“COMO VOTAR COMO UM AMIGO DE DEUS”: um brevíssimo sermão político

Sigo com minha responsabilidade, que é menos a de comentarista político e mais a de cura d’almas. Bálsamos precisam ser aplicados nessas nossas feridas de cristãos-politizados. Então passemos a mais uma questão.

O modo certo de um Cristão votar: existe tal coisa?

Ora, em princípio o Cristão deveria votar como vota qualquer cidadão; pode-se dizer que ele tem mais do que todos a obrigação de votar o melhor que puder, posto que carrega o encargo do testemunho e o Nome de Deus, mas o melhor voto a seu alcance ainda será o melhor voto possível que um pagão será capaz de dar, informado pelo melhor juízo político, pelas melhores intenções morais e pelo maior compromisso republicano.

Mas nesse caso, o adjetivo “cristão” seria totalmente desnecessário.

Permitam-me insistir mais um pouco: o que poderia um voto Cristão apresentar, que o diferencie do melhor voto “pagão”? Há, na verdade, uma resposta: aquilo que falta ao voto pagão, que é a relação consciente com o Senhorio de Cristo.

Nesse ponto poderíamos admitir que essa relação consciente, se unida a um caráter maduro, a uma mente clara, e a uma intuição política privilegiada, talvez seja mesmo capaz de produzir um voto qualitativamente superior ao de um pagão. Pois munido de noções Bíblicas de poder, de justiça, de consideração pela dignidade humana e do sentido da história, o Cristão poderá, talvez, julgar melhor os aspectos ideológicos, morais e estratégicos do voto. Talvez, se além dessas boas qualidades, o eleitor dispuser de boa formação técnica em ciência política, os melhores exemplos pagãos caiam superados.

Tal seria, no entanto, pedir demais do presente momento. O juízo político da maior parte dos Cristãos não é suficientemente bem informado (até porque há, partindo das várias frentes da guerra política, uma multiplicidade de ações desinformativas) sobre quais são as questões mais importantes e sobre como hierarquizá-las. O nível de treinamento intelectual da massa Cristã não difere da massa Brasileira. E se há frequentemente entre Cristãos uma sensibilidade moral aguçada, falta por outro lado uma doutrina moral e social consistente na comunidade evangélica. Exemplo disso é o amplo desconhecimento do decálogo, a mais básica instrução moral da tradição judaico-cristã.

Isso não significa que a fé do Cristão particular não possa ter grande impacto positivo sobre o seu voto. Talvez esse voto ainda seja qualitativamente inferior ao melhor voto de seu vizinho agnóstico, mas ainda seja muito melhor do que o voto desse mesmo Cristão caso ele não fosse Cristão. Se a fé desse Cristão trouxe a ele maior integração existencial, maior responsabilidade moral e histórica, maior interesse por assuntos políticos, e até mesmo algumas categorias bíblicas válidas para o julgamento desses assuntos, podemos dizer que a relação consciente com Cristo pode melhorar a qualidade do voto, de um ponto de vista temporal.

E isso é verdade, ainda que essa melhora se traduza em um fato objetivo comparável ao voto de um vizinho agnóstico que, sendo melhor cidadão e agente político que o Cristão, votaria tecnicamente melhor do que este de qualquer jeito.

Mas consideremos o que o Cristão pode fazer em distinção ao pagão; aquilo que ele pode fazer para além dos recursos da carne, aquilo que faz diferença. Aqui, sim, entramos em outro terreno!

AONDE ESTÁ A DIFERENÇA

O Cristão pode operar a partir das virtudes teologais, da fé, da Esperança e do amor; pode desiludir-se mais completamente do desempenho dos políticos e dos eleitores, por conhecer a profundidade da Queda; pode ler diferentemente a história, pela consciência, gerada pelo Espírito Santo, de que em Cristo a história atingiu seu telos e sua conclusão substancial. No centro de tudo: pode ter, pelo auxílio da graça, um outro Coração.

Tendo outro coração, pode recusar-se a violar o primeiro e o último mandamento do decálogo: o primeiro, de ter outros deuses, e o último, de cobiçar as coisas. Ele pode, então, furtar-se de idolatrar instituições políticas como o Estado; ou ideologias como o liberalismo e a democracia; ou agentes políticos como o partido e o candidato X. E pode também evitar o outro lado da moeda da idolatria política: a concupiscência política, que é a ânsia, o desespero, a euforia desmedida e o desânimo arrasador.

Essa cobiça segue visível: na empolgação desmedida com o candidato que pode vencer, ou o partido que cresce, ou a ideologia; com o desejo de obter poder para controlar, ao invés de oportunidades de serviço. Com esse desejo imenso podemos até mesmo rejeitar o resultado das eleições, ou ter como propósito máximo ganhar o poder independentemente das eleições.

o outro lado da moeda da idolatria política é a concupiscência política

E essa cobiça nos levará à guerra:

1De onde vêm as guerras e discórdias que há entre vós? Será que não vêm dos prazeres que guerreiam nos membros do vosso corpo?
2Cobiçais e nada conseguis. Matais e invejais, e não podeis obter; brigais e fazeis guerras. Nada tendes porque não pedis.
3Pedis e não recebeis, porque pedis de modo errado, só para gastardes em vossos prazeres.
4Infiéis, não sabeis que a amizade do mundo é inimizade contra Deus? Portanto, quem quiser ser amigo do mundo se coloca na posição de inimigo de Deus.

Tiago 4.1-4

Isso nos leva ao meu primeiro ponto: o Cristão, por adorar a Deus, exclusivamente, e por sofrer a faca da circuncisão em sua cobiça, tem a possibilidade de não ser amigo do mundo. Essa é uma posição difícil. Como não ser amigo do mundo? Sim, claro, é preciso ser amigo de Deus; mas Tiago aproxima-se da sua vítima por trás; vê-se que vocês não são amigos de Deus mas sim do mundo, porque vocês não passam de pessoas frustradas.

NÃO SEJA O ELEITOR FRUSTRADO

Os cobiçosos são pessoas terrivelmente frustradas porque seus sonhos parecem irrealizáveis e, não podendo lançar seus dardos contra Deus, entram em guerra com os idiotas. E os idiotas são nossos irmãos, parentes, vizinhos, concidadãos. A cobiça indomada é o animal raivoso que chora, rosna e late, “morto” de frustração.

Às portas das eleições, vemos muitas denúncias proféticas que são certamente necessárias. Mas além dos profetas, vemos outras coisas: irmãos iracundos, “pondo nomes” nos eleitores de opinião diversa, e até mesmo nos indecisos.

Sim, é legítimo o gesto de defesa de quem entende ser certo partido ou certo candidato uma grave ameaça nacional. Mas o Cristão não está desculpado de imitar a Cristo quando resiste aos inimigos de Cristo. E muito menos está autorizado a combater Satanás com as armas de Satanás: notícias falsas, desinformação, palavrões, trollagens, assédios morais, destruição da imagem e da reputação, manipulação sentimental da raiva e do ressentimento.

Pois isso são as “guerras”; nessas coisas guerreamos e matamos. E a causa dessas guerras é a concupiscência, o desejo de controlar o mundo e a vida, de fazê-lo moldar-se à minha própria imagem. Amigos do mundo são os cobiçosos frustrados e, por isso, enraivecidos; e insistindo nisso, não podem compreender o amigo de Deus.

O AMIGO DE DEUS

Este é o que conhece a única solução para essas guerras: levar à cruz a cobiça, desistir de controlar o mundo, reconhecer o Senhorio de Cristo, para tornar-se um servo do mundo e um amigo de Deus.

Abraão é o amigo de Deus! Porque ele se dispôs a caminhar, não apenas para frente, mas para cima. Abraão buscava a cidade que tem os fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e construtor, e não a mera polis terrena.

Parece belo, mas Abraão teve que pôr a faca no pescoço de seu próprio Filho. E assim entendemos que o homem é circuncidado quando a faca da cruz corta o seu coração de pedra e o faz sangrar, e em seguida a operação contínua da cruz, de fé em fé, o leva ao ponto de tomar com as próprias mãos a faca e circuncidar-se: circuncidar-se de seus sonhos, de sua terra, de seu filho, de seu candidato, de seu partido, de sua ideologia, de sua relevância histórica, de sua  importância histórica.

Ter Isaque mas não tê-lo; tê-lo como se não tivesse e, então, tê-lo verdadeiramente: essa é a estratégia do “como se não”.

VOTE “COMO SE NÃO”

Peço licença ao leitor para relermos um famoso texto paulino. Ou melhor; para reaplicarmos esse texto paulino ao momento presente. Contenha o estranhamento e medite nessas palavras:

29Irmãos, digo-vos, porém, isto: O tempo se abrevia. Assim, os que têm candidato, vivam como se não tivessem;
30os que choram a derrota política, como se não chorassem; os que se alegram com a vitória política, como se não se alegrassem; os que votam, como se não votassem;
31e os que são cidadãos brasileiros, como se não o fossem, porque a forma deste mundo passa.

1Coríntios 7.29-31

Como alguém pode “fazer” algo como se não o fizesse? Votar como se não votasse? Militar como se não militasse? Ora, fazendo todas essas coisas com plena consciência de sua efemeridade, de sua transitoriedade.

Note – preciso destacar – que Paulo não propõe a inação. No texto virgem os assuntos citados pelo apóstolo são o comprar, o vender, o usar das coisas desse mundo, o rir, o chorar… Todas essas coisas devem ser feitas, e bem feitas. Mas seu coração não pode ser capturado por elas. Não pode estar aderido ao candidato, ao modelo político, à ideologia, ao partido, ao momento histórico. Certa transcendência deve ser sentida.

Sim, isso seria um pathos político inaceitável, quase inútil à política secular. “O que fazer com um militante que não aposta tudo na causa?” Mas, meu irmão… se você aposta tudo na causa secular, o que restará para a Causa de Cristo?

Na fé, na Esperança e no amor, nossas paixões políticas deverão ser desinfladas, desinflamadas, acalmadas, pacificadas. Elas deverão tornar-se proporcionais, belas, ajuizadas. Pensaremos com mais clareza, teremos mais paciência, ofenderemos menos uns aos outros. Participaremos do processo político com corações menos cobiçosos, menos assassinos, mais divinos.

Seremos menos amigos do mundo, e mais amigos de Deus.

 

 

 

 

 

 

 

2 comentários em ““COMO VOTAR COMO UM AMIGO DE DEUS”: um brevíssimo sermão político

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  1. Ótima reflexão Gui ! Muito oportuna e sábia para esse momento (semana) que vivemos como cristãos e nação. Que o Senhor de a nós Cristãos essa serenidade e lucides politica.

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