RENOVANDO OS DIREITOS HUMANOS

Por Mary Ann Glendon e Seth D. Kaplan
Fevereiro de 2019

Tradução: Ana Elisa de Carvalho*


Quando Eleanor Roosevelt e um pequeno grupo de pessoas se reuniram sob os auspícios da ONU no início de 1947 para redigir a primeira “declaração internacional de direitos” do mundo, eles não poderiam ter tido grandes esperanças em seus esforços. O mundo estava inundado de opressão colonial, discriminação, pobreza e conflito. Embora as grandes potências houvessem acabado de terminar uma guerra que viu violações inimagináveis da dignidade humana, os Aliados relutavam em estabelecer qualquer sistema que ameaçasse sua soberania nacional. A ideia de “direitos humanos” mal existia no imaginário do público e quase não tinha papel no direito internacional; só recentemente havia ganhado circulação como uma frase entre acadêmicos e formuladores de políticas nos Estados Unidos, no Reino Unido e na América Latina. A ideia de que alguns direitos pudessem ser universais – aplicáveis em todas as diferentes sociedades do mundo – era controversa.

No entanto, nas décadas que se seguiram, essa mesma ideia teve uma influência transformadora na ordem política pós-Segunda Guerra Mundial. A Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), o mais proeminente símbolo e instrumento dessas mudanças, desafiou com sucesso a visão de que a soberania fornecia um escudo de ferro atrás do qual os estados poderiam maltratar seu povo sem escrutínio externo. Em trinta artigos curtos, a Declaração expressou anseios profundos entre homens e mulheres em todos os lugares, fortalecendo os movimentos que logo acabariam com o colonialismo e, mais tarde, com o apartheid e, por fim, com o governo comunista por trás da Cortina de Ferro. Ela contribuiu para a onda de democratização que começou em 1970 na Europa e se espalhou pela América Latina, África e Ásia. Inspirou legiões de ativistas, que escreveram relatórios, publicaram artigos, pressionaram políticos, recorreram aos tribunais e publicaram abusos. E deu aos membros fracos de qualquer sociedade um instrumento para amplificar suas vozes.

Mas agora que a Declaração Universal fez setenta anos, a ideia internacional de direitos humanos está em crise, perdendo o apoio tanto em casa quanto no exterior. Boas intenções, erros honestos, políticas de poder e todo o velho oportunismo desempenharam um papel em um crescente ceticismo e até mesmo em uma reação negativa.

Nos países em desenvolvimento, a forma como os direitos humanos foram promovidos reavivou antigos ressentimentos associados ao domínio colonial. O Tribunal Penal Internacional tem se concentrado em casos de países geopoliticamente fracos – africanos, enquanto governos como a Síria cometem atrocidades com pouco receio de processos judiciais. Os governos ocidentais costumam usar os direitos humanos de formas que parecem promover seus próprios interesses. E os atores dos direitos humanos que enfatizam a “justiça internacional” em alguns casos dificultaram a resolução de conflitos, a remoção de ditadores e a reconciliação de grupos em lugares como Uganda, Sudão e Líbia.

Enquanto isso, o cinismo sobre os direitos humanos internacionais tem crescido nas democracias liberais ocidentais. O Conselho de Direitos Humanos da ONU, sucessor da distinta Comissão de Direitos Humanos que redigiu a DUDH, foi acusado de forma convincente de preconceito e votação em bloco. No nível nacional, as tentativas de enquadrar questões políticas complexas (quando e como limitar a imigração) como questões de direitos humanos estimulam a divisão, prejudicando o trabalho necessário de encontrar soluções que promovam o bem comum.

Como uma ideia que uma vez mostrou poder tão surpreendente caiu em descrédito? A nosso ver, houveram três etapas: uma atitude seletiva em relação aos direitos iniciada pelas duas superpotências na era da Guerra Fria; uma hipertrofia do conceito uma vez que a ideia de direitos humanos mostrou sua força moral; e um esquecimento da sabedoria duramente conquistada dos homens e mulheres que viveram duas guerras mundiais.

Como uma ideia que uma vez mostrou poder tão surpreendente caiu em descrédito?

A tinta mal estava seca na DUDH quando os antagonistas da Guerra Fria a rasgaram ao meio, por assim dizer, com os EUA exaltando os direitos políticos e civis , e a União Soviética exaltando os direitos sociais e econômicos. Cada lado extraiu as partes daquele documento integrado que atendiam aos seus propósitos e ignorou o restante.

Na década de 1960, a ideia de direitos humanos começou a penetrar na consciência global, estimulada pela disseminação dos meios de comunicação de massa e pela ascensão de grupos como a Anistia Internacional. Nos EUA, a política da Guerra Fria combinada com ideais humanistas deu à questão crescente relevância na política externa tanto da esquerda quanto da direita, especialmente depois que o Congresso estabeleceu o departamento de direitos humanos dentro do Departamento de Estado dos EUA em 1977 e o Presidente Jimmy Carter realizou um comentário explícito para a causa em seu discurso inaugural. Ronald Reagan, inicialmente cético, não hesitou em abraçar os direitos humanos nos Acordos de Helsinque.

O fim da Guerra Fria aumentou a influência dos direitos humanos. O predomínio americano, a ascendência ideológica ocidental, uma série de atrocidades e conflitos e um papel crescente para as Nações Unidas e outros atores internacionais estimularam o rápido crescimento do ativismo pelos direitos humanos na década de 1990. Nos anos 2000, havia muitas organizações de direitos humanos, incluindo especialistas, ativistas, agências de monitoramento e fiscalização e revistas acadêmicas.

Enquanto isso, mudanças significativas na ambição e no foco ocorreram. Do século XIX até as últimas partes do século XX, a neutralidade, a reciprocidade e a não interferência nos assuntos dos Estados soberanos eram princípios fundamentais, como exemplificado pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Desde o final dos anos 1970, no entanto, uma abordagem intervencionista, apoiada pelo poder ocidental – especialmente americano, ganhou espaço. O estabelecimento de instituições como o Tribunal Penal Internacional (que os Estados Unidos acabaram por não endossar) e doutrinas como a “Responsabilidade de Proteger” refletiram essa mudança. Eles aumentaram a capacidade do campo de direitos humanos de enquadrar a agenda internacional e estabelecer padrões globais.

Isso incentivou uma expansão no número de direitos básicos. Grupos aproveitaram a autoridade moral da ideia de direitos humanos para defender suas causas. Hoje, há apelos para que tudo, desde o acesso à Internet até a ajuda ao desenvolvimento e a educação universitária gratuita, seja um direito. Os trinta artigos modestos da Declaração Universal explodiram potencialmente em mais de mil cláusulas de direitos em acordos que muitos governos assinaram. Um artigo de 2013 da Foreign Affairsobserva com desapontamento que “grande parte da comunidade de direitos humanos não apenas se esquivou de expressar dúvidas sobre a proliferação de direitos, como muitas vezes liderou o processo.” Ao mesmo tempo, ativistas seguiram a abordagem seletiva da velha Antagonistas da Guerra Fria, promovendo alguns direitos e ignorando os outros.

Dado que os direitos individuais estavam ganhando ascendência, o papel das instituições sociais e de valores não individualistas foram menos enfatizados. Uma abordagem de tamanho único triunfou sobre a ideia de um padrão comum que poderia ser trazido à vida de várias formas legítimas. A indivisibilidade e interdependência dos direitos fundamentais foram esquecidas.

Alguns estados argumentam que assinaram compromissos legais em acordos internacionais, mas não em métodos uniformes de interpretação e implementação. Não existe, por exemplo, nenhuma razão pela qual os estados africanos não devam enfatizar a justiça restaurativa sobre a justiça retributiva; ou quanto aos Países da Ásia Oriental, os aspectos comunitários de suas culturas e políticas de desenvolvimento de seus estados; e quanto aos países do Oriente Médio, o papel da religião – desde que mantenham seus compromissos legais.

Muitos também se desencantaram com instituições supranacionais. Elas estão distantes das pessoas cujas vidas afetam. Elas não têm escrutínio público e prestação de contas, são suscetíveis a influências políticas e de lobby, e não têm controles e equilíbrios internos. Tanto o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas como o Tribunal Penal Internacional perderam a credibilidade através da aparência de preconceito. Estudiosos e figuras públicas criticam o tipo de pensamento sobre direitos humanos que eles consideram insuficientemente respeitosos das constituições nacionais, da legislação democrática e dos contextos locais. Como Eric Posner argumentou, os direitos humanos devem ser menos sobre um “modo de implementação de cima para baixo” que “requer mudanças massivas no comportamento da maioria dos países não ocidentais”, e mais sobre prestar atenção às “minúcias do contexto social”, com ênfase em “promover o bem-estar” de maneira humilde.

Quando tais desentendimentos vêm de regimes repressivos ou líderes comunais ditatoriais, eles são fáceis de descartar. Mas quando vêm de pessoas simpatizantes da causa dos direitos humanos, elas refletem algo mais fundamental. Em nossa opinião, as críticas de Amartya Sen, vencedor do Prêmio Nobel, de formuladores de políticas internacionais vão ao cerne do problema. No que diz respeito à conferência da ONU sobre a população do Cairo em 1994, Sen criticou aqueles que exibem “uma tendência a buscar soluções de emergência que tratem as pessoas envolvidas não como seres razoáveis… mas como fontes impulsivas e descontroladas de grande dano social, precisando de forte disciplina”.

Esses sinais de descontentamento refletem a paisagem geopolítica em mudança de hoje: os sistemas de valores, as ideias e as formas de organização da sociedade do sul e do leste – que são mais sociocêntricos e baseados na tradição, têm maior influência. O crescente poder econômico e político dos países asiáticos, africanos, do Oriente Médio e da América Latina questiona cada vez mais as instituições internacionais dominadas pelo Ocidente e as normas ocidentais globais. Nas Nações Unidas, por exemplo, o apoio às posições da União Europeia sobre direitos humanos começou a cair nos anos 90, enquanto o número de votos na Assembleia Geral, de acordo com a posição da China, começou a aumentar. A China, a Índia, a Indonésia, o Brasil, a Etiópia, a Nigéria, a Rússia, a Turquia, a Arábia Saudita e outros países já exercem uma influência maior, ou pelo menos comparável, em suas regiões do que o Ocidente. Suas normas políticas e sociais estão se espalhando para além de suas fronteiras, às vezes revertendo iniciativas e ideias ocidentais no processo.

A Freedom House relata que a democracia “está sob ataque e recuada em todo o mundo”. As medidas de direitos políticos e liberdades civis da organização registraram doze anos consecutivos de declínio. Enquanto isso, as organizações da sociedade civil financiadas por estrangeiros que promovem os direitos humanos são cada vez mais vistas de maneira suspeita. Isso é verdade não apenas em regimes autoritários como a Rússia, o Azerbaijão, a Turquia, o Sudão, o Egito e a Venezuela, mas também em democracias como México, Malásia, Nigéria, Hungria e Israel, que aprovaram leis que aprovam leis que regulam esses tipos de ONGs.

O Ocidente muitas vezes tentou usar uma abordagem baseada em direitos para resolver problemas que exigem tratamento mais abrangente e diferenciado. O fracasso das tentativas do Ocidente, por exemplo, de ajudar os países em desenvolvimento a superarem seus maiores desafios – conflito étnico, instituições fracas e crescimento excludente – minou a autoridade moral dos direitos humanos nos países onde é mais necessário. A corrida para as eleições em lugares como a Líbia e a República Democrática do Congo pouco fez para melhorar vidas; pelo contrário, contribuiu para persistentes violações dos direitos humanos. Como Michael Walzer, professor emérito do Instituto de Estudos Avançados em Princeton, argumenta: “A política deve às vezes substituir a justiça, fornecendo uma estrutura neutra dentro da qual uma vida comum se desenvolve lentamente”, produzindo maneiras de viver “negociadas” em vez de “impostas”.

Enquanto isso, dentro das sociedades ocidentais, a crescente divisão política e a diversidade ideológica ameaçam transformar a ideia de direitos, de um escudo que protege todos, em uma lança que grupos opostos lançam uns contra os outros.

Em países europeus como Noruega, Dinamarca, Suíça, Alemanha e França, há uma divisão crescente entre o Estado secular (apoiado por uma população majoritária secularizada) que busca direitos dos animais, direitos das crianças e não-discriminação, e grupos religiosos minoritários defendendo seus direitos de praticar sua fé. Grupos judaicos e muçulmanos, por exemplo, agora precisam defender a circuncisão – um antigo ritual integral às suas crenças – contra grupos de direitos humanos que a declaram ser uma violação do direito das crianças à integridade física. O amplo direito à liberdade religiosa no Artigo 18 da Declaração Universal, que inclui o direito de “manifestar” a religião em “ensino, prática, adoração e observância”, está sendo reduzido a ponto de significar apenas o direito de acreditar e adorar – não um direito de praticar e observar.

Nos Estados Unidos, a confiança em direitos e tribunais para resolver disputas encoraja uma atitude de “vencedor leva tudo”, em detrimento da tolerância e do compromisso. Enquanto a maioria das democracias introduziu políticas sobre assuntos controversos, como aborto e liberdades sexuais, por meio de legislação e compromisso, nos EUA elas foram frequentemente ditadas pelos tribunais, alienando assim partes da população e reduzindo o escopo para acomodações políticas.

Essas tendências podem minar uma das maiores conquistas do Ocidente: sua capacidade de tolerar diferenças e receber grupos minoritários. Em vez de fornecer um lar para uma grande variedade de pontos de vista e sistemas de crenças – incluindo dissidentes de pontos de vista tradicionais, a tradição positiva dos direitos humanos corre o risco de se tornar mais conformista e menos diversificada ideologicamente.

As perguntas que os redatores da DUDH enfrentaram são semelhantes às questões que enfrentamos hoje. Como os direitos podem ser considerados universais em um mundo de grande diversidade cultural e política? Qual é o papel da sociedade, do Estado e dos organismos internacionais na implementação desses direitos? Quanto espaço os países devem oferecer aos grupos minoritários para divergir dos conceitos majoritários sobre direitos? O que acontece quando um direito fundamental colide com outro?

Quatro grandes princípios que os elaboradores da DUDH seguiram podem revigorar a ideia de direitos humanos em nossos dias: a modéstia sobre quais direitos podem ser universais; pluralismo em trazer direitos à vida; interdependência de direitos básicos; e subsidiariedade.

Modéstia em relação à universalidade

Os autores sabiamente se limitaram a um pequeno conjunto de princípios tão básicos que nenhum país ou grupo os rejeitaria abertamente. Isso era essencial não apenas para obter amplo apoio político dentro da ONU, mas também para garantir que a Declaração tivesse apoio profundo e duradouro em diferentes culturas, sistemas de crenças e ideologias políticas.

Os padrões mínimos da DUDH, que mesclaram conceitos orientados para a comunidade e individualistas, ganharam aceitação de uma ampla variedade de países europeus, do Oriente Médio, da América Latina, da Ásia, comunistas, capitalistas, desenvolvidos e em desenvolvimento.

Universalismo flexível

A Comissão original de Direitos Humanos incluía pessoas de uma ampla gama de diferentes sistemas culturais, religiosos, econômicos e políticos. Os principais atores – notavelmente René Cassin, da França, Peng Chun Chang, da China, Charles Malik, do Líbano, e Eleanor Roosevelt, dos Estados Unidos – eram universalistas, mas não homogeneizadores. Eles criaram um documento que era flexível o suficiente para responder a diferentes necessidades, em termos de ênfase e implementação, mas não tão maleável que qualquer direito básico pudesse ser ignorado.

Eles conseguiram isso sintetizando e integrando conceitos de muitas partes do mundo. Alguns elementos se concentram no indivíduo, outros na comunidade e na sociedade. Alguns se concentram na liberdade, outros na solidariedade e no dever. A visão da liberdade é inseparável do apelo à responsabilidade social.

Os autores entenderam que sempre haveria formas diferentes de aplicar os direitos humanos a diferentes contextos sociais e políticos, e que as circunstâncias de cada país afetariam a forma como cumpririam seus requisitos. Os países em desenvolvimento têm menos recursos do que os países desenvolvidos. Os estados socialistas enfatizam prioridades diferentes das capitalistas. Os valores dos estados muçulmanos variam daqueles dos estados ocidentais. Os autores reconheceram que cada parte do mundo tem suas preocupações particulares. Esse é especialmente o caso dos direitos econômicos e sociais. O Artigo 22 da Declaração declara que esses direitos devem ser colocados em prática “de acordo com a organização e os recursos de cada Estado”.

Durante seu discurso na Assembleia Geral pedindo a adoção, Chang enfatizou que não havia um único modo de pensar ou viver. A uniformidade só pode ser alcançada pela força, ou à custa da verdade, e é insustentável.

Assim, os redatores da DUDH deliberadamente deixaram espaço para que diferentes estados experimentassem diferentes soluções. O Artigo 14, por exemplo, afirma que todos têm o direito de “buscar e gozar” asilo da perseguição, mas é omisso sobre como esse direito deve ser protegido. Esperava-se que os princípios férteis da Declaração fossem interpretados e implementados de várias maneiras legítimas. O filósofo francês Jacques Maritain, que apoiou o processo da ONU, explicou que isso permite que “tipos diferentes de música” sejam “tocados no mesmo teclado”.

Esse pluralismo flexível tem sido frequentemente reafirmado em documentos de direitos humanos, especialmente na Declaração de Viena de 1993, que afirma a universalidade dos direitos humanos, desde que “o significado das particularidades nacionais e regionais e de várias origens históricas, culturais e religiosas deva ser mantido em mente.” Precisamos da mesma flexibilidade hoje.

Interdependência dos direitos básicos

Os autores da Declaração Universal cuidaram para que ela fosse lida como um documento holístico contendo um pequeno número de direitos interdependentes que se reforçam mutuamente. Como a declaração do Ramsey Colloquium, publicada First Things sobre o quinquagésimo aniversário da DUDH, apontou: “Longe de afirmar uma coleção aleatória de direitos desconexos, a Declaração é um documento integrado que transforma um conceito da pessoa humana em comunidade, e a sociedade livre e justa requerida para o florescimento humano”.

Hoje, estamos tão acostumados a ver a DUDH como uma lista de garantias separadas que dificilmente alguém percebe que o documento tem uma estrutura, inclui deveres e direitos e deve ser lido como um todo. Ao isolar cada parte de seu lugar no design geral, as interpretações errôneas da Declaração facilitam o uso indevido. Conflitos de direitos são tratados como concursos de “o vencedor leva tudo”. São esquecidas as seções da Declaração que deixam claro que os direitos de todos dependem do respeito aos direitos dos outros, do estado de direito e de uma sociedade civil saudável.

Uma das maneiras mais certas de interpretar erroneamente – ou abusar – dos direitos humanos é pensar que qualquer direito em particular é absoluto, ou que todos os diversos direitos podem estar totalmente em harmonia uns com os outros. Pelo contrário, todo direito tem certos limites e existe dentro de uma constelação de outros direitos.

Os autores da Declaração não esperavam um gerenciamento uniforme de tensões ou conflitos entre direitos. Eles assumiram que as comunidades devem equilibrar o peso das reivindicações de um direito em relação ao outro antes de determinar o melhor curso de ação. Um punhado de direitos, no entanto, foi priorizado, rigidamente elaborado de modo a permitir pouca margem de variação. Elas incluem proteções para a liberdade de religião e consciência, bem como proibições de tortura, escravidão, punição degradante, medidas penais retroativas e outras graves violações da dignidade humana tornadas não-derrogáveis sob o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos.

Nosso desafio é recuperar o entendimento de que os princípios da DUDH deveriam funcionar juntos, em vez de se oporem uns aos outros – e resistir à noção de que qualquer direito básico pode ser ignorado.

Subsidiariedade

Os autores da DUDH reconheceram que, quando se tratava de direitos humanos, sempre haveria disputas sobre as responsabilidades relativas de organismos internacionais, governos nacionais e locais e da sociedade civil. Eles adotaram uma abordagem pragmática que hoje seria chamada de subsidiariedade. A subsidiariedade enfatiza a primazia do nível mais baixo de implementação que dê conta do serviço, reservando atores nacionais ou internacionais para situações em que as entidades menores são incapazes de abordar as questões de maneira adequada. Embora o princípio esteja claramente escrito em acordos internacionais de direitos humanos como o que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional, muitas organizações internacionais não desenvolvem as relações locais que são fundamentais para a garantia duradoura dos direitos humanos.

Os governos nacionais têm a obrigação final de cumprir seus compromissos de direitos humanos. Mas qualquer grupo na sociedade pode promover os direitos humanos. Dados os fracassos da abordagem centrada no Estado em muitas áreas dos direitos humanos – e tendo em vista a importância das normas sociais, relacionamentos e moralidade para a promoção dos direitos – é apropriado que a cláusula de proclamação da DUDH exija “todos os órgãos da sociedade” para promover o reconhecimento e a observância dos direitos humanos. Os mais importantes são nomeados especificamente: famílias, comunidades, grupos religiosos, locais de trabalho, associações, sociedades, culturas, nações e uma ordem internacional emergente.

A subsidiariedade procura determinar como os direitos humanos podem ser implementados de uma maneira que melhor se adapte a cada contexto. Embora existam casos em que abordagens internacionais ou centralizadas são necessárias, focar no nível local geralmente será a melhor maneira de garantir que os padrões da DUDH realmente penetrem na sociedade, atingindo o número máximo de pessoas possível. A subsidiariedade incentiva as instituições e processos locais a melhorar sua performance, em vez de esperá-lo de atores internacionais distantes.

Hoje, ativistas de direitos humanos declaram: “Veja só, esse é o modo como você precisa mudar para se juntar a nós”. Em vez disso, devem começar perguntando: “O que significa o florescimento humano em sua sociedade ou comunidade, e como podemos ajudar você a incentivá-lo?” Essa mudança de tom e perspectiva reduziria a resistência e o ressentimento e resultaria em um impacto maior. Mas também exigiria tornar o campo muito mais inclusivo para diferentes pontos de vista e culturas do que é agora.

Conquanto alguns possam afirmar que a abordagem universalista flexível que recomendamos é ineficaz de verificar – podendo até mesmo fornecer uma licença para – abusos de direitos, o inverso é verdadeiro. Uma compreensão modesta de quais direitos podem reivindicar ser universais, e uma abordagem pluralista para sua implementação, ganhará um apoio mais amplo do que estratégias excessivamente ambiciosas. A aceitação da interdependência e da indivisibilidade dos direitos básicos encorajará formas mais construtivas de responder aos confrontos de direitos. A subsidiariedade tornará o movimento internacional de direitos humanos mais influente e eficaz.

O projeto internacional de direitos humanos faria bem em avançar em direção a um novo objetivo popular, incontroverso e adequadamente ambicioso: a eliminação sistemática de um conjunto estreito de males para os quais existe amplo consenso em todas as sociedades. A base disso deveria ser o punhado de direitos priorizados e com pouca margem de flexibilidade pelos redatores da Declaração. A lista, que poderia ser aumentada através de negociações, deve incluir proteções contra o genocídio; escravidão; tortura; tratamentos ou penas cruéis, desumanos ou degradantes; medidas penais retroativas; deportação ou transferência forçada de população; discriminação baseada em raça, cor, sexo, idioma, religião, nacionalidade ou origem social; e proteção para a liberdade de consciência e religião.

Não é a ausência de leis que mais oprime os pobres e marginalizados em muitos lugares. Eles sofrem violência cotidiana, discriminação e corrupção apesar das leis. Nenhum sistema de regras e normas pode depender unicamente de tratados, leis e a força do estado. Somente uma cultura popular de direitos humanos pode tornar isso possível.

Em última análise, a promoção bem-sucedida dos direitos humanos depende da atenção às atitudes, ideias, valores, relacionamentos e instituições em que os indivíduos, as famílias e as comunidades estão inseridos. Como Eleanor Roosevelt colocou, documentos que expressam ideais “não têm peso a menos que as pessoas os conheçam, a menos que as pessoas os entendam, a menos que o povo exija que eles sejam vividos”. E estes, como ela disse em um de seus últimos discursos na ONU, dependem da implementação em uma multidão de “pequenos lugares”.

Mary Ann Glendon é a professora de Direito da Universidade de Harvard. Seth D. Kaplan é Professor Conferencista na Escola Paul H. Nitze de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins.

*CONTATO: ana.elisa.fortes@gmail.com

FONTE: Glendon, M.N, Kaplan, S. D., Renewing Human Rights. First Things, Feb 2019. Disponível na data desta publicação em: https://www.firstthings.com/article/2019/02/renewing-human-rights

TRADUZIDO E PUBLICADO COM PERMISSÃO DA REVISTA FIRST THINGS.


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