O Nome de Deus no Governo Bolsonaro: uma crítica teológico-política

“Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não considerará inocente quem tomar o seu nome em vão.” (Êxodo 22.7)

“O Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Quem poderia reclamar de tal slogan exceto alguns laicistas e ateus? Há quem o considere intrinsecamente profano; pois o nome de Deus não deveria ser ajuntado a assuntos terrenos. Bobagem. O poder é uma questão intrinsecamente teológica. E nossa Constituição Cidadã foi promulgada “sob a proteção de Deus”. O nome de Deus não está “dentro” do ordenamento jurídico, é verdade; mas sua presença enche todas as coisas, e todas as coisas existem nele. Até os laicistas.

Mas ainda que plausível De Jure, esse slogan precisará ser verdadeiro, De Facto. Do contrário, serão graves as consequências. Pois da possibilidade de associar o Nome de Deus às coisas, não se segue que isso deva ser feito. Especialmente se for feito de modo vão.

A ascensão da COVID-19 abriu no governo uma crise sem precedentes, que não se transformou em ruptura porque o compromisso emergencial com a nação se sobrepôs à vergonha e à falta de liderança. O transparecimento da problemática dinâmica interna do governo nessa crise oportuniza um balanço sobre a sua fidelidade teológica, e torna necessária e inadiável uma tomada de posição diante do espírito e da direção que vem sendo assumida pela Presidência do Sr. Jair Messias Bolsonaro, a partir do núcleo ideológico que hoje o orienta.

Previno o leitor sobre as palavras que se seguem. São duras de ouvir, e podem causar dificuldades. Mas tenho para mim que não há outro momento para ouvir e pensar. Estamos na Quaresma e, ainda, em Quarentena. Alguns não sairão dela bem. É tempo de pano de saco e de cinza, e a sombra do esquecimento descerá novamente em poucos meses. A dor nos torna sóbrios. Vamos aproveitá-la.

A Ascensão de um Populismo

Como é do conhecimento de todos, o presidente foi eleito democraticamente e concentrando em si as aspirações de milhões de Brasileiros que expressavam, em seu voto, uma recusa histórica ao projeto Lulopetista e à esquerda brasileira em geral.

Para além da normalidade da mera alternância de poder, e da frustração pelo fracasso das políticas econômicas do governo anterior, essa recusa constituiu um gesto de repreensão à mentalidade progressista radical, às políticas identitárias e à leniência com a corrupção, por um lado, e de defesa da família, da moralidade judaico-Cristã, e do combate à corrupção, por outro. Assim se compreende por que o movimento de Jair Bolsonaro obteve amplo apoio da comunidade Cristã em geral, tanto de católicos romanos, quanto de evangélicos de vários matizes, e de outros movimentos de inspiração Cristã.

Entendo que aos olhos de muitos essa linha de explicação soe ingênua; pois mudanças de tal monta deveriam certamente receber explicação estrutural, como procedendo da dança dialética de forças que desce, em última análise, aos porões do modo de produção e às mutações do Capital. A esses haveria muitíssimo a dizer, mas por hora bastará o seguinte: é por esse tipo de teimosia analítica que caíram do poder e até hoje não conseguiram se reorganizar.

Mas voltemos ao mundo real: a nova direita explode, como todos sabem, em 2013, em uma cacofonia de tribos libertárias, liberais, liberais-conservadoras, conservadoras, ultraconservadoras e diversas bolhas protofascistas. É perfeitamente compreensível que a fauna dessa nova direita fosse tão diversa quanto a que se encontra à esquerda, e as escaramuças públicas entre esses grupos emergiram de imediato. E entre esses grupos, o mais influente e briguento era o grupo de Olavo de Carvalho.

O movimento pilotado pelo filósofo ganhou forte apoio entre conservadores em geral, e particularmente entre católicos romanos; eventualmente, e não sem serem periodicamente ridicularizados pelo mestre, evangélicos se submeteram não apenas à doutrina conspiracionista, mas também ao páthos agressivo do mentor. E absorveram esse páthos, dos xingamentos e “palavrões” até à versão tupiniquim do discurso antiglobalista e neo-soberanista que hoje se tornou bastante… global.

Embora haja controvérsias, foi aparentemente recente a dominância do elemento anti-institucional e neopopulista no discurso de Olavo de Carvalho. Esse elemento como que reorganizou o significado dos elementos propriamente conservadores no movimento olavista, imbuíndo-os de um espírito revolucionário e messianista.

Esse é um ponto que merece investigação futura; o “engate” para um messianismo de direita já estava pronto e bem estabelecido na fase anterior dessa dispensação política, sob o Lulopetismo. Ali vimos um processo similar de questionamento institucional e de legitimação do neopopulismo, segundo doutrina recomendada pelo intelectual esquerdista argentino Ernesto Laclau como a solução para o avanço “democrático” das esquerdas na América Latina. Daí o suporte mútuo entre bolivarianos e lulopetistas. É necessário conceder: no que tange ao Foro de São Paulo, Olavo realmente tinha razão.

Enfim, como todos sabem, o Lulopetismo se enroscou demais na “velha política” e no velho sistema de “pagamentos”; e acabou gostando. Eventualmente, a casa caiu. O que foi triste para a esquerda e fez muito mal ao país, mas francamente, não pior ou mais mal que se houvera bem-sucedido.

E eis que uma janela histórica se abre, na “baderna” de 2013. Com o turbilhão que derrubaria do trono o Lulopetismo três anos depois, uma oportunidade se apresentava para a destruição do establishment político e a reconstrução revolucionária do Estado Brasileiro, mas agora do jeito certo. O método seria o mesmo método revolucionário, que o antigo regime não pôde implementar; a doutrina, um “conservadorismo” sui generis; e a causa instrumental, um líder populista. Não precisaria este ser um gênio, nem grandemente carismático, nem grandemente efetivo. Bastaria que fosse muito bem assessorado. A questão seria o homem certo na hora certa.

E esse homem certo apareceu. Com inegável perícia, o núcleo olavista foi capaz de surfar na onda conservadora que se agigantava, e concentrar em si expectativas de liberdade econômica, conservadorismo de costumes, e combate à corrupção e à criminalidade, através de uma figura desconhecida mas capaz de se identificar cultural e linguisticamente com as massas e de se posicionar publicamente por essas causas sem pedir licença aos líderes partidários tradicionais. Formando uma pequena linha de frente de convertidos raivosos e obcecados, com recursos de guerra narrativa importados dos EUA, o movimento de Olavo converteu-se no Bolsolavismo, a linha de frente de sustentação de um neopopulismo de direita.

Mas é importante destacar esse ponto: por artificial que fosse a figura do novo candidato, as preocupações das massas não eram artificiais, mas anseios reais, que a esquerda e os partidos tradicionais não tiveram nem boa vontade nem competência para compreender. E assim se formou a tempestade perfeita que levou ao poder o improvável Jair Messias Bolsonaro. E não somente o homem: com ele, o núcleo do movimento, que viria a ser representado no governo como o núcleo ideológico do bolsolavismo, assentado à direita e à esquerda do mandatário na presidência da república.

Antes de voltarmos à análise da realidade brasileira, será necessário um breve desvio teórico para entender o que aconteceu com a cabeça do Brasileiro durante essa reviravolta.

A Psicologia Social da Mudança Política

Leituras pesadamente influenciadas pela psicanálise buscarão compreender esse processo de identificação das massas com uma figura autoritária como um problema de repressão e neurose; mas a psicologia social contemporânea nos oferece recursos científicos bem mais interessantes que esses fetiches intelectuais da esquerda.

Já há algum tempo venho recomendando os resultados interessantíssimos da Teoria dos Fundamentos Morais, desenvolvida pelo psicólogo social Jonathan Haidt, atualmente na Stern School of Business da Universidade do Estado de Nova Iorque. Empreguei-as, inclusive, para explicar o comportamento do “Porta dos Fundos” no último Natal. Plasmando as observações antropológicas de Richard Schweder sobre a diferença entre culturas sociocêntricas e individualistas, com uma visão neo-Humeana da moralidade humana como fundada em sentimentos morais, uma interpretação evolutiva-darwiniana da origem da moralidade, e uma montanha de dados de psicologia experimental do comportamento moral, Haidt foi capaz de distinguir entre o que ele chama de “paladar moral” e “culinária moral”.

A “culinária moral” seria o conjunto de doutrinas morais e o sistema de formação moral que uma cultura adota. Esse sistema pode privilegiar certos valores sobre outros, e sistemas diferentes podem justificar regras morais úteis como explicações completamente disparatadas. É assim, por exemplo, que o Kantianismo promoverá a monogamia assim como o Cristianismo, mas com explanações diferentes. Cristianismo, Hinduísmo, Utilitarismo e o movimento LGBT+, por exemplo, oferecem culinárias morais diferentes.

O “paladar moral” seria nosso sistema de sentimentos morais, ou sistema cognitivo-moral. Esse sistema envolve pelo menos seis módulos cognitivos pré-programados evolutivamente, que nos fazem reagir em situações nas quais heurísticas emocionais automáticas são disparadas estimulando respostas padronizadas. Essas heurísticas pertencem ao mesmo grupo de mecanismos estudados pelo psicólogo experimental Daniel Kahneman, prêmio Nobel de Economia e um dos fundadores da economia comportamental.

Haidt identificou seis áreas de sentimentos morais: “Cuidado/evitar o dano”, “Equidade/evitar injustiça, “Lealdade/evitar a trapaça”, “Liberdade/evitar a tirania”, “Autoridade/evitar a rebeldia”, “Santidade/evitar a profanação”. Esses pares se fixaram em nossa natureza humana porque os sentimentos, hábitos e ideias neles baseados garantiram sucesso a grupos humanos. Foram selecionados evolutivamente.

De modo que o “paladar moral” é universal, mas a “culinária moral” é relativa ao contexto histórico e cultural. Naturalmente, há limites para a flexibilidade na doutrina moral, porque todas as culinárias morais precisam trabalhar com os seis módulos fundamentais. É por isso que as doutrinas morais diferem, mas continuam cheias de semelhança.

Em tempo: do fato de que nosso aparelho cognitivo-moral teria origens evolutivas, não se segue que não teria simultaneamente origens divinas. Deus usou para constituir a natureza os meios que usou, e que a ciência luta para compreender. Ademais, esse aparelho é um sistema cognitivo, e isso é compatível com o realismo moral.

Tudo isso poderia soar academicamente interessante e quase inútil para a nossa discussão política, se a investigação empírica não houvesse detectado um fenômeno surpreendente: uma culinária moral pode manipular o paladar moral, ainda que não possa alterá-lo. Assim como esquimós não tem o sabor “doce” em sua culinária porque não há frutas ou mel disponíveis no Ártico, uma sociedade pode “desligar” alguns fundamentos morais e super-excitar outros.

Haidt descobriu, para sua surpresa, uma bifurcação na imaginação moral ocidental. Pessoas em ambientes de periferia, de classe baixa, ou altamente religiosos, ou interioranos, trabalhariam com todos os seis fundamentos morais, exatamente como pessoas em culturas sociocêntricas por todo o globo, sejam elas hindus, budistas, confucionistas, católicas, ou praticantes de religiões tradicionais. Mas pessoas com educação liberal, maior renda, e maior envolvimento com a vida urbana, trabalhariam com um conjunto menor de prioridades morais: cuidar para reduzir o sofrimento, garantir a liberdade de todos, reduzir a desigualdade. A equipe de Haidt deu a esse subgrupo da sociedade ocidental o apelido de W.E.I.R.D. (em inglês, “estranho”): “Western, Educated, Industrialized, Rich & Democratic” (Ocidental, Educado, Industrializado, Rico e Democrático).

E ao cruzar os dados da divisão política dos EUA com o questionário de Fundamentos Morais, a equipe de Haidt descobriu que os progressistas estadunidenses são, em sua maioria, pessoas W.E.I.R.D., defendendo com unhas e dentes uma culinária moral mais reduzida, focada na felicidade individual. Para essas pessoas, os temas da “autoridade”, da “lealdade” e da “sacralidade” não são importantes. Valores ligados a esses temas são vistos pelos W.E.I.R.D. como ameaças à felicidade e à liberdade. Isso ocorre, segundo Haidt, porque esses fundamentos morais mais “conservadores” impõem limites à liberdade individual, o que entra em choque com os princípios do liberalismo político.

Por outro lado, republicanos conservadores tendem a valorizar os fundamentos desprezados na culinária moral democrata porque esses valores seriam exatamente os valores necessários para a integração comunitária. São valores presentes em todas as sociedades menos individualistas e mais sociocêntricas.

Haidt representou isso em tabelas e gráficos que ficaram bastante populares, como o que se segue. Neles se pode ver que quanto mais caminhamos em direção à esquerda (rumo ao progressismo liberal), mais se privilegiam os fundamentos morais da “felicidade” e da “autonomia” e maior o desprezo pelos fundamentos conservadores; e quanto mais caminhamos para a direita, menos se valoriza esses fundamentos e mais importância se dá aos fundamentos “conservadores”.

Mapa com linhas pretas em fundo branco

Descrição gerada automaticamente

Segundo esse modelo, a posição de equilíbrio, na qual todos os fundamentos morais são contemplados, se encontra, no caso da política dos EUA, ao redor do centro/centro-direita (sustento que a realidade Brasileira é similar).

À esquerda, a ênfase nos fundamentos morais da felicidade e da autonomia se manifesta principalmente nas doutrinas do liberalismo dos costumes – o tipo de mentalidade terapêutica e libertária que ganhou a consciência ocidental desde a revolução sexual, particularmente, 1968. Trata-se, naturalmente, de uma esquerda bem diferente da tradicional, altamente dependente da autoridade e da lealdade: estamos falando da esquerda liberal e identitária, que domina hoje o partido Democrata, nos EUA, e a esquerda brasileira, que se tornou uma filial dos democratas. Essa realidade veio a se reproduzir no Brasil.

Minha hipótese é a de que, nas últimas eleições, pela primeira vez, o embate deixou de ser basicamente entre a melhor e a pior versão de centro esquerda disponível aos eleitores, e se tornou um choque entre o Brasil W.E.I.R.D. e o Brasil profundo, moderadamente conservador. Mas como nos tornamos tão semelhantes aos EUA na imaginação política?

Como os W.E.I.R.D. afundaram a Esquerda

Não é tão complicado. O fato é que o movimento internacional de Direitos Humanos cumpriu de modo exemplar a tarefa de exportar globalmente o liberalismo identitário dos EUA – isso foi matéria de outro artigo meu na Gazeta: “A Ideologia dos Direitos Humanos”. Foi sobre o fato dessa exportação, ainda hoje capitaneada por organizações como a Open Society, que Olavo de Carvalho deitou e rolou. Assim, de movimento originariamente focado na luta de classes, direitos civis e combate à desigualdade econômica, o lulopetismo se rendeu ao método da esquerda americana, baseado na expansão simultânea da autonomia individual, por meio do liberalismo dos costumes, e do aparelho estatal, que tutela e pastoreia o indivíduo atomizado. Sim, um curioso paradoxo, como observou Patrick Deenen em Why Liberalism Failed, e que comentei em outro artigo na Gazeta. Claro, os debates teóricos eram profundamente alimentados em grandes mentes da esquerda. Mas e quanto ao método identitário? Foi importado dos EUA. Afinal, quem entende de método é estadunidense.

Ocorre que a sociedade brasileira, na maior parte, ainda que de forma absolutamente inconsistente, manteve uma forte veia sociocêntrica e não se tornou consumadamente W.E.I.R.D. Os evangélicos, em particular, não o são, e dificilmente serão. E essa sociedade real, absolutamente invisível ao olhar W.E.I.R.D. da elite cultural de esquerda e da imprensa estabelecida, tolerou o Lulopetismo em nome da inclusão econômica. E, claro, com um empurrãozinho do Nordeste, que foi finalmente levado a sério por uma Presidência. Falo por mim mesmo: sendo evangélico, votei em Lula e em candidatos do PT, PSD e, localmente, no Partidão. Milhões fizeram a mesma coisa.

Mas eventualmente bateu o sino da meia-noite, e a carruagem virou abóbora. Com o colapso econômico e a exposição da gigantesca máquina de corrupção, herdada e miraculosamente aperfeiçoada pelo petismo, a tolerância das massas acabou. Mais: o malfadado Plano Nacional de Participação Social revelou o veneno hegemonista do Lulopetismo, e roubou a sua plausibilidade para a classe média. Enquanto isso Olavo de Carvalho, com inegável perspicácia, fez o que pôde para mostrar o sistema internacional de exportação da moralidade W.E.I.R.D/Democrata/Globalista.

Chegamos assim aos estertores do antigo regime: sem o analgésico da inclusão no consumo, a dor de cabeça crescente das políticas de identidade se tornou insuportável. Felizmente havia outro analgésico fortíssimo e imediatamente disponível: o bolsolavismo.

O “Fascismo” e o Dilema Conservador

O que um conservador moderado e um centrista deveriam fazer diante desse quadro? Isso me preocupou bastante quando amigos me consultaram sobre apoiar ou não o governo eleito ao final de 2018. De uma rápida reticência inicial, concluí que a participação era necessária. Não apenas porque o processo de enfraquecimento do Lulopetismo precisava ser mantido, mas também porque o Bolsolavismo não poderia ser o representante exclusivo nem o futuro do movimento conservador. A melhor coisa a fazer seria acompanhar de perto o movimento, seja para evitar que ele arrastasse o Brasil a um abismo fascista, seja para reabsorvê-lo em um conservadorismo moderado, caso uma oportunidade se manifestasse.

Aqui cabem algumas distinções importantes. Segundo a Teoria dos Fundamentos Morais, numa sociedade democrática liberal como os EUA há dois tipos de extremos possíveis: a extrema esquerda, nesse caso, não se encontra em alguma relíquia política como o comunismo tradicional, mas em um movimento altamente afetivo, expressivista e atomizador, e ao mesmo tempo anárquico, resistente a discursos de ordem social, e antirreligioso ou ao menos iconoclasta. Ora, aqui se encontram as políticas de identidade, corretamente descritas por Antônio Risério como portadoras de um “fascismo identitário”.

Mas e quanto ao movimento Bolsolavista? Muito já se apontou a existência de traços fascistas nesse movimento. O populismo e o desprezo pelas instituições, aliado ao discurso maniqueísta do “nós versus eles” e ao assassinato de reputações, já foram apontados como marcas inambíguas. Mas isso não ajuda tanto assim; os quatro sinais são reconhecidamente presentes no Lulopetismo, ainda que devidamente cozidos no dendê.

O fascismo de direita se distingue do fascismo de esquerda pelo seu páthos. Embora com muitos traços psicológicos comuns, como a manipulação do ressentimento, o fascismo de direita é muito mais conscientemente voltado para valores sagrados, para a honra à autoridade e para pactos de lealdade. O fascismo de direita é muito mais “sério” que o fascismo desbundado da esquerda, que criançada anda mamando, no colo da classe universitária. É um fascismo de farda e penteado, por assim dizer. E isso é iluminado pela direção das tabelas de Jonathan Haidt: progredindo à direita, os fundamentos morais focados no cuidado, felicidade e liberdade perdem importância – o bem-estar do outro perde importância – e o autoritarismo passa a ser celebrado.

Em tal universo, o que resta à centro-esquerda, centro e centro-direita? Fazer o possível para moderar os fascismos, desnaturá-los e, se possível, sucedê-los. O que, certamente, é uma tarefa bastante chata. Mas impedir a guerra e esvaziar as sanhas é digno de honra.

O fato é que, ainda que surfando em uma onda conservadora, o núcleo ideológico bolsolavista não era e nunca foi a própria onda. Milhões de católicos e evangélicos votaram em Bolsonaro, e muitos que votaram no outro lado votaram mais para evitar um mal do que por uma crença no projeto da esquerda. Esse núcleo ideológico não ascenderia ao poder sem a ajuda de militares moderados, católicos comuns, evangélicos, liberais, e quadros técnicos menos interessados em revolução e mais preocupados com soluções. E quando o governo foi efetivamente formado, formou-se como um composto de todas essas forças.

O dilema adiante, portanto, não era primariamente o de apoiar ou não o bolsolavismo, mas o de dar representação efetiva no poder à imaginação moral das massas conservadoras, e manter o balão presidencial firmemente amarrado ao chão do movimento que o elegeu, independentemente dos sonhos do núcleo ideológico. Mais: caberia a esse núcleo ideológico, (identificável pela coesão narrativa), sob os olhares do restante do governo, a capacidade da boa liderança.

Diante disso, dei meu conselho aos amigos moderados: participem do governo. O mesmo conselho que daria a qualquer amigo convidado a um governo de esquerda. Os Cristãos precisam se fazer representar. Precisam colocar suas agendas, fazer pressão e participar, sempre e enquanto não forem obrigados a fazer coisas que desaprovam, e a dizer coisas que não acreditam. Eventualmente esse mesmo argumento foi usado “contra” mim. E por essa razão aceitei o cargo de Diretor de Promoção e Educação em Direitos Humanos.

Em minha curta experiência de nove meses e pouco no governo, testemunho que nenhuma política efetivamente fascista foi implementada no MMFDH. Sim, isso foi um ponto a favor do governo Bolsonaro. Em diversos lugares li sobre os terríveis “retrocessos” em direitos humanos sob a direção da ministra Damares, mas mesmo antes de entrar no governo eu já havia notado o daltonismo dessas críticas. Tratava-se de pura histeria de uma esquerda identitária e fascista que não podia aceitar a derrota política. E quando abrimos a “caixa preta”, por assim dizer, ficou claro o quanto o sistema de proteção que herdamos do antigo regime era ineficiente e inferior à propaganda estatal.

Tudo o que vi no Ministério foi gente lutando com parcos recursos e parca influência política para implementar Direitos Humanos, ainda que sob uma interpretação conservadora; com uma gramática diferente do “dialeto liberal dos direitos humanos”, segundo a criativa observação da jurista de Harvard Mary Ann Glendon, em Rights Talk.

Eu avaliaria o grau de fascismo de um governo em três níveis: em seu páthos, em sua política, e em sua política pública. O governo Bolsonaro não apresenta nenhum dos três de forma consolidada. Em primeiro lugar, não há fascismo na política pública deste governo, e desafio o leitor a provar que exista. Nesse momento de pandemia, como ilustração, não se vê nenhuma ação agressiva de cerceamento de informações ou violação de liberdades civis por iniciativa do executivo. E inúmeras situações-teste já ocorreram sem resultado positivo. A esquerda insiste em gritar isso, mas ninguém liga. Porque todo mundo sabe que é mentira.

A coisa muda de figura quando chegamos à política. Ao longo dos meses tornou-se progressivamente visível a direção anti-institucional, populista e nacionalista no trato governamental com os poderes, com a imprensa, e em alguns contextos, como o MEC. A presidência não honra os “magistrados inferiores” e os outros poderes. Essa política revela uma vontade fascistóide.

Mas o assento efetivo do nosso “protofascismo” tupiniquim é realmente o páthos. Há, no núcleo ideológico, um sentimento autoritário, um sagrado pervertido, uma atitude de desprezo pelo vulnerável, um espírito ressentido e doente. Esse páthos, a bem da verdade, pode acometer a qualquer um. Mas quando se torna coisa doutrinária e inspiração metodológica, é algo realmente perigoso. A política, de um meio de amar e cuidar, torna-se uma extensão da guerra, um instrumento para arrasar, destruir e extirpar. Todos viram esse sentimento estranho evidente na alma do movimento bolsolavista.

Ainda assim, esse páthos, que tem seu epicentro em um elusivo mas real núcleo ideológico e em representantes em vários escalões, não é dominante no governo efetivo. Distinga-se o “governo” da “presidência-núcleo”, e ficará claro que a maioria dos ministros, secretários e diretores são apenas gente conservadora ou liberal que deseja servir ao país, e não prioritariamente fazer a revolução antiglobalista de Olavo de Carvalho. O Governo, no sentido lato, não é fascista.

COVID-19: A Realidade à Tona

Para ser absolutamente franco, eu nunca fui um “crente” no Bolsonarismo. Votei em Marina Silva no primeiro turno, e ia votar nulo no segundo, mas acabei justificando a ausência por estar em trânsito. Votei em Marina em luto, porque inicialmente via nela a melhor chance de vincular livre-mercado, conservação ambiental e sustentabilidade, direitos humanos e uma voz para os Cristãos na área de costumes e ordem social, mas constatei que ela não conseguiria fazê-lo, ao entregar a bandeira pró-vida e intimidar-se na objeção ao casamento igualitário. Votei já descrente. Por obra de maus assessores, a vi tomar a péssima decisão de disputar o voto da esquerda W.E.I.R.D. Com isso seu eleitorado Cristão debandou para a direita. Mas eu fiquei fielmente entre o 1% derrotado, como num ato de despedida. Espero que um dia ela remende isso. Precisamos de Cristãos no governo que não tenham medo de assumir seus valores na esfera pública.

Ainda assim, dado o meu discurso de alguns anos sobre os problemas da revolução afetivo-identitária, senti-me compelido a contribuir com o governo. Entrei de boa fé, pensando em como fortalecer a agenda social, em perspectiva Cristã. No atual universo político, sendo pró-vida, pró-família, Dooyeweerdiano e comunitarista, sou centro-direita, enfim. Mas ao aceitar o cargo, ainda que reconhecendo a força do Bolsolavismo, não estava clara para mim a possibilidade ou impossibilidade de reversão dessa ideologia. Àquela altura eu não teria como responder a tal questão; seria necessário me aproximar mais e entender o fenômeno. Quem sabe a realidade ajudaria o governo a tirar o seu Cristianismo do papel? Tive que fazer a aposta. Sim, admito: foi uma aposta otimista. Mas não sou dado a esperar sempre o pior.

Crise após crise, no entanto, dissiparam tais dúvidas. E a crise realmente crucial foi a presente conflagração da COVID-19. Diante dos olhos incréus de todos, o Ministério da Saúde fazia o seu melhor para organizar uma resposta à pandemia enquanto o Presidente dava a ressonância mais pueril à narrativa negacionista do núcleo ideológico. Notava-se a gravidade da situação global e o enorme risco de vida para todos, mas especialmente para os vulneráveis, como os velhos, os portadores de doenças crônicas, os pobres espremidos em milhares de favelas e no transporte público, e os trabalhadores informais que vivem de negócios diários. E, no entanto, a nossa direita protofascista fazia pouco da crise. E promovia uma absolutamente perversa e irresponsável manifestação num fatídico quinze-de-março. Não importa se o Congresso realmente vinha chantageando o Executivo; isso é outro assunto. Esse quinze-de-março viveria eternamente, se Deus não fosse destruir todas as coisas no fim do mundo.

Apenas com muito esforço a Presidência cedeu lugar à ciência, e vimos florescer Mandetta, o homem certo na hora certa. Enquanto isso, prevendo o desastre, Olavo de Carvalho proclamou em seu Instagram a “covardia” do presidente, por não haver “desarmado” desde o início os seus inimigos, e por ter dado ouvidos aos moderados e medrosos. Que essa “covardia”, que na verdade é lucidez, seja lembrada em louvor do Presidente.

Aí está, nua e com as vergonhas expostas, a estrutura do regime: um governo rico de conservadores bem-intencionados e de técnicos competentes, gerido por um presidente que se deixa controlar por um núcleo ideológico que o aliena da sua tarefa. E esse núcleo ideológico colocou a nação em perigo. Esse núcleo precisa ser confrontado e enquadrado pelo Presidente. Bolsonaro precisa destruir o poste-ídolo levantado no Palácio do Planalto, o poste que traz a imagem do seu rosto, e que foi posto lá por ordens do Sumo-Sacerdote Olavo de Carvalho. Bolsonaro precisa deixar o papel de lacrador-mor e se tornar homem de Estado. Do contrário, Senhor Presidente, como cantou certo profeta, God’s Gonna Cut you Down.

Diante desses fatos, e de outros fatos políticos importantes, que ocuparão a minha atenção agora, e que não dizem respeito ao executivo, concluí que deveria deixar o governo. E pedi a minha exoneração. Não porque considere a convicção Cristã como necessariamente incompatível com a participação em um mau governo; longe disso! Insisto que cristãos no governo façam o máximo possível para permanecer e ser a luz do mundo onde estiverem. A questão é que, doravante, eu não poderia mais atuar como servidor público nesse governo e ao mesmo tempo ajudar os Cristãos evangélicos a interpretar o fenômeno como teólogo público. Essa foi uma questão muito pessoal e vocacional; tive que largar o paletó e pegar o cajado por uma demanda pastoral e teológica.

Certamente que os cínicos se levantarão para dizer que “já sabiam”. Já sabiam o que era o governo e no que ele se tornaria. Mas isso é uma trivialidade. Quem não sabia o que era o Bolsolavismo? A questão é outra: de que modo o movimento conservador se comportaria com o avanço do processo histórico? Fossem esses sábios tão sábios assim, teriam previsto 2013 e o impeachment. Estes seguem ignorantes como sempre. Enfim, quem “sabe” que tudo vai dar errado, sempre, faz aí a sua aposta, é o pai de todos os cínicos, aquele que anda ao redor da terra, buscando um justo para tentar.

O Pecado e a Penitência da Presidência da República

Até agora apresentei basicamente uma narrativa política. O modo como leio o processo histórico recente, e o modo como decidi responder a ele. Mas isso não é tudo. Há outro problema que me assombra, uma camada mais profunda, um assunto muito mais grave do que os labirintos horizontais da política. Esse assunto é a questão teológico-política.

Após pouco mais de um ano, torna-se cada vez mais claro para os Brasileiros e para os Cristãos que a presidência e seu núcleo ideológico não apresentam a capacidade de representar valores Cristãos no mundo público. Embora essa incapacidade não seja novidade, podemos dizer que ela progrediu do estágio de ameaça potencial para o de realidade efetiva.

São diversos os fatos que confirmam essa incapacidade, e alisto abaixo seis, sendo seis o número do homem:

Em primeiro lugar, o espírito revanchista e cheio de ressentimento, e carente de qualquer movimento dialógico e reconciliatório, cultivado e propagado pelo núcleo ideológico, patente na queima de reputações, na incivilidade no debate público, e na incapacidade de construir círculos de cooperação a despeito das divergências, constitui clara negação do espírito Cristão que, segundo o exemplo de Cristo, promove a pacificação, a tolerância na diferença, e a comunicação genuína. O pathos do atual governo não é cristão.

Em segundo lugar, o desprezo pelas instituições e a tentativa de governar manipulando as massas contra outras autoridades públicas é autoritarismo, e reproduz o mesmo método neopopulista renovado pelas esquerdas na fase anterior da atual “dispensação” política, método esse que desrespeita o princípio da subsidiariedade e oportuniza o erro messianista. Sabendo que autoridades públicas são servas de Deus e dos homens, o estímulo e a tolerância da presidência da república a claros gestos de idolatria política, oriundos da extrema direita e de apoiadores radicais, constitui negação da visão Cristã do poder político.

Em terceiro lugar, o desprezo pela imprensa e pela comunidade acadêmica e científica e o esforço para desqualificar a autoridade desses campos se mostra uma perigosa faceta do autoritarismo. Muito embora seja indiscutivelmente verdadeiro que amplos setores da imprensa hoje careçam de práticas éticas de comunicação, de genuíno pluralismo, e de capacidade de respeitar posições conservadoras na arena pública, não é função do Estado desqualificar o jornalismo nem a universidade, mas assumir a liderança nacional na construção do diálogo e no fomento a melhores práticas. Embora não tenha havido cerceamento da liberdade de pensamento e expressão, tal desqualificação constitui uma forma de autoritarismo soft, ainda incompatível com a visão Cristã da autoridade como serva da sociedade.

Em quarto lugar, o necessário e louvável amor pela pátria degrada-se em um nacionalismo. Esse nacionalismo lança o compromisso com a história, a tradição e a autoridade, em antítese contra o diálogo internacional com sua ênfase na solidariedade humana, alimentando teorias conspiratórias contra os sistemas de defesa dos direitos humanos e do meio ambiente. Embora tais sistemas manifestem reais desvios ideológicos, e o neo-soberanismo tenha um papel histórico salutar, as pessoas e o planeta não podem ser invisibilizados em nome da “nação”. O nacionalismo, ou idolatria da nacionalidade, constitui clara negação da visão Cristã da soberania e da nação. O “Brasil” não está acima de tudo. A pessoa humana está acima de tudo o que é temporal, pois apenas ela é Imago Dei.

Em quinto lugar, o descuido pela pessoa humana e pelo meio ambiente é incompatível com a ética Cristã do cuidado. Esse descuido se mostra no preconceito, dentro do governo, contra a promoção da dignidade e dos direitos da pessoa humana, no descompromisso com os vulneráveis, e no desinteresse pela conservação ambiental, muitas vezes em nome de um liberalismo econômico e político. A despeito dos honoráveis esforços de setores cristãos do governo para manter vivas essas pautas, a presidência e o núcleo ideológico pouco se importam com elas. Em poucos momentos esse desprezo mostrou-se tão evidente quanto na resposta inconsequente da presidência diante da ameaça de pandemia global. Esse ethos predatório constitui clara negação da visão Cristã da pessoa humana, da sociedade e da Criação. De que adianta ser “pró-vida” e “pró-família”, se o princípio da fraternidade é tão despudoradamente ignorado?

Em sexto lugar, o desprezo pela vida humana se manifesta em uma patológica celebração simbólica da violência. Novamente, reconheço e honro os esforços do ministério da justiça no combate à corrupção e no empoderamento dos sistemas de segurança pública. Mas a celebração inconsequente da violência e do armamentismo e a banalização da morte destroem a capacidade do governo de se comunicar com as faixas da população que mais sofrem com a criminalidade, e legitimam o espírito autoritário nesse sistema. Embora seja Cristão priorizar as vítimas de violência e agir duramente contra o crime, não é papel do Estado concluir o processo de desumanização do criminoso, pois só Deus tem esse poder. E não nos esqueçamos: um partido que aceita ser representado como uma “aliança” feita de balas é um insulto ao Criador da vida.

Diante desses fatos, só posso considerar que, em seu mote “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o Governo Bolsonaro, a partir de seu núcleo ideológico, usa o nome de Deus em vão, violando, entre vários outros, o terceiro mandamento do decálogo. Pois ele usa o nome de Deus, e solicita assim a colaboração das igrejas Cristãs, negando o próprio espírito do Cristianismo. E usar o nome de Deus para fins escusos é exatamente o que é proibido pelo Deus de Abraão, de Isaque, de Jacó, de Moisés, e de Jesus Cristo.

A incapacidade de honrar a Deus decorre do fato de que o “Deus” do governo Bolsonaro é uma abstração. É um símbolo de autoridade. Embora Deus detenha, de fato, toda a autoridade, sendo o “Todo-Poderoso”, esse Deus é o Pai de Jesus Cristo, segundo o Credo Apostólico. Não compreendemos o Deus Todo-Poderoso sem Jesus Cristo. E Jesus Cristo está ausente do núcleo ideológico. Jesus Cristo, servo dos homens, pacificador, cuidador do rebanho de Deus, onde ele está? Um governo que se preocupa mais com a narrativa antiglobalista do que no impacto da Pandemia sobre os idosos, o que sabe ele sobre Jesus Cristo?

1A palavra do SENHOR veio a mim:

2″Filho do homem, profetiza contra os pastores de Israel; profetiza e dize aos pastores: Assim diz o SENHOR Deus: Ai dos pastores de Israel, que cuidam de si mesmos! Não devem os pastores cuidar das ovelhas?”

3″Comeis a gordura e vos vestis da lã; matais o animal engordado; mas não cuidais das ovelhas.”

4″Não fortalecestes a fraca, não curastes a doente, não enfaixastes a ferida, não fostes procurar a desgarrada e não buscastes a perdida; mas dominais sobre elas com rigor e dureza.”

5″Assim se espalharam, por falta de pastor; e serviram de alimento para todos os animais selvagens, pois se espalharam.”

6″As minhas ovelhas andaram desgarradas por todos os montes e por toda montanha alta; as minhas ovelhas andaram espalhadas por toda a face da terra, sem que ninguém as procurasse ou as buscasse.”

7Portanto, ó pastores, ouvi a palavra do SENHOR:

8″Tão certo como eu vivo, diz o SENHOR Deus, já que as minhas ovelhas foram entregues à rapina e serviram de alimento aos animais selvagens, por falta de pastor, e os meus pastores não procuraram as minhas ovelhas, pois cuidam de si mesmos e não das minhas ovelhas;”

9ouvi, ó pastores, ouvi a palavra do SENHOR:

10″Assim diz o SENHOR Deus: Eu coloco-me contra os pastores; exigirei as minhas ovelhas das suas mãos e farei com que deixem de cuidar das ovelhas, e não cuidarão mais de si mesmos. Livrarei as minhas ovelhas da sua boca, para que não lhes sirvam mais de alimento.”

Profeta Ezequiel, 34:1-10

Essas foram as palavras do Senhor aos príncipes, chefes das cidades, autoridades e sacerdotes de Israel. A função das autoridades é cuidar das pessoas. Cristo se entregou pelas pessoas. Um governo Cristão se ocupa da pessoa humana. Mas núcleo do atual governo – não todo ele – se ocupa de uma narrativa. De abstrações morais. Pode ser um governo vagamente “teísta”, mas não é Cristão. Um governo de espírito Cristão seria conservador nos costumes, mas também na imitação de Cristo. Seria anti-aborto e pró-humanização dos presídios; pró-família e pró-conservação ambiental. Se oporia à revolução sexual, como deve ser, mas recusaria toda a mentalidade revolucionária. Falaria em liberdade, sim, mas não esqueceria a igualdade, a fraternidade, e a dignidade humana. Inclusive a dignidade de jornalistas, por chatos e enviesados que sejam.

Um governo que não sabe nada sobre Gandalf e sobre o Barbárvore, e que imita o mago branco Saruman não pode ser cristão. Se ele se diz cristão, mas apenas tolera direitos humanos, e sua pauta social chega sempre atrasada, e não tem uma doutrina social Cristã em seu plano de governo: pode até ser politicamente legítimo, mas teologicamente é uma farsa.

Essa constatação cria um problema não apenas político, mas teológico e pastoral. Como ministros, teólogos e líderes Cristãos, muitos de nós entendemos que a presença Cristã na arena pública é legítima, que a colaboração entre o Estado e as igrejas pelo interesse público é constitucional, e que a fé Cristã tem contribuições para a sociedade moderna que os discursos secularistas são incapazes de alcançar.

No entanto, essa contribuição vem sendo manchada pela presidência da República.

Acuso, portanto, como pastor evangélico que sou, a presidência da República e o núcleo ideológico do governo do pecado de heresia, de confundir e dividir o povo de Deus, lançando-o entre Scyla e Caríbdis, para escolher entre os falsos deuses da esquerda identitária, ou os falsos deuses do bolsolavismo. Aconselho a presidência da República a mudar seus caminhos, a buscar arrependimento diante de Deus, e a abrir imediatamente o diálogo com a sociedade, incluindo os setores moderados da oposição. Pois o presidente é presidente de todos, e não apenas de alguns, e sua regra não é a revolução, mas a prudência.

Pois pelo bem das comunidades, muitos de nós demandarão que o presidente cesse de empregar o Santo Nome de Deus em suas empreitadas, e de confundir as mentes dos Brasileiros. E tão certo quanto vive o Senhor, se tal arrependimento não ocorrer, usaremos todos os meios religiosos possíveis para proteger o rebanho do Senhor contra os lobos da extrema-esquerda e da extrema-direita. Lembraremos a nossos rebanhos que o Deus do Bolsolavismo é tão falso quanto o Cristo da Mangueira.

Não escrevo tais palavras para municiar a extrema-esquerda. Pelo contrário, gostaria de ver mudanças. Uma reorientação. Uma retomada do espírito cristão, exatamente para não termos que voltar ao suplício da esquerda revolucionária.

Não me iludo; estou ciente de que meus reclames pouco farão para mudar a política deste governo. Mas o governo nem é a minha prioridade. A postura e testemunho da comunidade Cristã diante da pessoa humana: essa é a grande questão. Afinal de contas, o Brasil é importante, mas não está acima de tudo.

3 comentários em “O Nome de Deus no Governo Bolsonaro: uma crítica teológico-política

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  1. Olá pastor Guilherme de Carvalho. Pra mim é difícil comentar um artigo tão extenso, mas, vou tentar. Penso que alguns erros cometidos pelo governo Bolsonaro, considero algo normal, pois, não tem como acertar sempre e deve aprender com os erros e mudar de atitude. Cristãos evangélicos, precisam parar de exigir em Bolsonaro um comportamento de um crente em Cristo Jesus, pois, ele não é. Nem precisamos ter um crente em Cristo na presidência, para acharmos que a partir daí teremos um bom governo. Agora, penso que o presidente muitas vezes tem sido precipitado ao falar, mesmo sabendo que temos uma mídia pronta para caluniar seu governo independente de qualquer coisa certa ou errada que o presidente fale. Quanto a crise estabelecida pela Covid-19, qualquer governo democrático, onde o povo e a mídia tenha mesmo a liberdade de expressão, entraria numa situação muito complicada, pois, esta doença nos surpreende a cada dia. Na China, não houve crise no governo por ser um regime comunista, onde, quem ousou levantar alguma voz contra as atitudes do governo, tal voz foi calada pelos ditadores. Concordo que se o presidente Bolsonaro estiver usando o nome de Deus em vão, isso trará consequências à ele. Agora, já vi Bolsonaro falar em Deus na pessoa de Cristo Jesus, portanto, acho estranho o senhor afirmar o contrário disso. O senhor acusa o presidente de heresia? Repito: Bolsonaro não é crente em Cristo Jesus. Agora, mesmo o presidente não sendo crente em Cristo, isto não o isenta de consequências se usar o nome de Deus em vão ou para simplesmente ter apoio de cristãos. A grande maioria dos políticos brasileiros já fazem isto. Se o senhor enxerga isto no presidente, ore por ele, escreva um artigo pedindo para que as igrejas orem por ele conforme está escrito em 1ª Tm 2-1:3. Para encerrar, quero discordar completamente do senhor, pastor Guilherme de Carvalho, quanto a forma branda que cita a imprensa brasileira. Estes jornalistas, estão a todo tempo trabalhando para causar caos na mente do povo para não apoiarem o presidente do Brasil. A mídia não se importa com o bem de nossa nação, pra eles o que vale é ter os bilhões de reais do dinheiro público de volta aos seus cofres.

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