Realidade ou Interpretação? Uma Objeção à “Teologia Hermenêutica”

Acabei de assistir, no programa Hard Talk da BBC, ao reprise de uma antiga e tocante entrevista a Richard Holloway, ex bispo anglicano de Edinburgh. O assunto: sua oposição ao discurso moral da igreja Anglicana. Apelando à memória ruim e com risco de erros, insisti em redigir e comentar a breve síntese, mas para levantar uma lebre que não foi o foco da entrevista: a questão do método teológico.

O simpático velhinho, hoje um campeão da causa “gay” e de diversas pautas progressistas, deixou em 2000 a sua posição na igreja devido à constatação de sua “crueldade” para com pessoas gays, especialmente a praticada pelos “homofóbicos bispos africanos”.

Holloway diz claramente que a origem de sua crise de fé foi realmente ética: a moralidade sexual cristã tornou-se um problema, um atraso e um cativeiro. “Mas e quanto à ideia de que a igreja não se opõe às pessoas, mas ao comportamento?” ele afirmou, categórico: “it is a distinction without a difference”, ou seja, “é uma distinção sem uma diferença”.

Holloway até mesmo a invocou a doutrina Cristã da encarnação e a de criação como bases para a aceitação do comportamento gay.

No entanto, ao ser interrogado pelo entrevistador sobre as crenças cristãs clássicas como a ressurreição, a divindade de Jesus Cristo e a vida Eterna, o ex-bispo reconheceu que não as sustenta mais. Ou melhor: não literalmente; ele acredita na “ressurreição” como um símbolo, como uma intepretação das coisas, como quando Martin Luther King se levantou para defender a justiça e a igualdade, e essa fé que leva à mudança histórica é o que importa, é a única ressurreição na qual ele acredita.

Quanto a crenças tradicionais, como ressurreição, autoridade das Escrituras, e coisas similares: as tais poderiam ser “aceitas”, desde que essas pessoas não tentem publicizar e impôr suas crenças cruéis à sociedade secular. Ele recusaria que o Estado impusesse à igreja a aceitação dos gays, por exemplo, mas parece admitir que ele mantenha as estranhas crenças cristãs dentro dos limites do culto cristão.

Por outro lado, Holloway observa que os sacerdotes sempre cairam na tentação de validar o que o Rei afirma, e que a injustiça sempre foi confrontada pelos profetas. O profetismo cristão é invocado por ele como essa palavra de defesa do oprimido, que termina na crucificação – e sacerdotes não querem ser crucificados.

“Eu sou um pregador da incerteza” – Richard Holloway

Em todo o caso, esses dogmas não refletiriam realidades “objetivas”; não passam de símbolos espirituais. Por isso ele mesmo não as sustenta mais; não tem certezas sobre Deus, ou sobre a vida eterna. Tornou-se um “pregador da incerteza”, e francamente, um “agnóstico”.

Mas ele ainda considera Jesus importante. Jesus: ao redor dele caminharam pessoas excluídas, e hoje muitos gays sentem-se dessa forma.

ANTIRREALISMO TEOLÓGICO

Não posso negar que senti simpatia pelo Dr. Holloway. Vê-se a sua sinceridade em abrir o jogo e mostrar sua alma. Os vários momentos em que ele se emociona testemunham de sua vontade de confissão, de nada esconder, e sua profunda empatia por pessoas que hoje sofrem por não ser plenamente aceitas pela sociedade e pela igreja.

Chamou-me a atenção, no entanto, o processo de “evolução”, como ele o descreveu, da sua dúvida. Essa evolução começou com uma crise moral, e terminou com um abandono definitivo do Cristianismo histórico. Tudo o que restou foi o sentido de transcendência, com o qual ele iniciou a entrevista. Na verdade, a inclinação por uma leitura simbólica ou metafórica do dogma Cristão era algo mais antigo, herdado provavelmente de seus tempos no Union Theological Seminary, de Nova York.

E isso me interessa bastante: uma parcela significativa dos Cristãos progressistas que “evoluem” para a negação da ética sexual cristã, com suas afirmações sobre gênero, casamento conjugal e castidade, passa simultaneamente por uma conversão teológico-filosófica para uma ou outra visão hermenêutica do discurso teológico (não sei dizer qual é essa parcela, mas trata-se de uma percepção que eu e vários outros teólogos evangélicos vem observando).

Não se trata, aqui, da mera admissão da natureza histórica e culturalmente localizada de todo discurso, o que é parte de qualquer “prolegomena” teológico contemporâneo. Sem dúvida o lugar e contexto do discurso fornece o incontornável ângulo e perspectiva que o define. Mais: não há experiência cognitiva finita sem o “olho” finito.

Mas nos referimos, antes, a uma espécie ultra-hermenêutica de pensamento, com a suposição de que o discurso teológico seria, fundamentalmente, a expressão e afirmação do lugar existencial, histórico e político daquele que fala, e não uma resposta racional a fenômenos objetivos, a uma realidade externa que se impõe à consciência e à experiência.

Em termos mais precisos: teologias radicalmente hermenêuticas (ou ultra-hermenêuticas) são geralmente antirrealistas no sentido de que discernem na raiz do discurso a mera expressão significante do espírito, ao passo que a teologia cristã é, classicamente, uma reivindicação realista sobre os fatos que se manifestam, e assim não tanto uma expressão de certa subjetividade quanto uma resposta dessa subjetividade a objetividades. O cristianismo histórico faz afirmações realísticas sobre a encarnação, a expiação, a ressurreição: trata-se de fatos metaistóricos, sim, mas que irromperam no tempo, no espaço, na matéria e na história.

Na linguagem ordinária: há dois mil anos, o túmulo ficou vazio. E Jesus Cristo torna, agora, as nossas orações aceitáveis diante de Deus.

Assim, em teologias antirrealistas, a “ressurreição” manifesta-se, por exemplo, na “coragem de Ser” que até mesmo um ateu pode eventualmente expressar, como em Paul Tillich; e a realidade da Cruz está na vitimidade experienciada por minorias variadas hoje, e a fidelidade a Cristo se interpretaria a partir dessa vitimização; e assim por diante.

HISTORICISMO

Na raiz dessa forma antirrealista de teologia, que procura na substância da fala religiosa o seu sentido político, o seu lugar de fala, a sua justificação do poder ou a resistência a ele, a afirmação do establishment ou a libertação do pobre, ou do negro, ou da mulher, ou do gênero ou da orientação sexual oprimida, e assim por diante, está, por óbvio, o pós-estruturalismo francês mas, antes dele, a influência combinada do utilitarismo, do pensamento radical, de Nietzsche e, claro, da tradição hermenêutica; mas ainda além deles, aquela suposição de que o mundo humano é o mundo do “Factum”, o mundo construído pelo arbítrio do homem e que reflete o espírito humano e nada mais do que o espírito humano.

O historicismo, essa megatendência histórica que foi concebida no renascimento, revelou-se em gestação já em Thomas Hobbes, mas veio à luz de modo público com Giambattista Vico, como alternativa ao mecanicismo Cartesiano, que atinge a adolescência no movimento Romântico, particularmente na tradição hermenêutica (e naquele momento crítico em que Dilthey distingue metodologicamente as ciências do espírito das ciências da natureza), carrega em si a tendência de dissolver afirmações de verdade em sua localização histórica e cultural (e, eventualmente, à vontade pura).

Essa tendência mostrou múltiplas expressões, assumindo formas pluralistas (que muito interessaram Isaiah Berlin), a forma dialética em Hegel e a materialista-dialética em Marx, e influenciando correntes distintas como a antropologia norte-americana e o pragmatismo de Rorty. Uma das expressões mais recentes e mais conhecidas é, naturalmente, a teoria Queer e particularmente o trabalho de Judith Butler, cuja concepção da natureza humana é a epítome do historicismo contemporâneo.

Herman Dooyeweerd escreveu extensivamente sobre os fundamentos espirituais dessa forma antirrealista e irracionalista de mentalidade como uma expressão do ideal renascentista de personalidade livre, que primeiro engendra mas em seguida entra em conflito com o ideal tecnocientífico, desenvolvendo-se em uma absolutização da dimensão histórico-cultural da experiência humana, e em uma tentativa de submergir a totalidade do mundo do espírito – a psicologia, a ordem social, a economia, as leis, a linguagem, a moral, a estética e a fé – ao seu contexto de produção histórica e a seu sentido “político”.

Assim como o naturalismo científico é o maior obstáculo no diálogo entre a teologia Cristã e as ciências naturais, os historicismos são o maior obstáculo no diálogo entre a teologia Cristã e as ciências humanas (e, claro, entre as ciências  humanas e as ciências naturais!).

Por sua relação genética com o historicismo, que amadurece como método no contexto original do pensamento hermenêutico Cristão (ali aonde Schleiermacher e Dilthey se encontram) a teologia hermenêutica carece das condições e ferramentas conceptuais para levantar uma resposta crítica ao princípio emancipacionista problemático e narcisista que se oculta sob esse mesmo historicismo. Ela não é capaz de uma crítica intelectual realmente radical, que precisaria pôr o próprio historicismo entre parêntesis. E sem essa crítica, até suas raízes antropológicas, nem a teologia nem as ciências humanas podem encontrar o seu destino.

Aos olhos do historicismo teológico, tudo é história e cultura, e nada há além disso: o homem como causa sui, como o autor de si mesmo, e assim como engenheiro da sua própria redenção. Quem precisa, então, de um Salvador? Basta-nos bons parteiros socráticos e seremos livres. Essa, então, passa a ser a tarefa da teologia: ajudar o ser humano (indivíduo, minoria ou sociedade política) a entender a si mesmo e a produzir sua salvação histórica.

Mas Kierkegaard já deunciara isto, mais ou menos ao mesmo tempo em que Nietzsche profetizava a “inexistência do autor independente da obra”, de uma alegada natureza humana fora da vontade: que a maiêutica não nos salvará.

LEMBRAI-VOS DE ELIAS!

Repetidamente os teólogos do “modo hermenêutico” invocam o profetismo bíblico como seu antecedente, fato também comum e bem reconhecido. Não sem razão; os profetas eram mesmo campeões da justiça, inimigos dos abusos de poderosos, críticos da  religião organizada, defensores dos pobres, órfãos, viúvas e estrangeiros.

O que fala-se pouco nesses contextos de apropriação moderna do profetismo é que eles eram também campeões da religião bíblica contra a idolatria. Eles não eram meros inovadores, mas viam-se como resgatadores da fé deuteronômica, que exigia o amor a Deus e o amor ao próximo, as duas tábuas da piedade e da justiça. Eles não apenas denunciavam a injustiça, mas os ídolos que a tornavam plausível.

É trágico que tão frequentemente os defensores da piedade se esqueçam da justiça, e os da justiça se esqueçam da piedade – o caso do Dr. Holloway é confessadamente o de alguém que abandonou a piedade em nome da justiça.

os cristãos devem estar preparados para ser considerados ímpios, ou injustos, ou as duas coisas ao mesmo tempo

Mas antes de pedir por uma mera “união” dos dois campos, devo dizer que não sabemos o que é a piedade se ignoramos a justiça, nem o que é a justiça se ignoramos a piedade. E que os cristãos devem, por isso mesmo, estar preparados para ser considerados ímpios, ou injustos, ou as duas coisas ao mesmo tempo.

No que se refere ao caso específico, é preciso dizer que há uma utopia e uma falsa divindade por trás do discurso de que promover certas formas de castidade e questionar certas formas de comportamento sexual e de realização afetiva seria algo “cruel”: a utopia da felicidade afetiva, e a divindade da realização emocional como o centro organizador da existência. Trata-se de um ídolo, uma falsa divindade que se proclama absoluta e que em breve exigirá sacrifícios destrutivos.

E, ao contrário do que diz Holloway, sua posição não é “antiestablishment”. Pelo contrário: é a posição das grandes empresas, dos grandes sistemas de mídia e jornalismo, de poderosas forças políticas, das universidades, das associações de advogados. Os cristãos conservadores? São a margem. Temo que tenhamos, nesse caso, um exemplo moderno de falsa profecia.

Mas como pode um profeta saber se fala por Deus ou por um ídolo? Ora, ele deve ser capaz de distinguir, em bases cognitivas, entre o verdadeiro e o falso. “Se Yahweh é Deus, segui-o! Se Baal é Deus, segui-o!” Se sua epistemologia – ou sua ultrahermenêutica, que é uma antiepistemologia – o impede de estabelecer essa distinção entre a realidade e o simulacro, ele não pode fazer tal escolha, nem recomendá-la. Ele só poderá balançar entre dois pensamentos, e nunca saberá o que decidir.

Se não sabe quem é Deus, e onde ele está, como pode arrogar-se a função profética? A estes resta a advertência: Lembrai-vos de Elias!

A SEMENTE DO AGNOSTICISMO

Não por acaso, defensores de formas antirrealistas de teologia expressam pouco interesse em discussões sobre Cristianismo e ciência, uma vez que, ou não vêem na ciência natural qualquer impulso realístico (privilegiando visões relativistas sobre a ciência moderna), interpretando-a como mero discurso de poder, assim como o discurso teológico, ou vêem a teologia como um discurso que nada tem a ver com a ciência, por nada ter a ver com o conhecimento positivo da realidade. Qual seria, por exemplo, a importância da relação entre a física moderna e a experiência bíblica dos “milagres”, como discutida por exemplo pelo físico e teólogo John Polkinghorne?

Também sintomática dessa mentalidade antirrealista é o desinteresse – quando não o desprezo – pela filosofia anglo-saxônica da religião que se desenvolveu principalmente ao redor dos nomes envolvidos na Society of Christian Philosophers, ou de alguns membros Cristãos da British Society for Philosophy of Religion e outras assemelhadas, por seu modo realista de discutir a validade das afirmações teológicas cristãs, e sua discussão apaixonada por temas como a existência de Deus, ou a realidade da ressurreição, ou a natureza da expiação, ou a racionalidade da crença tradicional na inspiração bíblica – todas elas questões “superadas” aos olhos de teólogos antirrealistas. Tipicamente eles considerarão tais empreendimentos como “apologéticos” e, assim, “desnecessários”.

Mais: eles seriam de fato perigosos e são frequentemente evitados, por uma razão óbvia: quaisquer demonstrações plausíveis de verdade ou realidade em relação a essas afirmações teológicas imediatamente retirariam a prioridade das agendas éticas e políticas subjacentes às teologias hermenêuticas. Aqui não há nada conspiratório: são agendas públicas, candidamente confessadas em blogs, vídeos e seminários teológicos.

O caso de Holloway me parece paradigmático de uma tendência geral entre progressistas religiosos: a diluição da autoridade doxástica da revelação Cristã, e a redução hermenêutica do discurso teológico Cristão, que perde assim o seu aguilhão cognitivo e seu apelo crítico à realidade. A única “realidade ” admitida nesses contextos é a “realidade política”, a realidade das estruturas de poder que se escondem sob a máscara dos discursos.

as formas extremas de teologia hermenêutica carregam em si a semente do agnosticismo.

Na verdade, como sabem os Cristãos – e o Dr. Holloway teve a honestidade de confessá-lo – não é possível manter a fé e abraçar a revolução moral que o ocidente agora testemunha. Para tornar plausível a nova moralidade e a nova micropolítica, é necessário deixar o Cristianismo e tornar-se agnóstico. E as formas extremas de teologia hermenêutica carregam em si a semente do agnosticismo.

Vejo como uma tarefa teológica crucial, hoje, a questão da plausibilidade do discurso moral da igreja Cristã. Mas tal tarefa não pode ser realizada sem uma grande clareza quanto à natureza realista do dogma Cristão, à sua coerência essencial com a ciência moderna (como em Polkinghorne, ou em Thomas Torrance), e à sua unidade diante de um inimigo comum: a redução antirrealista de todos os discursos humanos à agonística absoluta: o puro conflito de poder.

A semente do agnosticismo pode florescer sem grandes dificuldades no terreno da empatia e do sentimento, como o mostra o caso do Dr. Holloway; e nenhuma delas tem poder contra a agonística. Para superá-la, é preciso o amor, que é mais do que empatia. E é preciso a verdade, que é mais do que o símbolo.

Pois as fontes do mundo e da vida não se encontram em “põlemos” como queria Heráclito, mas na beleza e na verdade do amor intertrinitário.

2 comentários em “Realidade ou Interpretação? Uma Objeção à “Teologia Hermenêutica”

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