Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão Político sobre a Coragem, em um tempo de medo

Qual é tarefa da igreja Cristã Brasileira neste momento, em meio ao presente turbilhão político que engolfa o país?

Tarefas há muitas; incontáveis, considerando o pequeno serviço que cada filho de Deus precisa oferecer. Mas há uma tarefa especial que a igreja precise realizar agora?

Um forte candidato é o posicionamento político. É preciso escolher um lado e lutar; o lado certo, e lutar. Isso seria coragem.

Coragem: pela “Ordem Democrática”

Uma parte dos cristãos conscientes acredita que a tarefa presente é: impedir um retorno do autoritarismo e a vitória do espírito reacionário encarnado por Jair Bolsonaro. Para estes o “capitão” deve ser parado a todo custo; os mais sóbrios apostam quase quixotescamente em Marina, ou Amoedo, ou até no Centrão, mas boa parte ainda delira o delírio lulopetista. E é bem possível que o homem-maior-que-as-instituições, o homem-ideia retorne.

Mas no momento há um novo homem supra-institucional ganhando o imaginário popular; a opção B dos eleitores bolsolulistas, e o terror da esquerda evangélica.

Bolsonaro é lido por estes como a “ameaça fascista”. O manipulador populista dos medos conservadores da população e da crise institucional do Estado, arauto da repressão violenta, do desrespeito às minorias oprimidas em geral (o agora tradicional “racista-machista-homofóbico”), e do desprezo à dignidade humana representado, por exemplo, na tolerância à tortura e à violência policial. Apesar dos 28 anos de quase insignificante vida pública, ganhou a imagem de um outsider, um agente carismático externo e superior ao establishement político. E contrariando seu próprio histórico legislativo, assumiu um discurso econômico liberal, oferecendo uma síntese liberal-conservadora. Tudo o que a esquerda brasileira odeia.

Essa combinação – radicalismo conservador, postura aparentemente supra/anti-institucional associada ao capitalismo liberal e baixa consciência da dignidade humana – nos fazem temer uma perigosíssima falência institucional, com as desgraças associadas do militarismo e até da guerra civil (ninguém fala nisso, mas todo mundo pensa).

Na última semana um grupo de pastores lançou um manifesto contra Bolsonaro. E um pastor famoso do Rio chegou a convidar à saída da igreja os eleitores convictos do “capitão”. Entre meus conhecidos, ouvi mais de uma vez o argumento de que o voto em um torturador seria anticristão.

Coragem: pela “Ordem Moral”

Outra parte do eleitorado Cristão entende que estamos à beira de outro autoritarismo: o lulopetismo, através do avatar Haddad. Certamente não um autoritarismo dos valores tradicionais e do militarismo, mas o autoritarismo do politicamente correto, dos direitos afetivos, das políticas de identidade, do aborto, do controle estatal da moralidade e do aparelhamento das instituições, especialmente do judiciário e das universidades.

E antes que alguém negue, isso existe sim. Um amigo pessoal que pleiteava uma promoção no sistema público de educação foi informado extra-oficialmente que só membros do Partido dos Trabalhadores receberiam promoções naquele período. Isso foi há três anos. E quase todo mundo tem um exemplo semelhante.

É por isso que, mesmo o mais moderado conservador, simpático o quanto for à causa dos defensores da Ordem Democrática sobre o perigo do autoritarismo à direita, nem esforçando-se pode evitar o fato de que foi a aliança entre Lulopetismo e PMDB a mais corrosiva força, na história recente, para as instituições democráticas do país. Assim, zelar pelas instituições não significa, automaticamente, virar à esquerda.

Enfim, tanto conservadores moderados quanto a ultradireita concordam, grosso modo, quanto a esses perigos à esquerda; mas além disso uma parcela indefinida da direita evangélica e católica entende que Bolsonaro é a nossa única chance contra essa ameaça.

Trata-se sem dúvida duma batalha por segurança estrutural; há a questão seríssima da retomada do crescimento econômico com seus problemas associados: reforma da previdência, tributária, redução/aumento de impostos, geração de empregos, etc. E a questão intratável da segurança pública, com seus problemas associados: violência policial, desmilitarização das polícias, corrupção, salários baixos, sistema prisional, liberação do porte de armas, maioridade penal. O povo deseja um Brasil sem fome, mas também deseja um Brasil no qual se possa ter expectativas mínimas de segurança: que consiga sair de casa para trabalhar e tenha um lugar aonde trabalhar.

O povo não quer brigar com o patrão; quer que o Estado combata o bandido e vigie o patrão. Mas a esquerda quer brigar com o patrão e conscientizar o bandido. A única segurança que consegue conceber é a segurança alimentar; está paralisada.

Para esse setor conservador, o enquadramento maior da batalha é certamente moral; a Nova Esquerda reordenou suas prioridades ideológicas submetendo a agenda histórica da economia política socialista ao dogma absoluto do liberalismo possessivo ou, como alguns o denominam agora, o individualismo expressivo: a doutrina segundo a qual a bússola do progresso histórico é o reconhecimento do indivíduo e sua auto-expressão autêntica.

Esse ideal não é uma exclusividade da esquerda; trata-se do princípio emancipacionista moderno, a bandeira da liberdade, mas em sua mais recente encarnação expressivista e autocentrada, culminando no que Philip Rieff chamou de “Homem Psicológico”, e que eu costumo chamar de Homo Sentimentalis: esse indivíduo que tem como bússola política o desejo de “ser agradado” e de se expressar como indivíduo. Esse princípio é sustentado por e absolutamente dependente do capitalismo de hiperconsumo (Lipovetsky) contemporâneo.

a nova esquerda “real” apenas acelera os processos revolucionários do capital, dissolvendo todos os valores e instituições e submetendo toda a existência à inexorável lógica consumista

É isso o que você ouviu: não passa de mais capitalismo. Considere o liberalismo moral defendido por gente como a filósofa Márcia Tiburi e a candidata Manuela D’Avila, com sua curiosa esperança modelo 68′ de que a sociedade será revolucionada por um extravasamento libidinal. Uma consulta, por exemplo, à obra “Cheap Sex” de Mark Regnerus (OUP) seria muito esclarecedora; a revolução sexual e o feminismo tornaram-se, sem o saber (de novo, a ironia sociológica dos efeitos não-intencionados), agentes da desregulamentação dos mercados afetivo-sexuais e, assim, da expansão da lógica do capital para a moral sexual e para o ordenamento familiar. Sendo que nesse laissez-faire “amoroso”, as partes sistematicamente exploradas e desamparadas são a própria mulher e a criança pobre. À exceção, claro, das mulheres duronas e poderosas; aquelas, você sabe, parecidas com… os homens.

Meu corpo, minhas regras!” Sim, a esquerda feminista tornou-se um capacho moral do mercado. Complementam direitinho os comerciais de automóveis que glamourizam exatamente esses valores associando-os à juventude e à felicidade.

É por isso que políticos como o ex-comunista Aldo Rebelo se afastam dessa esquerda identitária, sentimental; trata-se de uma espécie de zumbi ideológico, um morto-vivo, uma China moral; uma combinação de “dois sistemas”: economia política socialista e economia afetiva capitalista. Mas ao final, a nova esquerda “real” apenas acelera os processos revolucionários do capital, dissolvendo todos os valores e instituições e submetendo toda a existência à inexorável lógica consumista. E não haverá fim nenhum nessa dança dialética, exceto o fim da civilização.

Os conservadores querem frear ou até reverter essas tendências suicidas asfixiando o suporte político e econômico a políticas de Estado destinadas a promover a felicidade narcisista do Homem Psicológico, que reduzem o poder parental nas famílias, substituem-nas pela escola como principal instrumento de formação moral, e legitimam disforia de gênero, liberalismo moral, aborto e eutanásia.

Ao lado dessas expectativas antiprogressistas encontra-se também uma sede de restauração da justiça retributiva, incidindo fortemente sobre o entendimento da segurança pública e do direito penal.

A essa altura o leitor pode ter notado minha simpatia pelo olhar conservador. Admito: concordo substancialmente com ele. Isso seria assunto para outro post, mas fui – embora já antes convencido – duplamente convencido pela investigação do psicólogo experimental Jonathan Haidt, apresentada ao público em “The Righteous Mind”, de que o leque de considerações morais que anima a leitura da realidade por conservadores moderados é mais holístico e rico do que o de liberais progressistas (a esquerda, no Brasil), libertários e ultraconservadores. Penso que, no cômputo final e no momento histórico presente, o melhor para o Brasil encontra-se em uma direção conservadora.

Mas não posso acolher ilusões a respeito desse candidato. Se, por um lado, ele é capaz de catalisar o eleitorado em uma direção conservadora, a qual eu aprovo em termos gerais, ele consiste de um simulacro do conservadorismo. Ele não corresponde ao que representa, e se mostra tolerante com coisas absurdas como a tortura. Essa é a dissonância: a esquerda vê o que ele é, e a direita, o que ele pode ser.

O problema é que ambos têm certa razão. “Ele é um falastrão e sustentou posições extremistas, mas mudou!”, dizem os mais simpáticos. Ao que ouvem: “Que esperança pode haver em elegermos o admirador da tortura?”

Vale dizer: o esquerdista, especialmente o cristão, quer gritar isso aos ouvidos do eleitor conservador, mas é inútil; ele não ouvirá a você, esquerdista crente, que se acovardou e foi pulsilânime na recusa ao aborto, às políticas de identidade e ao liberalismo moral, tratando essas polêmicas como moralismos irrelevantes. Alguns pastores engajados do Rio de Janeiro precisavam tanto entender isso! A massa evangélica não os levará a sério, porque eles não a levam a sério.

E, por conta disso, estamos ambos surdos. Pois Bolsonaro pode, por um milagre, tornar-se o representante da posição conservadora. Mas no momento, tudo o que ele consegue ser é um anti-lula. Mas não ser certo anticristo não torna você um Cristo. E isso também é vaidade, e correr atrás do vento.

A resposta que ouvi a essas objeções? “Blá blá blá de teólogo!”, “Como cientista político, você é um bom teólogo!”. Então seria essa a luta da igreja, neste momento, escolher corajosamente um lado, ser “frio ou quente”?

Permitam-me então passar ao blá blá blá teológico e pastoral, que é a minha especialidade.

Outra Coragem

Nos últimos domingos temos refletido sobre o livro bíblico dos Atos dos Apóstolos, na Igreja Esperança. Nos capítulos 3 e 4 do livro encontramos essa fabulosa história da cura miraculosa de um paralítico, por Pedro e João, à porta do Templo dos Judeus em Jerusalém. A cura causou uma enorme comoção, e foi seguida por um agudo sermão por Pedro convocando os judeus ao arrependimento e à fé em Jesus Cristo (Atos 3.11-26), e por um grande número de conversões (Atos 4.4).

Isso deixou a elite religiosa judaica muitíssimo irritada, e Pedro e João foram presos para prestar “esclarecimentos”. Interpelados, não apenas “confessaram”, mas testemunharam de Jesus Cristo. E o que impressionou seus acusadores, segundo o testemunho de Lucas, autor do livro, foi “a coragem de Pedro e de João” (At4.13). A coragem para curar, para falar publicamente em nome de Jesus, para testemunhar diante das autoridades e, depois de proibidos de anunciar a Cristo, a coragem para dizer:

“julgai se é justo diante de Deus dar ouvidos a vós, e não a Deus, pois não podemos deixar de falar das coisas que vimos e ouvimos” (Atos 4.19-20).

Aí está o que precisamos: coragem. Mas que coragem é essa? Mais do que a coragem de “posicionar-se” num sentido genérico ou mesmo especificamente político, mas a coragem de posicionar-se por Deus e pelas coisas que ele fez. Mais do que a coragem geral quanto ao que pensamos, de nossa própria cabeça, que seria melhor para nós, para o nosso país, ou para o mundo, uma coragem sobre as questões supremas. Não digo que a coragem seja desnecessária nesses outros contextos; mas a coragem, aqui, é uma coragem específica, enraizada em algo mais sólido que as urgências do momento ou meus palpites futuristas.

E isso fica muito mais claro no momento seguinte quando, libertados da prisão, Pedro e João se encontram com seus companheiros Cristãos e eles decidem orar juntos. E sua oração, registrada em Atos 4, é admirável:

(24) Ao ouvirem isso, todos juntos elevaram a voz a Deus, dizendo: Senhor, tu que fizeste o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há; (25) que, pelo Espírito Santo, disseste pela boca de nosso pai Davi, teu servo: Por que os gentios se enfureceram, e os povos imaginaram coisas vãs? (26) Os reis da terra levantaram-se, e as autoridades aliaram-se contra o Senhor e contra o seu Ungido.
(27) Pois, nesta cidade, eles de fato se aliaram contra o teu santo Servo Jesus, a quem ungiste; não só Herodes, mas também Pôncio Pilatos com os gentios e os povos de Israel; (28) para fazer tudo o que a tua mão e a tua vontade predeterminaram que se fizesse.
(29) Agora pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que falem a tua palavra com toda coragem, (30) enquanto estendes a mão para curar e para realizar sinais* e feitos extraordinários pelo nome de teu santo Servo Jesus.
(31) E, quando terminaram de orar, o lugar em que estavam reunidos tremeu. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e passaram a anunciar com coragem a palavra de Deus.

Considere a situação que os angustiava: a recusa violenta, pelas autoridades judaicas e gentílicas; judeus e romanos mancomunados contra o Messias. Essas autoridades não apenas mataram Jesus, mas oferecem uma frente articulada contra o evangelho de Jesus Cristo. O contexto é, claramente, o de crise e derrota política. Os poderosos querem cortar a língua da igreja Cristã.

Esse trecho tem algo a dizer para qualquer situação em que a verdade sobre Deus e Cristo seja suprimida ou distorcida por autoridades. Podemos nos desesperar diante delas, e planejar uma tomada do poder. Eu não diria que isso é sempre ilegítimo; como John Witte Jr. Mostrou em “The Reformation of Rights” e, antes dele, Michael Walzer em “The Revolution of the Saints”, a Reforma protestante realmente deu uma contribuição crucial às teorias de revolução e à equilibração entre direitos da pessoa e soberania do Estado.

Mas aqui temos outra coragem, anterior à coragem revolucionária. Uma meta-coragem, se o leitor quiser. Trata-se da coragem de Ser; uma coragem que não pode ser movida por ressentimento, ou desespero, ou por ânsias apocalípticas. Uma coragem divina, positiva, desinteressada, capaz de entregar a vida, alegre, expressiva. Uma coragem mais entusiasmada com a glória do ressuscitado e com a esperança da imortalidade do que revoltada com Herodes, Pôncio Pilatos, Ulstra, Lula, ou seja quem for.

Considere com atenção a leitura da história que esses rebeldes fazem: eles não entendem a perseguição de Jesus como um acidente histórico, como uma tragédia resultante de erros políticos, eleições fraudadas ou votos irresponsáveis, ou uma injustiça que precisamos imediatamente reverter. Sim, foi um crime; mas o que os poderosos fizeram foi o cumprimento da vontade do “Soberano Senhor” que fez o mundo e profetizou por meio de Davi. O que as autoridades judaicas e romanas fizeram foi cumprir o que a mão e a vontade de Deus predeterminaram (Atos 4.28).

Não, os cristãos primitivos não eram deterministas históricos ou muito menos quietistas. Mas eles lêem o Kairós, o momento oportuno, tendo como enquadramento máximo a soberania benigna de Deus, mesmo que oculta na crise histórica e mediada pelo sacrifício do seu escolhido.

os cristãos primitivos … lêem o Kairós, o momento oportuno, tendo como enquadramento máximo a soberania benigna de Deus

Coragem, nesse contexto, significa outra coisa que autoconfiança ideológica e oportunismo político.

E isso se vê no restante da oração, quando o povo pede a Deus auxílio: “olha para as suas ameaças e concede aos teus servos que falem a tua palavra com toda coragem”.

Eu compreendo – e digo isso aos camaradas mais conservadores, como eu mesmo – que o momento exija voto consciente e resistência ativa à onda historicista e emotivista representada por essa nova esquerda doente, ainda mais doente que a antiga esquerda. O momento exige, sim, resistência inclusive política a essas tendências.

Mas será que compreendemos a própria crise como providência divina?

Uma Estranha “Providência”

Sim, uma providência deveras estranha. Se Deus quer que preguemos o evangelho e discipulemos as nações, porque permite essas horrorosas tendências como o abortismo, a normalização da disforia de gênero, o emotivismo moral, a liberação sexual, o enfraquecimento da família, etc, etc, etc, e tudo isso associado a um esforço sustentado e intencional de remover a fé Cristã da esfera pública?

A igreja antiga tinha uma hermenêutica própria para lidar com isso: “Só pode haver uma resposta: Deus quer que tenhamos coragem. Então vamos pedi-la.” Eles pediram, e receberam. Receberam o dom do Espírito, para anunciarem com coragem a palavra de Deus e esperar o socorro dos sinais divinos em nome de Cristo (Atos 4.29-31).

Uma diferença sutil, mas profunda o suficiente para separar o céu do inferno: a igreja não se “posicionou” porque estava desesperada, cheia de ressentimentos, obcecada por uma mudança política, consumida por um ativismo apocalíptico. A oposição das forças políticas do saeculum levou a igreja à oração e à missão. A resposta da igreja à politicagem satânica não foi, em primeiro lugar, mais atividade política; ela buscou mais Espírito.

Alguns verão isso como “escapismo”. Mas se você conhece o Cristianismo, sabe que os Cristãos fazem diferença quando se lembram que sua pátria está nos céus e, exatamente por isso, deixam de se embebedar com utopias históricas. E por isso, sóbrios, podem se tornar servos de Deus no mundo – na política, a ciência, na arte, no serviço social, seja onde for. O cristão faz mais diferença quando cessam os arroubos de desespero e emerge o ministro da Esperança, que vive a síntese entre o “Secular” e o “Sagrado”.

Essa é a fé Abraâmica: só pode ter Isaque quem é capaz de entregá-lo. “Buscai em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça… e todas as coisas vos serão acrescentadas”, disse um certo judeu.

A verdadeira luta da igreja diante das crises políticas e das tentativas de cerceá-la é a luta para continuar sendo a igreja. E quando ela é a igreja, ela é maior. Maior que o império Romano. Meu irmão, você está com medo do PT? De Bolsonaro? Deixe-os. Mal sabem que não passam de anões históricos. Cristo rege o destino do mundo, e a igreja está à sua direita. Essa mulher frágil parece impotente diante dos processos políticos, mas sua mensagem já desviou a marcha da história em direção à reconciliação final e inevitável.

preferir o que serve à eficiência política, o que garante os resultados políticos – isso é a doutrina de Maquiavel, e não a doutrina de Pedro

O ponto de partida, então, para nos posicionarmos diante do mundo é nos posicionarmos diante de Deus, e por Deus. E posicionar-se por Deus não é se transformar num cavaleiro Templário do século 21, mas tornar-se um Cristão missional. A fé na estranha providência divina deve acalmar nosso coração e nos tornar serenos o suficiente para discernir qual o serviço e o sacrifício precisamos encarar, e só então conferirmos as agendas históricas. Sendo bem direto, sua mente precisa ser limpa da maconha ideológica antes que você sirva ao reino de Deus, e sirva politicamente, inclusive.

A Coragem que Deus quer, Agora

Procurarei ser o mais claro possível: a luta política contra uma tendência histórica anticristã é legítima para o Cristão… mas na exata medida em que se dá num enquadramento maior, não apenas moral, mas espiritual e  vocacional. A questão não é vencermos as autoridades anticristãs; a questão é darmos um testemunho mais claro e firme em nossa geração. É o explicarmos melhor para o povo e as autoridades. É não meramente oferecermos acusações contra autoridades ímpias e injustas, mas demonstrarmos melhor o evangelho. É o que James Davison Hunter chamou, na obra “To Change the World”, de “presença fiel”.

Se o Senhor nos pressiona com inimigos políticos do evangelho, que tarefas ele exige de nós, aqui? Não, em primeiro lugar, buscar o que serve à eficiência política, o que garante os resultados políticos – isso seria a doutrina de Maquiavel, e não a doutrina de Pedro –  mas o que serve à marturesis, ao Testemunho. Pois o centro nervoso da política da igreja é a missão da igreja.

É a missão da igreja o que reduz a política dos homens, inflada como é, às suas verdadeiras proporções, e levanta do pó aquilo da qual a política e os poderes são os servos: a vida comum. Certamente isso significa, agora que ele quer que desenvolvamos, por exemplo, redes de assistência a mulheres grávidas, para que não abortem; que construamos refutações acadêmicas e populares dos valores da revolução afetiva e das políticas de identidade; que desenvolvamos abordagens pastorais para os jovens na era da meta-reflexividade, como a descreve Margaret Archer; que tenhamos associações de juristas Cristãos conscientes trabalhando em equipe; que incentivemos um movimento de responsabilidade social entre empresários Cristãos; que apoiemos medidas de larga escala contra a corrupção; que plantemos mais igrejas para alcançar universitários; que tenhamos consultas teológicas sobre a ideia judaico-cristã de “justiça”; que tenhamos melhor treinamento evangelístico em nossas igrejas; que invistamos em consciência apologética; que pratiquemos mais hospitalidade; que financiemos youtubers e influencers que não deixam a consciência histórica afogar a consciência do Eterno, e assim por diante.

o centro nervoso da política da igreja é a missão da igreja.

Nada disso exclui a coragem do posicionamento político, a que aludimos no princípio dessa fala. Posicione-se da melhor forma que puder, em defesa da Ordem Democrática Institucional, e em defesa da Ordem Moral que é a ambiência necessária às instituições. Mas aqui sua coragem deve ser proporcional à realidade; afinal, confiar no próprio entendimento é soberba, e julgamentos políticos estão entre os mais incertos e enviesados que conhecemos.

Lembre-se: essa “coragem” é a que todo cidadão deve exercitar. Não passa de sua obrigação; é falível e passível de revisão. Essa “coragem” não distingue você de um eleitor islâmico, ateu, militante lgbt, feminista, espírita ou ultraconservador.

Mas há outra coisa que só você pode fazer como Cristão: assumir aquela instância supraistóica, ver a política sub specie aeternitatis; ser e fazer o que apenas os amigos de Jesus Cristo conseguem compreender, pregando o evangelho e demonstrando esse evangelho em atos concretos de serviço.

E sob essa perspectiva, de um Deus politicamente onipresente, você talvez tenha mais clareza até mesmo para julgar melhor o espectro político, e decidir melhor como servir aos homens, considerando as instituições, o povo, a moral, a justiça, a liberdade, e todos os valores que fazem rica a vida humana. Sem obsessões, sem hipertrofiar ou diminuir um dos valores, sem desesperar-se.

Então, meu companheiro conservador; você que trocou a imagem de seu perfil pela imagem de Jair Bolsonaro – ou seja de quem mais: você orou pedindo coragem para ser mais cristão, para ser mais cheio do Espírito Santo, e para anunciar o evangelho? Ou você se tornou corajoso apenas para schwarmings em redes sociais e para retuitar palavrões contra seus inimigos políticos? Você tem orado pedindo a Deus sinais e maravilhas para vindicar o Filho ou ainda pratica o culto do Sebastianismo político? Você pede a Deus milagres e oportunidades de serviço transformador ou pede outro messias?

Se Deus nos dá um mundo que rejeita o nosso evangelho, nossa resposta principal não pode ser simplesmente “mais política”; será, antes, mais Espírito e mais Evangelho.

E é o que você fará, se Ele lhe der coragem.

VEJA TAMBÉM: A ONIPRESENÇA POLÍTICA DE DEUS

8 comentários em “Conselho ao Eleitor Cristão: Um Sermão Político sobre a Coragem, em um tempo de medo

Adicione o seu

  1. Caríssimo, exato, desde quando conseguimos identificar o caos já instalado no país, cobravamos da Igreja uma posição mais firme, bíblica. Porém, esta posição não veio, ficamos “esperando Godot”. Agora, aos 45 do segundo tempo, temos uma enxurrada de manifestações e teorias.
    Não tínhamos dúvidas, e sempre pedimos ao Senhor que despertasse a Igreja neste sentido. Nada…
    Ainda creio que o Senhor continua nos pedagogiando…
    Continuemos em oração!
    abs fraternos!

    Curtir

  2. Ativismo político faz parte do jogo. Contudo, no Brasil polarizado de hoje, virou jogatina. Como eu gostaria de assistir o entusiasmo militante pró-Bolsonaro (“direita”) ou pró-PT (“esquerda”) canalizado com a mesma força para o evangelismo, oração, piedade e meditação na Palavra. Nossa resposta ao mundo que nos rejeita será com mais oração e menos panfleto.

    Curtir

  3. Excelente explanação, tenho consciência que tenho de estar em oração esperando naquele único que pode nos dar solução, meu Deus! Mas o que fazer até lá? Votar em branco e deixar as águas rolarem, votar em alguém ligado à esquerda e me preparar pra viver em uma Venezuela, ou votar (e claro, fazendo campanha pró, pois creio ser nossa atual tábua de salvação) em um candidato que não é o melhor, mas o único que pode te dar uma esperança de dias melhores???

    Curtir

  4. Excelente reflexão, pois nós já temos um Messias e um Salvador, que é o Senhor Jesus Cristo, nossa identidade é de Igreja do Senhor Jesus, não de simpatizantes de direita, esquerda ou centrão. Seja lá qual for o próximo governante, ficará o tempo que Deus quiser e sucumbirá se ousar se levantar com o Senhor Jesus e contra a sua amada igreja, que de acordo com Efésios 1, final do capítulo, é a plenitude daquele que cumpre tudo em todos.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

WordPress.com.

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: