O Fim da Universidade

Por Roger Scruton

Tradução: Ana Elisa de Carvalho*

Universidades existem para proporcionar aos estudantes conhecimento, aperfeiçoamento de habilidades e cultura, o que lhes permitirá estarem preparados para a vida, ao mesmo tempo em que aumentam o capital intelectual, do qual todos nós dependemos. Evidentemente, os dois propósitos são distintos. Um diz respeito ao crescimento do indivíduo, e o outro, à nossa necessidade compartilhada de adquirir conhecimento. Mas eles também estão entrelaçados, de modo que ambos são afetados quando um dos propósitos sofre um dano. Isso é o que estamos vendo hoje, na medida em que nossas universidades se voltam cada vez mais contra a cultura que as criou, subtraindo-a dos mais jovens.

Os anos investidos ​​na universidade pertencem à mesma classe dos ritos de iniciação estudados pelos antropólogos vitorianos, nos quais os que nasceram na tribo assumem o fardo de perpetuá-lo. Se perdermos essa visão, parece-me, então, que estaremos correndo o risco de separar a universidade de seu propósito social e moral, que é o de entregar, tanto um depósito de conhecimento, quanto uma cultura que lhe confere sentido.

Esse propósito tem sido central para a tradição educacional que criou a civilização ocidental. A Paideia grega considerava o cultivo da cidadania como o núcleo do currículo. A prática religiosa e a educação moral continuaram sendo uma parte fundamental dos estudos universitários durante a Idade Média, e o ideal renascentista do virtuoso foi a inspiração para o currículo emergente do studia humaniores. A universidade que surgiu do Iluminismo, não relaxou as rédeas morais, mas considerava a erudição como um modo de vida disciplinado, cujas regras e procedimentos diferenciavam-se dos assuntos do cotidiano. Contudo, concedeu aos assuntos rotineiros uma perspectiva de longo prazo, sem a qual nenhuma atividade humana faz o devido sentido. Mesmo a tempestuosa vida estudantil das universidades alemãs no século XIX, quando o duelo se tornou parte da cultura universitária, estava contida em códigos formais e uniformes de comportamento, colegiado doméstico e devoto a essa síntese peculiar de disciplina moral, conhecimento factual e competência cultural, que os alemães conhecem como “Bildung”.

No curso do século XIX, no entanto, as universidades sofreram uma rápida mudança na recepção pública. O declínio do modo de vida religioso, o surgimento das classes médias ansiosas por status social e poder político, e as demandas de conhecimentos e habilidades exigidas por uma economia industrial, pressionaram as universidades para mudar seu currículo, sua seleção de estudantes e professores e sua relação com a cultura circundante. Novas universidades foram fundadas na Grã-Bretanha e na América. Uma delas – a University College London, que data de 1826 – continha um currículo explicitamente secular, projetado para produzir mentes científicas que varreriam as teias de aranha teológicas em que todos os assuntos universitários haviam previamente sido embrulhados.

Apesar de tais mudanças, todavia, as quais forçaram as instituições educacionais a uma nova consciência de sua missão, a universidade manteve seu status de guardiã da alta cultura. Era um lugar onde o pensamento especulativo, a investigação crítica e o estudo de livros e línguas importantes eram todos mantidos em uma atmosfera de estudioso isolamento. Quando o Cardeal Newman escreveu “The Idea of ​​a University”, em 1852, o fez em grande parte para defender a velha concepção da universidade, como um lugar separado, um recinto quase monástico, que se opunha à mentalidade utilitária da nova sociedade de manufatura. Para Newman, a universidade existe para moldar o caráter daqueles que a frequentam. Imergindo seus alunos em um ambiente colegiado, e impactando-os com o ideal da mente educada, ajudando a transformar seres humanos brutos em cavalheiros.

Isto, derivou Newman, é a verdadeira função social da universidade. Dentro das paredes da faculdade, o adolescente é agraciado com uma visão das finalidades da vida; e ele ganha na universidade, a única coisa que o mundo não fornece, que é uma concepção do valor intrínseco. E é por isso que a universidade é tão importante na era do comércio e da indústria, quando a tentação utilitária nos assedia de todos os lados, e quando corremos o perigo de tornar cada propósito em um objetivo material – em outras palavras, como Newman viu, em perigo de permitir aos meios o engolir os fins.

Muita coisa mudou desde a época de Newman. Sugerir que as universidades estão envolvidas na produção de cavalheiros é mais do que levemente ridículo, além de estarmos em uma época em que a maioria dos estudantes são mulheres. A universidade ideal de Newman foi modelada nas universidades de Oxford, Cambridge e Trinity College, Dublin, os quais na época admitiam apenas homens, não permitiram que seus estudantes residentes se casassem, e eram mantidos como instituições quase religiosas sob os auspícios da Igreja Anglicana. Seus alunos de graduação eram recrutados, em grande parte, pelas escolas privadas, e seu currículo era solidamente baseado em latim, grego, teologia e matemática. Suas vidas domésticas giravam em torno da universidade, onde os estudantes tinham seus aposentos, e onde jantavam juntos todas as noites no salão, vestidos em seus trajes acadêmicos.

Dentro das paredes da faculdade, o adolescente é agraciado com uma visão das finalidades da vida; e ele ganha na universidade a única coisa que o mundo não fornece, que é uma concepção de valor intrínseco.

Somente uma pequena proporção daqueles que frequentavam as antigas universidades britânicas nos dias de Newman, consideravam o estudo como o verdadeiro propósito de estarem “dentro”, na alma mater. Alguns estavam lá para provocar desordem ou jogar rugby; alguns estavam aguardando a herança de um título; outros estavam a caminho das comissões do exército e, enquanto isso, estavam badernando com seus amigos. Quase todos eram membros de uma elite social que haviam atingido essa forma singular de auto-perpetuação, cobrindo seu poder com um folheado de alta cultura. E neste ambiente protegido e bonito, também se poderia levar a cultura a sério. Com dinheiro no banco e tempo em suas mãos, não era tão difícil dar as costas aos valores utilitários.

A universidade atual difere da universidade do Cardeal Newman em quase todos os aspectos. Recruta em todas as classes da sociedade, é aberta igualmente aos homens e às mulheres, e muitas vezes é financiada e amparada pelo Estado. Muito pouco permanece da vida doméstica equilibrada que moldou a alma de Newman, e o currículo não se centra em assuntos sublimes e sem propósito, como o grego antigo, no qual paira a cativante visão de uma vida além do comércio, mas antes nas ciências, nas disciplinas vocacionais, e nos agora ubíquos programas de business através dos quais os estudantes supostamente aprendem os caminhos do mundo.

Além disso, as universidades se expandiram para oferecer seus serviços a uma proporção cada vez maior da população, e para absorver uma quantidade progressivamente maior do orçamento nacional. No estado de Massachusetts, a educação universitária tem a maior receita de qualquer indústria. Há pelo menos uma universidade em todas as principais cidades britânicas ou americanas, e as universidades estaduais americanas podem ter, a qualquer momento, mais de 50 mil alunos. O ensino superior é oferecido como um direito a todos que passam o “baccalauréat” (bacharelado) francês ou o “Feststellungsprüfung” (teste de avaliação) alemão, e os políticos europeus costumam falar como se o trabalho de reforma educacional não fosse completo até que todas as crianças possam, em tempo útil, tornar-se graduadas. A universidade não está mais no negócio de criar uma elite social, mas no mercado rival de garantir que as elites sejam uma coisa do passado.

Sob o pretexto de fornecer um “propósito além do propósito”, segundo diriam os críticos, a universidade exaltada por Newman foi projetada para proteger os privilégios de uma classe alta existente e colocar obstáculos ao avanço de seus concorrentes. Ela conferiu habilidades fúteis, que eram estimadas precisamente por sua futilidade, pois isso as tornava em emblemas de membresia pelos quais só uns poucos podiam pagar. E, longe de avançar o fundeio do conhecimento, existia para salvaguardar os mitos sagrados: levantou uma parede protetora de encantamento em torno da religião, dos valores sociais e da alta cultura do passado e fingiu que as obscuras habilidades necessárias para aproveitar esse encantamento – Latim e Grego, por exemplo – eram as mais altas formas de conhecimento. Em suma, a universidade Newmanita era um instrumento para a perpetuação de uma aula de lazer. A cultura que passou adiante não era propriedade de toda a comunidade, mas sim uma ferramenta ideológica, através da qual os poderes e os privilégios da ordem existente eram revestidos com sua aura de legitimidade.

Agora, em contraste, temos universidades dedicadas ao crescimento do conhecimento, que não são meramente não-elitistas, mas anti-elitistas em sua estrutura social. Não fazem discriminação nos campos da religião, sexo, raça ou classe. São lugares de pesquisa e questionamento de mente aberta, locais sem compromissos dogmáticos, cujo objetivo é promover o conhecimento através de um espírito de questionamento livre. Este espírito é transmitido aos seus alunos, que têm a mais ampla possibilidade de escolha de um currículo e adquirem conhecimento que não é meramente firme e enraizado, mas eminentemente útil nas suas vidas futuras: administração de empresas, por exemplo, gestão de hotelaria ou relações internacionais. Em síntese, as universidades evoluíram de clubes socialmente exclusivos, do estudo de futilidades preciosas, para centros de formação socialmente inclusivos para a propagação das habilidades necessárias. E a cultura transmitida não é de uma elite privilegiada, mas de uma “cultura inclusiva” que qualquer um pode adquirir e desfrutar.

Dito isso, no entanto, um visitante contemporâneo da universidade americana, será mais impactado pelas variedades locais de censura do que por qualquer atmosfera de questionamento livre. É verdade que os americanos vivem em uma sociedade tolerante. Mas também que procriaram uma estirpe de guardiões vigilantes, afiados em detectar e extirpar os mais imberbes sinais de “preconceito” entre a juventude. E esses guardiões possuem a tendência inata de gravitar rumo às universidades, nas quais a própria liberdade do currículo, e sua abertura para a inovação, proporciona-lhes uma oportunidade de exercitar suas paixões censuradoras. Livros são colocados ou tirados de currículos sobre a base da sua correção política; Códigos de fala e serviços de aconselhamento policiam a linguagem e o pensamento de ambos, tanto estudantes quanto professores; disciplinas são projetadas para incutir a conformidade ideológica e, recorrentemente, os estudantes são penalizados por terem estabelecido uma conclusão herética sobre os problemas em destaque na atualidade. Em áreas polêmicas, como raça, sexo e a misteriosa coisa chama “gênero”, a censura é abertamente direcionada, não somente aos estudantes, mas também a quaisquer professores, por mais que imparciais e escrupulosos, que apareça com conclusões errôneas. 

Claramente, a cultura do Ocidente permanece o objeto primário de estudo nos departamentos de humanidades. Contudo, o propósito não é infundir tal cultura, mas repudiá-la – examiná-la para identificar todas as formas com as quais peca contra a visão igualitária de mundo. A teoria marxista de ideologia, ou alguma descendente feminista, pós-estruturalista ou Foucaultiano será convocada como prova da visão de que as preciosas realizações da nossa cultura devem seu status ao poder que fala através delas, e que, portanto, não tem nenhum valor intrínseco. Dizendo de outra forma: O antigo currículo, que Newman viu como um fim em si, foi rebaixado a um meio. O antigo currículo existiu, segundo fomos comunicados, com o fim de manter as hierarquias e as distinções, as formas de exclusão e dominação que conservaram uma elite governante. Os estudos atuais das humanidades são projetados para provar isto – para mostrar a maneira com que, por meio de imagens, histórias, e crenças, através dos trabalhos da arte, música, e da sua língua, a cultura do ocidente não possui qualquer significado profundo além do poder que ela serviu para perpetuar. Desta maneira, a totalidade da ideia da nossa herança cultural como envolvendo uma esfera autônoma de conhecimento moral, e uma esfera tal que requer aprendizado, erudição, e imersão para aprimorar e conservar, foi jogada ao vento. A universidade, ao invés de transmitir cultura, existe para desconstruí-la, para remover sua “aura”, e deixar o estudante, depois de quatro anos de dissipação intelectual, com a visão que tudo se esvai e que nada realmente importa.

A teoria marxista de ideologia, ou alguma descendente feminista, pós-estruturalista ou Foucaultiana será convocada como prova da visão de que as preciosas realizações da nossa cultura devem seu status ao poder que fala através delas, e que, portanto, não tem nenhum valor intrínseco.

A impressão surge, portanto, de que fora das hard sciences, não há nenhum corpo de conhecimento estabelecido, nada para aprender, salvo atitudes doutrinárias. Em “The Closing of the American Mind”, Allan Bloom lamentou o relativismo lânguido que tem infectado as humanidades – a crença, partilhada por estudantes e professores, de que não há valores universais, e de que estudamos meramente por curiosidade. Se permanecemos indiferentes aos desafios morais com os quais temos sido confrontados, é em grande parte por não acreditarmos mais na existência de algo como um desafio moral real.

Embora a observação de Bloom seja verdade, não é toda sua verdade. O relativismo moral abre caminho para uma nova forma de absolutismo. O currículo emergente das humanidades é, de fato, mais censurador, em matérias cruciais, do que aquele ao qual se empenhou para substituir. Não é permitido acreditar que hajam verdadeiras e inerentes distinções entre pessoas. Todas as diferenças são “socialmente construídas” e assim, modificáveis. E a função do currículo é desconstruí-las, substituir a diferença pela igualdade em cada esfera na qual a diversidade tem sido parte da herança cultural. Os estudantes precisam acreditar que em sentidos cruciais, e particularmente naqueles que tocam em assuntos como raça, sexo, classe, papel, e refinamento cultural, a civilização ocidental é somente um dispositivo de arbitrariedade ideológica, e certamente não (como sua autoimagem sugere), um repositório de conhecimento moral verdadeiro. Contudo, eles precisam aceitar que o propósito da sua educação não é herdar a cultura, mas questioná-la e, se possível, para substituí-la pela nova abordagem “multicultural” que não faz distinções entre as várias formas de vida pelas quais os estudantes se vêem cercados.

O currículo emergente das humanidades é, de fato, mais censurador, em matérias cruciais, do que aquele ao qual se empenhou para substituir. Não é permitido acreditar que hajam verdadeiras e inerentes distinções entre pessoas. Todas as diferenças são “socialmente construídas” e assim, modificáveis.

Duvidar de tais doutrinas é cometer uma profunda heresia, e levantar uma ameaça à comunidade que a universidade moderna precisa. Pois a universidade moderna procura atender estudantes independentemente de sua religião, sexo, raça, ou origem cultural, até mesmo de habilidade. É, em grande parte, uma criação do estado e totalmente firmada na ideia estatista do que a sociedade deveria ser – nomeadamente, uma sociedade sem distinções. Portanto, é tão dependente da crença na igualdade quanto a universidade de Newman dependia da crença em Deus. Seu propósito é criar um microcosmo da futura sociedade, assim como a faculdade de Newman era um microcosmo do mundo dos “cavalheiros”. E uma vez que a cultura que herdamos é um sistema de distinções, fixadas em oposição à igualdade em todas as esferas onde gosto, julgamento, e discriminação fazem suas reivindicações, a universidade moderna não tem escolha, a não ser estabelecer-se contrária à cultura Ocidental.

Dessa forma, apesar da aspiração inata ao pertencimento, os jovens são informados na universidade de que eles vieram do meio do nada e não pertencem a nada: que todas as formas de membresia preexistentes são nulas e vazias. A eles é oferecido um rito de passagem para o vazio cultural, uma vez que esta é a única maneira de alcançar o objetivo igualitário. Eles são presenteados, ao invés das velhas crenças de uma civilização baseada na piedade, no julgamento e na distinção, as novas crenças de uma sociedade baseada na igualdade e na inclusão; eles são informados de que o julgamento de outros estilos de vida é um crime. Se o propósito fosse apenas substituir um sistema de crença por outro, seria aberto a um debate racional. Mas o objetivo é substituir uma comunidade por outra.

A universidade moderna não tem escolha, a não ser estabelecer-se contrária à cultura Ocidental.

Mas qual seria a alternativa? Se as universidades não propagam a cultura que uma vez lhes foi confiada, onde mais os jovens poderiam buscá-la? Alguns pensamentos em resposta a essa questão foram sugeridos por experiências que começaram, para mim, em 1979. Os escritos de Foucault, Deleuze e Bourdieu estavam então começando a fazer ondas na Universidade de Londres, onde eu ensinei. Meus alunos estavam sendo informados de todos os lados de que não haveria nada semelhante a conhecimento nas humanidades e que as universidades não existem para justificar a cultura como uma forma de conhecimento, mas para desmascará-la como uma forma de poder.

Em resposta, perguntei-me o que exatamente eu estava tentando ensinar, e por quê. Ao introduzir os alunos às ótimas obras de filosofia, literatura e criticismo que absorvi na escola e na universidade, senti que estava oferecendo-lhes o quadro de referência, um depósito de especulações, os paradigmas de insight e alusão, por meio dos quais eles poderiam compreender o seu mundo. Eu estava oferecendo-lhes a membresiaq em uma cultura, não enquanto corpo de doutrinas, mas como uma conversa contínua. E isso, eu senti, era uma forma de conhecimento real: não um conhecimento de fatos e teorias, mas o conhecimento do que sentir, de como se relacionar e a quem pertencer. No entanto, esse corpo de conhecimento, como eu assumia que fosse, eu o via agora descartado como ideologia burguesa, ou – no idioma de Foucault – como a episteme, o savoir acumulado de uma classe dominante.

Um dia, um convite chegou a mim, de boca a boca, para comparecer a um seminário clandestino em Praga. Eu aceitei; como resultado, fui posto em contato com pessoas para as quais a busca pelo conhecimento e cultura não era um luxo dispensável, mas uma necessidade. Nada mais poderia fornecer-lhes o que buscavam, e que era uma rota de fuga do mundo de mentiras com as quais estavam cercados. E, ao discutir o patrimônio cultural ocidental entre eles, foram marcados como hereges, que arriscaram serem detidos e aprisionados apenas por se encontrarem como fizeram. Ironicamente, talvez a maior conquista intelectual do partido Comunista tenha sido convencer as pessoas de que a distinção de Platão entre conhecimento e opinião é válida e que a opinião ideológica não é meramente distinta do conhecimento, mas o inimigo do conhecimento, a doença implantada no cérebro humano e que torna impossível distinguir ideias verdadeiras das falsas. Essa foi a doença espalhada pelo Partido. E também foi difundida por Foucault. Pois foi Foucault quem ensinou aos meus colegas a avaliar cada ideia, cada argumento, cada instituição, convenção ou tradição em termos de “dominação” que ele mascara. A verdade e a falsidade não tinham significado real no mundo de Foucault; tudo o que importava era o poder.

Estas questões foram trazidas de forma esclarecedora pelos tchecos e eslovacos por meio do ensaio de Václav Havel, “O poder dos impotentes” (1978), ordenando seus compatriotas a “viverem na verdade”. Como eles poderiam fazer isso, se não eram capazes de distinguir a verdade do falso? E como eles podem distinguir o verdadeiro do falso sem o benefício da cultura real e do conhecimento real? Assim, a busca por essas coisas tornou-se urgente. E o preço dessa busca foi alta – assédio, prisão, privação de direitos e privilégios comuns e uma vida à margem da sociedade. Quando algo tem um alto preço moral, apenas pessoas comprometidas irão buscá-lo. Descobri, portanto, nos seminários clandestinos, um corpo estudantil único – pessoas dedicadas ao conhecimento, como entendi, e conscientes da facilidade e do perigo de substituir o conhecimento por mera opinião. Além disso, eles estavam procurando por conhecimentos no lugar onde é mais necessário e também mais difícil de encontrar – em filosofia, história, arte e literatura, nos lugares onde a compreensão crítica, e não o método científico, é nosso único guia. E o que foi mais interessante para mim foi o desejo urgente de todos os meus novos alunos de herdar o que lhes foi transmitido. Eles foram criados em um mundo onde todas as formas de pertencimento, além da submissão ao Partido governante, foram marginalizadas ou denunciadas como crimes. Eles entenderam instintivamente que uma herança cultural é preciosa, precisamente porque oferece um rito de passagem para o que você realmente é, e a comunidade do sentimento que lhe pertence.

A verdade e a falsidade não tinham significado real no mundo de Foucault; tudo o que importava era o poder.

Havia outro traço cativante nesses seminários clandestinos: seus recursos intelectuais eram bastante escassos. Os acadêmicos no Ocidente são obrigados a publicar artigos e livros se quiserem avançar em suas carreiras e, nos anos que se seguiram após a Segunda Guerra Mundial, isso havia levado a uma proliferação de literatura que, se não sempre de segunda categoria do ponto de vista intelectual, quase sempre permaneceu sem mérito literário – indigerível, atulhada com notas de rodapé, sem contar imagens ou retomadas de frases e tanto efêmeras em conteúdo quanto impossíveis de ignorar. O peso desta pseudo-literatura oprime tanto os professores quanto os estudantes nas humanidades, e agora é quase impossível desenterrar os clássicos que estão enterrados debaixo dela.

Às vezes penso que o maior serviço à nossa cultura foi feito pela pessoa que ateou fogo à biblioteca em Alexandria, assegurando assim que nada sobrevivesse dessa massa de literatura, exceto as obras consideradas tão preciosas que cada pessoa educada deveria possuir uma cópia. Os comunistas haviam realizado um serviço similar à vida intelectual na Checoslováquia, impedindo a publicação de qualquer coisa, exceto aqueles trabalhos considerados tão preciosos que as pessoas estavam dispostas a produzi-las em laboriosas edições samizdat. Estes seriam passados ​​de mão em mão e lidos com ávido interesse por pessoas para quem o conhecimento, em vez de avanço na carreira, era o objetivo. Quão refrescante isso foi, depois da vida entre os periódicos acadêmicos e insignificantes notas de rodapé!

Obviamente, as circunstâncias dos seminários clandestinos eram incomuns e ninguém gostaria de reproduzi-las. No entanto, durante os dez anos que trabalhei com outros para transformar esses grupos de leitura privados em uma estruturada (embora clandestina) universidade, aprendi duas verdades muito importantes. A primeira, é que uma herança cultural é realmente um corpo de conhecimento e não uma coleção de opiniões – conhecimento do coração humano e da visão de longo prazo de uma comunidade humana. A segunda, é que esse conhecimento pode ser ensinado e que não exige um vasto investimento de dinheiro para fazê-lo, certamente não os $50.000 (dólares) por aluno por ano exigidos por uma universidade da Ivy League. Requer um punhado de livros que passaram pelo teste do tempo e são apreciados por todos os que realmente os estudam. Isso requer professores com conhecimentos e estudantes ansiosos para adquiri-lo. E requer a tentativa contínua de expressar o que já foi aprendido, seja em dissertações ou em encontros face a face com um crítico. Todo o resto – administração, tecnologia da informação, salas de aula, bibliotecas, recursos extracurriculares – é, em comparação, um luxo insignificante.

Esse conhecimento pode ser ensinado e que não exige um vasto investimento de dinheiro para fazê-lo, certamente não os $50.000 (dólares) por aluno por ano exigidos por uma universidade da Ivy League.

Quando as instituições são incuravelmente corrompidas, como as universidades foram corrompidas sob o comunismo, devemos começar de novo, mesmo que o custo seja tão elevado quanto na Europa ocupada pelos soviéticos. Para nós, o custo não é tão alto. O presente mais precioso de nossa civilização, e aquele que estava mais ameaçado durante o século XX, é a liberdade de se associar. Porque essa liberdade ainda existe, e em nenhum lugar mais do que na América, o fato de que não podermos mais confiar nossa alta cultura às universidades tem menos importância. O destino de Harvard e Yale é inevitavelmente de interesse geral; mas também há lugares como St. John’s College em Annapolis, ou Hillsdale College em Michigan, onde as pessoas que acreditam no currículo antigo estão preparadas para ensiná-lo. Existem grupos privados de leitura, cursos on-line, associações de estudiosos, grupos de reflexão e séries de conferências públicas. Existem instituições como o Intercollegiate Studies Institute, que oferece um serviço de resgate para estudantes derrotados pelo politicamente correto. Há revistas como esta, que servem de ponto focal para discussões que, afinal, não precisam de uma universidade para se realizarem. Parece-me que nos permitimos intimidar pela crença de que, porque as universidades possuem bibliotecas, laboratórios, professores instruídos e recursos substanciais, também são repositórios indispensáveis ​​de conhecimento. Nas ciências isso é verdade. Mas não é mais verdade nas humanidades.

No entanto, o caminho a seguir não é tão claro quanto os defensores do antigo currículo gostariam que fosse. Programas de Great Books, pesquisas do nosso patrimônio cultural, o estudo comparativo de arte, música e arquitetura ocidentais, tudo isso são opções óbvias. Mas por que? O que é que distingue esses programas dos cursos de música pop, desenhos animados e estudos de gênero que tão facilmente aparecem para substituí-los? Dizer que o currículo tradicional continha conhecimento real em oposição a distrações efêmeras fugir da questão. Pois não sabemos em que consiste realmente o conhecimento. Nós o sentimos, é claro, como os meus estudantes tchecos sentiram. Sentimos o chamado da cultura que nos pertence, e queremos dizer que, ao responder a esse chamado, estamos deixando o mundo de opinião e entrando no mundo do conhecimento. Mas por quê?

Parece-me que nos permitimos intimidar pela crença de que, porque as universidades possuem bibliotecas, laboratórios, professores instruídos e recursos substanciais, também são repositórios indispensáveis ​​de conhecimento. Nas ciências isso é verdade. Mas não é mais verdade nas humanidades.

As respostas hoje disponíveis são igualmente triviais – como quando Matthew Arnold nos diz, em “Culture and Anarchy”, que uma alta cultura consiste em “o melhor que se tem dito e pensado” – ou então mais uma versão da visão do Iluminismo, de que o conhecimento cultural envolve transcender o particular ao universal, substituindo nossas lealdades e comunidades imaginadas com algum ideal cosmopolita. E basta um pequeno passo para seguirmos dessa posição Iluminista ao currículo multicultural e igualitário que esposa o universal humano apenas porque todo distintivo de uma verdadeira herança cultural foi removido dele. Até que possamos encontrar algo melhor do que essas duas abordagens, não vamos, eu suspeito, escapar do domínio das universidades, ou sentir confiança o suficiente para começar novamente sem elas.

*CONTATO: ana.elisa.fortes@gmail.com

FONTE: Scruton, Roger. The End of the University. First Things, April 2015. Disponível na data desta publicação em: https://www.firstthings.com/article/2015/04/the-end-of-the-university

TRADUZIDO E PUBLICADO COM PERMISSÃO DA REVISTA FIRST THINGS.

Roger Scruton é autor de “Notes from Underground”, “A Alma do Mundo”, “O Rosto de Deus“, “Tolos, Fraudes e Militantes“, entre outros.

Leia também, neste blog: O Sexo é necessário? Sobre a pobreza da fixação progressista na liberação sexual, Por Roger Scruton

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