas são outros. Ao Caio, eu diria: não sou seu obstáculo, e se você aprender as lições que lhe faltam, poderíamos até ser aliados.

5 comentários em “O Nome de Deus no Governo Bolsonaro: uma crítica teológico-política

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  1. Olá pastor Guilherme de Carvalho. Pra mim é difícil comentar um artigo tão extenso, mas, vou tentar. Penso que alguns erros cometidos pelo governo Bolsonaro, considero algo normal, pois, não tem como acertar sempre e deve aprender com os erros e mudar de atitude. Cristãos evangélicos, precisam parar de exigir em Bolsonaro um comportamento de um crente em Cristo Jesus, pois, ele não é. Nem precisamos ter um crente em Cristo na presidência, para acharmos que a partir daí teremos um bom governo. Agora, penso que o presidente muitas vezes tem sido precipitado ao falar, mesmo sabendo que temos uma mídia pronta para caluniar seu governo independente de qualquer coisa certa ou errada que o presidente fale. Quanto a crise estabelecida pela Covid-19, qualquer governo democrático, onde o povo e a mídia tenha mesmo a liberdade de expressão, entraria numa situação muito complicada, pois, esta doença nos surpreende a cada dia. Na China, não houve crise no governo por ser um regime comunista, onde, quem ousou levantar alguma voz contra as atitudes do governo, tal voz foi calada pelos ditadores. Concordo que se o presidente Bolsonaro estiver usando o nome de Deus em vão, isso trará consequências à ele. Agora, já vi Bolsonaro falar em Deus na pessoa de Cristo Jesus, portanto, acho estranho o senhor afirmar o contrário disso. O senhor acusa o presidente de heresia? Repito: Bolsonaro não é crente em Cristo Jesus. Agora, mesmo o presidente não sendo crente em Cristo, isto não o isenta de consequências se usar o nome de Deus em vão ou para simplesmente ter apoio de cristãos. A grande maioria dos políticos brasileiros já fazem isto. Se o senhor enxerga isto no presidente, ore por ele, escreva um artigo pedindo para que as igrejas orem por ele conforme está escrito em 1ª Tm 2-1:3. Para encerrar, quero discordar completamente do senhor, pastor Guilherme de Carvalho, quanto a forma branda que cita a imprensa brasileira. Estes jornalistas, estão a todo tempo trabalhando para causar caos na mente do povo para não apoiarem o presidente do Brasil. A mídia não se importa com o bem de nossa nação, pra eles o que vale é ter os bilhões de reais do dinheiro público de volta aos seus cofres.

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  2. Muito bom. Creio que falte, para a maioria dos cristão no Brasil, conhecimento sobre política, informações sobre o que acontece no dia a dia da política, não só de agora mas dos últimos anos. Discordo em alguns pontos, principalmente quando diz que não se podia prever o Bolsolavismo quando isso é uma ação que vem sendo feita em vários países através do tal de Steve Bannon e já em 2016 influenciou a eleição americana. Mas o chamamento final é válido, não podemos nos prender a homens, sob pena de a igreja afundar moralmente quando este homem cair, Bolsonaro não tem se mostrado confiável.

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