O Fantástico e a “Cura Gay” – Agora, direto da Rússia!

Na última reportagem-propaganda do Fantástico sobre o sofrimento de homossexuais no mundo – com o fim, sempre, de promover o movimento LGBT+ e alfinetar a “Cura-Gay”, fomos apresentados a um comovente relato da repressão contra essas pessoas na Chechênia, associado a uma linha de argumentação curiosa em favor da normalidade da conduta homossexual (incrivelmente, mencionando a existência de comportamentos “homossexuais” na natureza como “prova” de que tal comportamento seria “natural”).

Essa combinação é muito interessante: apelo emocional elevado, argumentação problemática. Mas os furos da argumentação “não importam, ora!” – como notei em mídias sociais – o que importa é a causa: lutar contra a homofobia, proteger os homossexuais, combater… essas pessoas malignas que os oprimem.

Vamos examinar a combinação explosiva: um argumento que oculta a natureza do problema e a mineração sentimental de capital político.

PRIMEIRO, O ARGUMENTO:

A divergência moral é condição suficiente para a violência?

Em bom português: Não.

Assim como podemos nos indignar com a opressão de pessoas de outra religião – como a perseguição aos Yazidis por radicais islâmicos, por exemplo – SEM concordar com as crenças Yazidis, poderíamos nos indignar contra a opressão de homossexuais na Chechênia com base em sua dignidade humana, sem compartilhar de suas crenças morais.

Regularmente, também, encontramos militantes de direitos humanos defendendo criminosos, não porque sejam criminosos, mas por que são seres humanos. Nesse caso, certamente, a defesa é mais difícil, porque é possível vincular o comportamento criminoso, não a um “mal mediato” (como uma crença religiosa supostamente errada ou doentia) mas a um “mal imediato” (um crime contra a pessoa ou a propriedade, por exemplo). Isso torna o público mais sensível à malignidade do criminoso e obscurece sua dignidade humana. Mesmo assim, a defesa da dignidade do bandido é parte integrante e inalienável da justiça, ecoando a dignidade comum com a vítima e a gravidade do gesto iníquo.

O programa do Fantástico, de ontem, ao invés de apelar aos direitos humanos e à dignidade humana, em particular, como argumento padrão diante da represssão Chechena aos homossexuais, apresentou um pseudo-argumento em favor da legitimidade moral do comportamento homossexual COMO SE a violência contra os homossexuais fosse causada meramente pela rejeição ao comportamento homossexual.

Por um lado, a avaliação moral desse comportamento é algo muito mais complexo do que a reportagem sugere. Não é verdade que a orientação sexual seja algo inambiguamente “inato”, nem é verdade que a presença de prática homossexual entre animais forneça base para a naturalização desse comportamento entre humanos (assim como não naturaliza os inúmeros comportamentos animais que não preciso mencionar aqui), e muito menos que a presença dessa prática tenha correspondente com a criação, no século 20, do fenômeno da “identidade gay” (posto que macacos e leões não “saem do armário”).

A tentativa de responder ao argumento do “cura-gays” russo de que a homossexualidade vai “contra a Natureza” – claramente ecoando, ainda que de modo obviamente ignorante, as tradições éticas da lei natural, que remontam ao mundo clássico – com um apelo à “Natureza” no sentido das Ciências Naturais contemporâneas, foi, naturalmente, de cair o queixo.

O fato é que, no que se refere aos seres humanos e à Natureza Humana, desejo e orientação sexual não definem por si só “identidade” e por si só não legitimam quaisquer comportamentos, como já discuti em outro artigo, publicado no boletim da ABC2. Com ou sem “cura gay”, desejo não é destino nem serve como validação moral de quaisquer comportamentos.

Por outro lado, ainda que a desaprovação do comportamento homossexual tenha alimentado a violência, ela constitui uma condição necessária mas não suficiente da violência. Condições necessárias mas não suficientes não implicam, por si só, em culpabilidade.

Há vários exemplos de condições assim. Um caminhão disponível é uma condição necessária para um terrorista realizar um atropelamento em massa; mas não é suficiente. Precisamos ter, também, um terrorista disponível que se alimente dessa condição. Podemos resolver isso eliminando os caminhões; mas se isso não for possível, será preciso ser mais consciencioso e vigilante no manuseio dos caminhões e combater o terrorismo.

Certamente algumas pessoas podem argumentar que seria melhor um mundo sem caminhões, com vários argumentos interessantes. A divergência moral entre os “pro-trucks” e os “no-trucks” é uma divergência entre pares, pois ambos concordam em proteger a dignidade humana, mas divergem sobre as implicações práticas disso. Eles divergem, assim, dentro de um diálogo moral, e formam uma comunidade moral.

A divergência moral dentro de um diálogo moral não consiste em condição suficiente de violência, mas sim em dimensão inevitável do diálogo moral crítico. Já o terrorista é, claramente, um outsider.

Ou: assim como não podemos simplesmente proibir os caminhões (descobrimos isso da pior maneira há algumas semanas no Brasil!), não podemos simplesmente proibir a divergência moral para que ela não seja transformada em violência. A divergência moral deve ser abraçada não com uniformização, mas com tolerância e persuasão. 

Em diversas instâncias da sociedade há disputas e discordâncias que devem ser gerenciadas por meio da tolerância: na academia, entre partidos políticos, entre clubes de futebol, entre comerciantes, entre religiões. Quando a disputa escorrega para violência, revela-se uma falha de racionalidade e a perda de legitimidade daquele contexto moral e institucional da disputa.

A solução sempre é estabelecer e preservar um contexto moral e institucional de disputa, com regras éticas, e celebrá-la. Não é papel do Estado solucionar todas elas, e o jornalismo, mesmo que tome um lado, não pode deslegitimar o próprio contexto de disputa.

A tentativa de legislar a moralidade LGBT e impedir o dissenso moral sob a alegação de que ele, por si só, é a causa da violência (com a “consequência” de que os críticos da moralidade emotivista precisam ser “curados”) é, pura e simplesmente, uma falácia.  Tenta-se culpabilizar, de saída, a própria condição de possibilidade da disputa moral como se fosse intrinsecamente má. No entanto, isso está longe de ser demonstrado.

A rejeição moral do comportamento homossexual não é “homofobia” per se, nem pode ser considerada condição suficiente (e, portanto, culpabilizável) para a emergência de violência contra homossexuais, e não pode ser usada como justificativa para o silenciamento da livre-expressão.

A questão do comportamento sexual, enfim, não é uma questão emocional, nem meramente de orientação sexual, nem meramente de desejos e instintos animais. É uma questão ética. Uma questão de ética sexual, e por isso vinculada a questões identitárias. Ao remover a questão de seu devido contexto de disputa, a reportagem realiza uma trapaça, um pênalti, um golpe-baixo.

SEGUNDO, O SENTIMENTO: 

Pra terminar, e apenas como dica: o que a reportagem faz, efetivamente, é causar-nos sentimentos de comiseração mas também de ira e profunda antipatia contra os terríveis Chechenos, esses assassinos anti-lgbt. Cujos embaixadores no Brasil seriam, provavelmente, Silas Malafaia, Bolsonaro, et alii.

Ora, a causa é perfeitamente justa; em nome da dignidade humana e dos direitos humanos em geral, é preciso opôr-se à repressão e à violência contra os homossexuais, lá e em qualquer lugar. Isso não está em questão.

Óbvia e infelizmente, no entanto, não foi exatamente esse o interesse da reportagem. Sob a sua pureza, esconde-se uma perversidade. Ela usa uma causa justa para plausibilizar uma causa injusta: a repressão ao direito de divergir; de divergir moralmente. E ela o faz capitalizando o ressentimento.

Em outro termos: manipulação sentimental. O propósito da reportagem é manter aquecida a indignação pelo recurso do contágio emocional midiático. Manter acesa a indignação contra as crenças morais opostas ao movimento lgbt e ao liberalismo moral, em termos mais amplos.

Por trás de cada política progressista se encontra um único valor moral: a empatia (George Lakoff)

Essas tentativas fazer caridade com o chapéu dos outros deveriam nos deixar bastante preocupados: fazer-se de campeão moral culpando, por exemplo, os judeus, para estimular o amor pela raça germânica, fortalecendo nosso sentido de identidade: nós contra eles. Compartilhamos a dor da vitimização e criamos uma comunidade dolorida, com a esperança de que assim faremos justiça. E daí saíram os campos de concentração.

O capital político e moral baseado da empatia e minerado por meio da propaganda de contaminação emocional é um capital sujo, de baixa qualidade, pois não é processado por arrazoados morais claros nem com considerações realmente justas sobre como construir uma comunidade realmente plural. Consideremos o caso do Fantástico: ao invés de reconhecer que há um debate moral, culpa a crença moral divergente pela violência.

O psicólogo experimental Paul Bloom escreveu extensamente sobre o tema da Empatia (“Against Empathy” Harper Collins), e como ela é diferente da Compaixão, essa sim um sentimento moral definido. A Empatia é o mero espelhamento dos sentimentos do outro e, por isso mesmo, moralmente amorfa. Ao espelhar o sentimento do outro, sem filtros críticos, posso assumir uma instância doentia e ler distorcidamente os fatos ao meu redor.

Imagine uma mãe desesperada, trazendo no colo uma criança gravemente acidentada. Seria interessante que ela fosse atendida por uma médica empática? Não, segundo Paul Bloom; porque a médica empática, ao espelhar o sentimento da mãe, desespera-se e não pode mais cuidar da criança. O que precisamos, no caso, é de uma médica compassiva, não empática. A compaixão não anuvia a racionalidade e o julgamento moral da situação.

Por uma trágica infecção intestinal passei a madrugada do sábado anterior à reportagem no hospital, e enquanto tomava soro e era medicado, notei – a despeito da pouca consciência do entorno – uma criança que se negava em pranto e ranger de dentes a fazer o exame de sangue. Todas as vezes em que a enfermeira aproximava a agulha, a menina implorava em desespero e o avô, derretido, mandava esperar. E assim as duas gangorras – a minha e a dela – seguiram noite adentro.

Fazia bem, o avô? Claramente não. A empatia excessiva o impedia de agir racionalmente. A compaixão o teria levado a agir logo, para minimizar o sofrimento da criança e dos pobres internados. Eventualmente, vencido mais pelo cansaço do que por firmeza moral, o avô cedeu à realidade.

Daí minha recomendação: muito cuidado com o jornalismo que recobre suas falácias com a manipulação sentimental. Você poderá ver-se, por excesso de empatia, acreditando e propagando mentiras, “defendendo” o que não pode ser defendido e omitindo-se em relação ao bem.

E se você se lembrou da “Homem Psicológico”: sim, o recurso extensivo à empatia como fonte de capital político sujo é uma das marcas da “Revolução Afetiva”

A “Revolução Afetiva” é o tema da nossa Conferência L’Abri 2018!

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