“Acorda, Sonhador!”

Não é lição simples essa lição sobre despertar.

Cuidando das nossas vidas, trabalhando e servindo aqui e ali, comprando e vendendo, e fazendo planos, e gastando grana e ficando sem, e tirando férias, e curtindo os amigos, e recebendo nos domingos o sacramento, e seguimos assim sem grandes aventuras nesse interminável sonambulismo, nessa piedade encroada e sonolenta – não necessariamente em “pecado”, assim, em pecaaado, ou em coisas que tenhamos a coragem de chamar de pecado, mas naqueles pecadilhos quanto aos quais o Senhor certamente não se incomoda, vejam só! Ele é um homem tão ocupado.

Mas então, na neblina densa essa forma me aterroriza, e a voz de novo:

“Acorda, sonhador!”

“Desperta, tu que dormes!”

Recuso-me, meus sonhos tão reais, e se não são deveriam ser, talvez Deus tenha errado a chave do mundo, meus delírios são macios e mornos, e almofadados, e estou tão cansado…

Mas a realidade fria me chama, a voz urgente insiste, a face me encara grave, a decepção me derruba dos meus castelos, me esmaga com essa crueldade, essa luta espiritual que se acerca, que eu não pedi, para qual não me alistei. Mas como pude me esquecer? Eles já vem aí com paus e lanças e espadas, e estou aqui, à beira da morte, no extremo desse despenhadeiro, onde selam meu destino eterno. Vão me lançar daqui abaixo em instantes, e essa vertigem me fez saltar da cama.

“Acorda, sonhador!”

Agora me lembro dos heróis, meus heróis de olhos abertos, meu peito quer arder de novo, quer lutar, sangrar e vencer, quero os louros invisíveis, quero a alegria dos santos

Almofadas fofas, delírios, nunca houve, nem cama, só esse chão duro e a batalha espiritual que ruge agora, e rugia no meio desmaio, quando cairam amigos à esquerda e à direita. Para onde foram? Sonhos os devoraram. E a santidade está por um fio. O amor está por um fio. A fé está por um fio. Não escolho entre o sonho e a realidade, mas entre o sono da morte e a luz da vida

“Acorda, sonhador!”

Sim, eu me lembro! Eu me lembro agora de estar acordado, de andar pela cidade que não precisa de sol, porque outra luz me inunda. Seja exorcizado esse sono, seja afastado, expulso como a um demônio, esse demônio que me faz esquecer do Getsêmani.

Preciso despertar e pisar… a cabeça dessa serpente.

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