“Idólatra é Você!”: migalhas sobre o xingamento teológico

Há uns anos atrás começamos a empregar bastante o termo “idolatria” para descrever a tendência que esquemas mentais, teorias e cosmovisões inteiras apresentam, de organizar a interpretação e valoração dos fatos do mundo e da experiência ao redor de falsos absolutos. Esses falsos absolutos fariam as vezes de “deuses”, num sentido teórico, mesmo que seus defensores fossem completamente descrentes em divindades ou forças sobrenaturais.

É claro que o termo tem um emprego muito mais amplo, de “ídolos” do Showbizz ao amor de mãe. Ou de certas mães! E o uso mais bem estabelecido, que os protestantes gostam de aplicar aos católicos, por seu apego aos Santos já falecidos.

Mas para além desses usos populares, adotamos de forma sistemática o termo como categoria filosófica crítica, para descortinar a profundidade espiritual por trás de variados sistemas ideológicos. Essa abordagem foi extensamente empregada por Herman Dooyeweerd em sua crítica do pensamento teórico ocidental, e principalmente por seus alunos Egbert Schuurman e Bob Goudzwaard. Mais recentemente, meu amigo David Koyzis publicou sua segunda edição de “Political Visions & Illusions“, a qual tive o prazer de endossar, e consiste num excelente trabalho aplicando essas categorias ao campo da ciência política.

O escarcéu político dos últimos anos corrompeu bastante essa conversa, desde que o termo passou gradativamente a ser usado como mero “xingamento”. Um palavrão culto. Temo que eu mesmo tenha, em alguns momentos, dado espaço a essa interpretação. Mas não posso assumir a culpa pela balbúrdia atual. No mais das vezes, o que vejo é “influencers” de esquerda arranjando jeitos de dizer “você também!”, ou “você é que é!” e assim, gente que nunca se preocupou muito com o primeiro mandamento anda posando de Moisés por aí.

Na verdade o assunto é riquíssimo, e eu proporia uma moratória no uso do termo. A categoria é boa demais para a jogarmos fora desse jeito, como se fosse o tomate mais próximo disponível contra o oponente. Enquanto aprendemos mais sobre o tema, seguem algumas migalhas provisórias:

A idolatria ideológica pode ter uma dimensão intelectual, quando o centro organizador de uma posição política é demonstravelmente uma absolutização de uma realidade criada, como uma instituição ou um bem cultural, como o Estado, o mercado ou a afetividade. David Koyzis explora isso muito bem (e Dooyeweerd, e Goudzwaard). Poderíamos também descrevê-la como a dimensão “doxástica” da idolatria, numa linguagem epistemológica técnica. É a ideia idólatra presente numa crença idólatra.

Outra dimensão é a moral, frequentemente associada à ideológica, aparecendo em uma falsa ideia de felicidade e uma correspondente hierarquia de bens distorcida. Mesmo não usando essa linguagem, Charles Taylor ajuda a entender isso em “As Fontes do Self”. E James Smith, em “Você é o que você Ama”, não podemos nos esquecer. E Tim Keller, em “Deuses Falsos”, claro! No centro de uma alma idólatra está o apego a um falso bem ou a elevação e um bem relativo à posição de bem máximo, ou “hiperbem”. Eu diria que é aqui o lugar em que a idolatria lança as suas raízes. Uma crença idólatra é uma semente, que pode ou não crescer na alma; mas é uma árvore estável quando deforma o mapa moral da pessoa e sua existência começa a “escorrer” na direção dela.

Finalmente, a idolatria envolve um páthos, uma desordem afetiva que ama de modo desproporcional, apaixonando-se por coisas menos importantes, e odiando excessivamente. A desordem dos bens segue de mãos dadas com a desordem dos afetos, e essa última sempre faz transparecer a primeira. E assim surge o Odium Politicum. Aqui C. S. Lewis ajuda muito (“Os Quatro Amores”); Tim Keller e Smith de novo, e claro, as “Confissões” de Agostinho!

A experiência tem me mostrado o seguinte:

1. Nem sempre a idolatria teorética presente em uma teoria social e política condiciona a vida moral e afeta existencialmente a pessoa, simplesmente porque somos inconsistentes. Assim nem todo estatista ou liberal é um idolatra efetivo.

Muitos professam crer em Deus, mas na verdade não crêem; sua fé é superficial, meramente professada. Talvez até seja intelectualmente bem estabelecida, mas permanecendo existencialmente inócua.

Suspeito que muitos Cristãos que acolhem, por uma ou outra razão teórica, ou por compromissos políticos ou emocionais, ou por pura irreflexão, crenças idólatras em teoria política e social – idólatras do ponto de vista de seu conteúdo doxástico – não as sustentam com a força moral característica da idolatria consumada. E assim surge o paradoxo do crente cuja piedade confirmada é evidentemente incompatível com sua edificação teórica no campo X ou Y. Os hábitos de compartimentalização teórica, reforçados por um dualismo de natureza e graça, podem viabilizar essa situação.

De modo que nem todo Cristão que sustenta crenças demonstravelmente idólatras, mas que as sustenta de modo teórico ou setorizado pode ser acusado de “idolatria” no sentido estrito. O sujeito não é já idólatra por que é socialista, ou liberal, ou anarcocapitalista, ou conservador, etc, assim como não é um fiel apenas por acreditar intelectualmente em Deus.

2. Nem sempre a forte convicção e até mesmo paixão ideológica confirma a idolatria pessoal, pois isso precisa ser comparado ao seu compromisso com Cristo e com a igreja. Algumas pessoas apaixonadas politicamente não deixam isso afetar em nada seu amor por Cristo e pela igreja, e sua ortodoxia permanece intocada. Por outro lado, algumas pessoas bem “equilibradas” (aparentemente) quanto à ideologia não tem compromisso com Jesus e são pragmáticas quanto a envolvimentos teológicos e eclesiais. Essas últimas podem ser mais idólatras que as primeiras.

A questão é o modo como essa paixão se desenvolve na vida da pessoa. Se a paixão entra em conflito com o “apego ao bem” (Romanos 12.9) tornando-a mais apegada a um bem inferior do que aos bens superiores, por um lado, e se ao invés de produzir um ódio ao mal (Romanos 12.9), a paixão alimenta ódio ao que deveria ser amado e respeitado, temos claro sinal de corrupção da imaginação moral, que pode resultar de um hiperbem distorcido – um falso “sumo bem”.

Daí eu dizer às vezes: relativista em teologia e dogmático em política – se isso determina as paixões morais da pessoa – é forte sinal de idolatria no sentido estrito. Mas reconhecer essa estrutura exige um pouco de observação.

Para entender melhor como isso acontece e identificar na vida de alguém – e em nós mesmos – será necessário adotar uma Teoria de Bens. Acho que uma das maiores deficiências intelectuais do Cristianismo brasileiro hoje é a construção de uma Teoria de Bens que oriente nossas propostas morais públicas. Trata-se de um urgente desafio em apologética e teologia pública.

3. Enfim, sem uma teologia e uma filosofia da idolatria, o xingamento “idólatra” a um oponente político pode não passar disso mesmo – um xingamento.

Recomendo, portanto, extrema moderação no uso dessas categorias, e uma distinção consciente entre sua aplicação no nível doxástico (mais óbvia) e sua aplicação no nível moral, que exige mais discernimento e autoridade pastoral.

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