Quando meus olhos viram as Nuvens…

Quando meus olhos viram as nuvens,

na jornada ainda não familiar, quando o dia findava e o sol se cansava e o céu se corava maduro vi as nuvens e aos últimos raios entre as nuvens. Uma ou quantas?

Mas eram belas como um poema do sr. Bach, fulgurantes, sublimes, rosáceas, alaranjadas, douradas, descomunais, esmagadoras, controlo o carro, perfeitas abriam-se como janelas de glória, reduza a marcha, preciso limpar os olhos, a luz enterrou-se no peito, preciso de ar.

O que enterrou-se me fundo foi a alegria, não posso mais olhar, não sou nada, não sou digno, preciso olhar.

Então espanto-me! Quem vê a nuvem?

Todos a veem… “Todos”? Mas o que “todos” veem? O que vi somente eu o vi, apenas eu ali onde estava no instante em que ali estava, e aquelas cores, e o sr. Bach que me explicava, e alguém mais vê, em outro carro, talvez?

Estariam ali então só para que eu as visse? Precisariam elas de mim para serem o que foram? Quem pôs em minhas mãos o seu destino estético? Não sou digno, há alguém mais aqui.

Miragem não é, elas existem.

Existem? Um pouco mais longe e não veria o que vi. Voando por dentro delas, nada veria. Se estivessem lá, mas não o sol, o que haveria lá? O seria sem as cores nos meus olhos, nos meus olhos? As nuvens, sim! Mas então, eu não saberia o que são. Vapores? Gelo? Partículas?

(Não venha me falar de ciência. Ninguém o sabe, nem mesmo os físicos, que quando algo sabem, sabem porque não sabem.)

Nada que foi feito é tão sólido que sempre seja o que é.

O que é essa pedra, ou o átomo, ou o quark? Estão ali… mas não estão: escalas e probabilidades. Viaje-se do topo à base da escala infinda e então a pedra será nada e depois algo e então tudo e enfim nada novamente. E se parece ser o que é, o é pra você, aí onde está agora.

Você é quem a chama de pedra.

Então, tudo aquilo foi… nada? Não, algo certamente foi; mas um quase-algo, um algo-por-enquanto. Mas como é possível que o tudo se dê assim, por meio do que nada é ou quase, do que é instante?

Sou um ângulo; sou um instante.

Companheiro da alegria me vem esse terrível espanto! Aqui estou e tenho forma e tempo e sei, mas sólido eu não sou. Mude a escala ou o ângulo, a distância ou o relógio, o que sou, o que resta ali?

Sou porque me veem, mas e quando não me veem? Sim, agora eu me vejo; mas e quando eu durmo e não posso ver-me? E quando dormir o sono profundo, quem me fará descansar em segurança?

É porque só Ele é Ser.

Se tivesse corpo, seria sempre reconhecido, a um trilhão de anos luz ou a um trilionésimo de milímetro; Ele, inteiro, presente, e sempre, em todas as escalas, ângulos e distâncias, em todos os momentos, e do princípio ao fim do caminho!

Ele é o mesmo e está lá, porque Ele não é o instante; não tem ângulo pois inteiro em todos os ângulos, inteiramente fora e inteiramente dentro, em todos os lugares, contendo todos eles, contido em todos eles, mais peso que o universo em um átomo, um universo mais leve que um átomo, Ele é: o Eterno-Sólido.

Não foram nuvens o que vi. Elas eram apenas as Suas janelas.

Quanto a mim, sou um nada?

Não um puro nada, aqui ainda sou e estou; mas sou mesmo um quase, à beira de quase-nada. Tenho o meu si, que mesmo quando se perde ainda teima em aparecer.

Ele aparece no meu rosto, quando me veem, e também nas minhas mãos, no meu andar e na minha palavra… mas não se pode chegar muito perto nem muito longe, que desapareço como uma nuvem! Como uma névoa, uma erva, como o pó de onde vim.

De que adianta tentar dobrar-me sobre mim, contemplar-me todo o tempo, fazer-me sempre presente? Um belo garoto que desafiava os deuses tentou fazê-lo e morreu, morreu de ilusão. Não havia quase-nada ali.

Mas sei porque ainda estou aqui, eu sei sim. E por isso sei que continuarei aqui.

É que o Olho de Deus me vê.

3 comentários em “Quando meus olhos viram as Nuvens…

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