“Idólatra é Você!” e “Idolatria Reversa!”: migalhas sobre o xingamento teológico

Diante do recrudescimento do tema da idolatria política no ambiente evangélico, vitaminado pelas controvérsias ao redor do bolsonarismo e de seus críticos, apresento-lhes uma versão 2.0 desse artigo. E na imagem, de modo bem apropriado, “o desespero de Elias”.

Há uns anos atrás começamos a empregar bastante o termo “idolatria” para descrever a tendência que esquemas mentais, teorias e cosmovisões inteiras apresentam, de organizar a interpretação e valoração dos fatos do mundo e da experiência ao redor de falsos absolutos. Esses falsos absolutos fariam as vezes de “deuses”, num sentido teórico, mesmo que seus defensores fossem completamente descrentes em divindades ou forças sobrenaturais.

É claro que o termo tem um emprego muito mais amplo, de “ídolos” do Showbizz ao amor de mãe. Ou de certas mães! E o uso mais bem estabelecido, que os protestantes gostam de aplicar aos católicos, por seu apego aos Santos já falecidos.

Mas para além desses usos populares, adotamos de forma sistemática o termo como categoria filosófica crítica, para descortinar a profundidade espiritual por trás de variados sistemas ideológicos. Essa abordagem foi extensamente empregada por Herman Dooyeweerd em sua crítica do pensamento teórico ocidental, e principalmente por seus alunos Egbert Schuurman e Bob Goudzwaard. Mais recentemente, meu amigo David Koyzis publicou sua segunda edição de “Political Visions & Illusions“, a qual tive o prazer de endossar, e consiste num excelente trabalho aplicando essas categorias ao campo da ciência política.

O escarcéu político dos últimos anos corrompeu bastante essa conversa, desde que o termo passou gradativamente a ser usado como mero “xingamento”. Um palavrão culto. Temo que eu mesmo tenha, em alguns momentos, dado espaço a essa interpretação. Mas não posso assumir a culpa pela balbúrdia atual. No mais das vezes, o que vejo é “influencers” de esquerda (e agora, também, na direita bolsonarista) arranjando jeitos de dizer “você também!”, ou “você é que é!” e assim, gente que nunca se preocupou muito com o primeiro mandamento anda posando de Moisés por aí.

Na verdade o assunto é riquíssimo, e eu proporia uma moratória no uso do termo. A categoria é boa demais para a jogarmos fora desse jeito, como se fosse o tomate mais próximo disponível contra o oponente. Enquanto aprendemos mais sobre o tema, seguem algumas migalhas provisórias:

A idolatria ideológica pode ter uma dimensão intelectual, quando o centro organizador de uma posição política é demonstravelmente uma absolutização de uma realidade criada, como uma instituição ou um bem cultural, como o Estado, o mercado ou a afetividade. David Koyzis explora isso muito bem (e Dooyeweerd, e Goudzwaard). Poderíamos também descrevê-la como a dimensão “doxástica” da idolatria, numa linguagem epistemológica técnica. É a ideia idólatra presente numa crença idólatra.

Outra dimensão é a moral, frequentemente associada à ideológica, aparecendo em uma falsa ideia de felicidade e uma correspondente hierarquia de bens distorcida. Mesmo não usando essa linguagem, Charles Taylor ajuda a entender isso em “As Fontes do Self”. E James Smith, em “Você é o que você Ama”, não podemos nos esquecer. E Tim Keller, em “Deuses Falsos”, claro! No centro de uma alma idólatra está o apego a um falso bem ou a elevação e um bem relativo à posição de bem máximo, ou “hiperbem”. Eu diria que é aqui o lugar em que a idolatria lança as suas raízes. Uma crença idólatra é uma semente, que pode ou não crescer na alma; mas é uma árvore estável quando deforma o mapa moral da pessoa e sua existência começa a “escorrer” na direção dela.

Finalmente, a idolatria envolve um páthos, uma desordem afetiva que ama de modo desproporcional, apaixonando-se por coisas menos importantes, e odiando excessivamente. A desordem dos bens segue de mãos dadas com a desordem dos afetos, e essa última sempre faz transparecer a primeira. E assim surge o Odium Politicum. Aqui C. S. Lewis ajuda muito (“Os Quatro Amores”); Tim Keller e Smith de novo, e claro, as “Confissões” de Agostinho!

A experiência tem me mostrado o seguinte:

1. Nem sempre a idolatria teorética presente em uma teoria social e política condiciona a vida moral e afeta existencialmente a pessoa, simplesmente porque somos inconsistentes. Assim nem todo estatista ou liberal é um idólatra efetivo.

Muitos professam crer em Deus, mas na verdade não crêem; sua fé é superficial, meramente professada. Talvez até seja intelectualmente bem estabelecida, mas permanecendo existencialmente inócua.

Suspeito que muitos Cristãos que acolhem, por uma ou outra razão teórica, ou por compromissos políticos ou emocionais, ou por pura irreflexão, crenças idólatras em teoria política e social – idólatras do ponto de vista de seu conteúdo doxástico – não as sustentam com a força moral característica da idolatria consumada. E assim surge o paradoxo do crente cuja piedade confirmada é evidentemente incompatível com sua edificação teórica no campo X ou Y. Os hábitos de compartimentalização teórica, reforçados por um dualismo de natureza e graça, podem viabilizar essa situação.

De modo que nem todo Cristão que sustenta crenças demonstravelmente idólatras, mas que as sustenta de modo teórico ou setorizado pode ser acusado de “idolatria” no sentido estrito. O sujeito não é já idólatra por que é socialista, ou liberal, ou anarcocapitalista, ou conservador, etc, assim como não é um fiel apenas por acreditar intelectualmente em Deus.

2. Nem sempre a forte convicção e até mesmo paixão ideológica confirma a idolatria pessoal, pois isso precisa ser comparado ao seu compromisso com Cristo e com a igreja. Algumas pessoas apaixonadas politicamente não deixam isso afetar em nada seu amor por Cristo e pela igreja, e sua ortodoxia permanece intocada. Por outro lado, algumas pessoas bem “equilibradas” (aparentemente) quanto à ideologia não tem compromisso com Jesus e são pragmáticas quanto a envolvimentos teológicos e eclesiais. Essas últimas podem ser mais idólatras que as primeiras.

A questão é o modo como essa paixão se desenvolve na vida da pessoa. Se a paixão entra em conflito com o “apego ao bem” (Romanos 12.9) tornando-a mais apegada a um bem inferior do que aos bens superiores, por um lado, e se ao invés de produzir um ódio ao mal (Romanos 12.9), a paixão alimenta ódio ao que deveria ser amado e respeitado, temos claro sinal de corrupção da imaginação moral, que pode resultar de um hiperbem distorcido – um falso “sumo bem”.

Daí eu dizer às vezes: relativista em teologia e dogmático em política – se isso determina as paixões morais da pessoa – é forte sinal de idolatria no sentido estrito. Mas reconhecer essa estrutura exige um pouco de observação. Em todo o caso, uma devoção desmesurada e doentia por qualquer criatura, fenômeno ou projeto humano e temporal pode ser tomado, prima facie, como indício de idolatria.

Mas é claro que isso não encerra o assunto. Para entender melhor como certa idolatria emerge e identificá-la na vida de alguém – e em nós mesmos – será necessário adotar uma Teoria de Bens. Acho que uma das maiores deficiências intelectuais do Cristianismo brasileiro hoje é a construção de uma Teoria de Bens que oriente nossas propostas morais públicas. Trata-se de um urgente desafio em apologética e teologia pública.

3. Nem sempre a oposição apaixonada e crítica a um projeto político ou ideológico indica idolatria pessoal. Trata-se de um argumento comum das mídias sociais hoje: o sujeito abre fogo sistematicamente contra um projeto político ambíguo ou falido (na minha opinião) como de Bolsonaro e é acusado de ocultar outra idolatria – que ninguém chamou, mas poderíamos chamar, aqui, de “idolatria reversa” – por detestar excessivamente alguma coisa. Esse argumento já foi empregado contra as minhas próprias críticas ao Governo Bolsonaro e, aparentemente, já foi lançado contra a crítica de Yago Martins ao Bolsonarismo, antes mesmo de seu livreto ser publicado.

Antes de tudo cabe repetir a mesma advertência supracitada, sobre a proporção das paixões. A presença de intensa paixão política não prova sozinha uma idolatria, pois isso depende da nossa base de comparação. Se a pessoa é naturalmente apaixonada e sua devoção a Cristo é ainda maior, e se essa paixão, embora mais intensa do que o normal, não destrói seus outros amores, não se pode alegar idolatria. Similarmente, a intensa rejeição e ódio a certo comportamento ou realidade pervertida devem ser lidos no contexto dos amores daquela pessoa. Se a devoção a Cristo se mostra tão ou mais clara que sua indignação contra certo mal, não cabe suspeita de idolatria.

Feita essa consideração geral, passemos às qualificações. É preciso esclarecer de que modo o amor e o ódio se relacionam diferentemente com a idolatria. No amor ela é explícita; no ódio, apenas implícita. Ao contrário da devoção desproporcional a realidades temporais e criadas, que é transparente, explícita, e pode ser tomada prima facie como indício de idolatria (indício, e não prova definitiva), a mera oposição crítica ou rejeição de qualquer coisa é opaca, intransparente sobre suas razões, e evidentemente não pode ser tomada prima facie como indício de idolatria. A devoção explícita precisa ser rastreada e demonstrada.

Assim, detestar excessivamente uma coisa ambígua pode sinalizar uma série de falhas ou fraquezas morais como o ressentimento, o medo, a ira, e até mesmo indicar, em certos casos, desequilíbrios de natureza psiquiátria, como as tendências à psicopatia associadas ao maquiavelismo e ao narcisismo na Dark Triad (“tríade obscura”), tantas vezes manifesta em comportamentos obsessivos e persecutórios. Uma parte dos fenômenos de “haters” e “trolls” nas mídias sociais sinalizam problemas psicopatológicos. Ora, é possível alegar que todo pecado pessoal e até mesmo o sofrimento mental da humanidade derivam, em última instância, da idolatria, mas isso está longe de demonstrar uma idolatria específica que seja a motivadora da implicância pecaminosa. Tais comportamentos moralmente ou mentalmente doentes podem inclusive vir acompanhados de uma idolatria que não tem nenhuma relação interna com esses comportamentos.

Por outro lado, o ódio intenso pode ter como objeto o mal ou um gesto injusto ou destrutivo de alguém. É possível detestar o mal por amor e por compromisso com a glória de Deus e com o bem. A fonte de um posicionamento claro, incisivo e persistente contra um projeto político de algum modo pervertido não pode cair sob suspeita, sem mais, de idolatria, dado que há risco de sua fonte ser o próprio Deus. Tudo o que sabemos sobre o profetismo bíblico exige o máximo de responsabilidade nesse ponto. Como já sustentei em outras ocasiões: é concebível que o profeta Elias fosse acusado de “idolatria reversa” por sua oposição inflexível ao baalismo, e pela execução dos 450 profetas de Baal? Talvez; exceto que a “idolatria” de Elias, nesse caso, era a adoração ao Deus verdadeiro. Ou seja: é concebível que um desavisado acusasse Elias de “idolatria reversa” não porque estivesse do lado de Baal ou de Yahweh mas do lado de, digamos, Marduk ou de Osíris.

Mas esse caso ilustra bem o âmago do problema. Qual a motivação da crítica política e, particularmente, da crítica profética ao poder político e à igreja que a ele se alia? A motivação pode ser a imaturidade, o narcisismo, a doença mental, ou… a adoração a Deus. Não se pode, portanto, desqualificar a crítica clara, incisiva e persistente como mera “idolatria reversa”, sem mais. Isso equivaleria a neutralizar toda a atividade jornalística em geral, a atividade profética e até mesmo a própria crítica da igreja cristã à idolatria. Uma consumada absurdidade.

Mas como se identifica uma “idolatria reversa”? Para tanto é indispensável uma teologia filosófica da idolatria. Se ídolos são criados por absolutizações de realidades criaturais, os contra-ídolos emergem como um “recalque do negativo”, por assim dizer; eles brotam das dimensões da realidade neglicenciadas ou suprimidas pelo ídolo dominante. Mas vejam bem: até mesmo os contra-ídolos tem uma função elucidativa na apologética cristã. Francis Schaeffer, por exemplo, emprega as contradições do dualismo de natureza/liberdade para destacar a falência do humanismo secular, mas no processo de fazê-lo ele afirma, holisticamente, os aspectos verdadeiros desses dois falsos absolutos. Assim o encontramos, por exemplo, simpático aos anseios dos jovens por personalidade e liberdade, em oposição ao reducionismo científico e ao behaviorismo.

De modo que a acusação de motivação idólatra oculta, que chamamos aqui de “idolatria reversa”, deveria ser adiada ou suspensa até que se demonstre qual o alegado contra-ídolo que anima e direciona a crítica política, ideológica, ética, ou teológica supostamente exagerada. Ela não pode ser simplesmente “assumida”; tem que ser demonstrada. E precisa ser demonstrada como motivação conceptual e moral da crítica. Sem o discernimento e a exposição do alegado contra-ídolo, a acusação de “idolatria reversa” pode ser mero palpite ou algo pior: mera evasiva retórica; jogar areia nos olhos do adversário para ganhar tempo.

Há, a bem da verdade, uma única exceção a essa regra geral, de que a idolatria reversa não pode ser presumida diante de uma crítica clara, incisiva e persistente, envolvendo rejeição ou ódio consumado: quando essa crítica é contra o próprio Deus, contra a bondade de sua Criação, contra Jesus Cristo e seu evangelho, e contra a sua igreja. Porque a rejeição explícita da revelação de Deus não traz ambiguidade sobre suas motivações. Notemos, entretanto, que embora nesse caso já possamos presumir existência da idolatria, ela permanece implícita e sua exposição exigirá discernimento crítico.

Mas suponhamos que se demonstre enfim a existência de um determinado contra-ídolo: o que isso significa para o discurso público? Certamente não significa que as vozes críticas possam ser ignoradas. Afinal, se há um ídolo distorcendo a percepção de realidade e o comportamento social, é claro que eventualmente as dimensões negligenciadas e suprimidas da realidade vão estourar o encanamento e inundar a casa. Aqueles que estiverem comprometidos com o Deus verdadeiro, e não com os ídolos, não precisam defender um ídolo de um contra-ídolo. Podem até reconhecer seu ponto, seu reclame; mas a não ser em casos muito especiais, temporariamente, e com fins estritamente pragmáticos, não devem assumir um “lado”. Pelo contrário, seu papel é reconhecer a verdade e a falsidade dos dois lados, e mostrar como uma visão integral da realidade supera aquela antítese. Que os ídolos batam as suas cabeças.

Finalmente, é preciso ter em mente que mesmo uma crítica feita por uma criança, um narcisista ou um doente mental, que não seja uma distorção da realidade baseada numa idolatria, pode ser ainda verdadeira. Não devemos de modo pueril e escapista imaginar que críticas cairão refutadas tão somente porque se demonstra a sua má vontade ou se prova que o crítico é um idólatra, sem que mostremos como tais vícios efetivamente distorceram a crítica. Essa mentalidade é típica de teorias circulares da ideologia, como a marxiana e a pós-estruturalista, que estão sempre discutindo as intenções do discurso ou sua função política instrumental, e sempre evitando o seu mérito, a questão da sua veracidade. Evasivas, argumentos circulares e ad hominems não tem poder contra a verdade.

Com todas essas qualificações, e tendo em vista nossa argumentação no princípio do artigo de que a idolatria se revela, também, por meio de um pathos, de uma afeição exagerada e desproporcional, concordo que é possível, sim, que o ódio desmesurado por uma ideologia, um símbolo, um governo ou uma pessoa seja fruto de idolatria reversa. Nesse sentido, idolatria reversa existe, sim, a partir das concepções Dooyeweerdianas de antítese religiosa e contra-ídolo (exposta em seu “Raízes da Cultura Ocidental”). Isso não pode ser assumido prima facie, no entanto, como pode ser assumido no caso da devoção explícita a um falso deus. A idolatria reversa implícita tem que ser demonstrada a posteriori.

4. Para concluir, enfim, sem uma teologia e uma filosofia da idolatria, o xingamento “idólatra” a um oponente político pode não passar disso mesmo – um xingamento.

Recomendo, portanto, extrema moderação no uso dessas categorias, e uma distinção consciente entre sua aplicação no nível doxástico (mais óbvia) e sua aplicação no nível moral, que exige mais discernimento e autoridade pastoral.

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