Uma Confissão e um Lamento

As reações a um post recente que publiquei sobre a questão do “fundamentalismo” levaram a reações extremadas. Uma delas foi a do Sr. Renato Fontes, que me acusou de várias coisas, de forma bem pessoal. Entre elas, me acusou “do mais abjeto abuso espiritual”.

Acho que isso é uma boa ocasião para outro esclarecimento. Renato Fontes sempre diz que me conhece muito bem, e com base nisso, faz muitas acusações por aí. Às vezes fico sabendo, mas geralmente peço para não saber.

É verdade que nos conhecemos. Ele foi colega do meu irmão no segundo grau, e fui líder de jovens na igreja na qual ele está hoje. Meu pai é pastor lá. E tenho que confessar sobre o período em que fui lider lá: sim, eu cometi “abuso espiritual”.

Por muitos anos, sem o perceber, eu usava o trabalho como ocasião para me sentir alguém nada vida. Compensava carências e vazios projetando uma imagem de espiritualidade de forma farisaica e, projetando a culpa e o fracasso desse farisaísmo, atirava sobre os jovens e outros que eu liderava uma forma doentia de moralismo religioso, do que a epítome eram os duros sermões sobre o “compromisso com a igreja”, a obediência incondicional em questões absolutamente secundárias, e o louvor artificial aos que rezavam nessa cartilha. O que eu fazia, na verdade, era propagar a forma doentia de cristianismo que eu conhecia.

Foi com muito espanto e vergonha que, a certa altura, constatei que não passava de um fariseu. Foi nessa época que me afastei da liderança de juventude. Para alguns eu havia ficado louco. Mas o que descobri foi a graça de Deus, de um modo que não experienciava a muito tempo. Fui arrebatado pela consciência da graça, e senti-me cheio do Espirito Santo. As lágrimas começaram a aquecer minha leitura das Escrituras. Lembro-me de que há anos não me lembrava de sonhar, exceto quando tinha pesadelos e, de repente, lembrava-me da noite como do dia. Depois disso minha pregação e a minha vida mudaram completamente. Vários membros atuais da Igreja Esperança se lembram dessa mudança – na verdade é por isso que não desistiram de mim, incluindo até mesmo familiares do Renato Fontes.

Pedi perdão a muitas pessoas, mas provavelmente não a todas. Confessei essas coisas até no púlpito. Mas não sabia, na verdade, o grau do estrago nos anos anteriores. No caso do Renato, confesso realmente não me lembrar muito, exceto por alguns conflitos nos quais era difícil dizer onde terminava o meu farisaísmo e onde começava a personalidade também difícil do meu colega. Acho que por duas razões: a primeira, é que éramos mais relacionados na adolescência e juventude, até os primeiros anos do meu casamento. Depois disso, por falta de afinidade, nosso relacionamento reduziu-se a nos cumprimentarmos na igreja, tocarmos no mesmo grupo de louvor ou trocar discordâncias sobre música cristã. Preciso dizer: não fomos muito amigos, embora tenhamos sido próximos, especialmente por causa do meu irmão, que é um amigo mútuo.

O fato é que, pouco tempo depois dessa mudança radical, comecei a trabalhar com temas de teologia da cultura, apologética e filosofia, e tornei-me cada vez mais ausente da vida da minha antiga igreja. Nesse contexto, nossa “relação” tornou-se ainda mais rarefeita. De 2003 pra frente, acho que praticamente não conversamos longamente, embora eu possa estar enganado.

E depois? Em 2007 estive com a família em L’Abri como estudantes, quando essa revolução silenciosa pela qual eu estava passando foi consolidada e aperfeiçoada. Decidi que, se continuasse no ministério pastoral, nunca mais seria como fora antes. E foi nesse espírito que, após retornar no final do ano, e socorrendo um grupo de irmãos que teve uma experiência eclesiástica ruim e não sabia o que fazer, plantei a igreja Esperança.

Depois disso, tive um único conflito com Renato Fontes: em certa ocasião, quando debatia com Norma Braga no facebook sobre algum assunto de política e fé Cristã, Renato Fontes e um amigo dele entraram para fazer suas contribuições (concordando comigo até, se não estou enganado). E como a conversa esquentou muito, a ponto de tornar-se ofensiva, escrevi em pvt solicitando que eles fossem mais moderados. Não fui ouvido e, como recurso final, bloqueei os dois.

E esse foi o começo de tudo. Renato Fontes me escreveu por email [de um modo que entendi ser ameaçador e me dando um prazo para desfazer o block]** Até pensei nessa possibilidade, mas achei melhor não fazê-lo… Desde aquela época já vinha evitando relações virtuais com pessoas com comportamentos muito agressivos na rede social. [Nesse sentido, reconheço que mantive o block não só pelos emails mas pela rejeição já consolidada a esse comportamento agressivo].

Desde então Renato Fontes tornou-se um “hater”: procura sempre saber o que estou fazendo para fazer comentários, encontrar e fazer “networking” com outras pessoas que não aprovam minhas ideias, e assim formou-se um grupo de “amigos” que, na maioria, compartilham a “dor” de serem ignorados por mim e que existe em torno de uma causa fundamental: a destruição da minha reputação.

Mas apesar disso, devo dizer que nunca (mas se tiver errado aqui, quase nunca) comentei qualquer coisa pública sobre o Renato. Não o persegui.

UM PEDIDO…

Dada a amargura do Renato Fontes, imagino que tenha feito mais mal a ele do que posso saber, em todos os anos da nossa juventude. É meu dever pedir-lhe perdão. Na verdade, peço perdão a todos os que foram de algum modo espiritualmente empobrecidos durante a minha adolescência farisaica. Peço perdão, Renato, se na época o desqualifiquei, o obriguei a fazer o que não queria, o fiz se sentir mal por culpas imaginárias.

UM LAMENTO…

Sei que Renato Fontes me odeia profundamente. Eu também não gosto do homem que ele odeia. Mas posso dizer que aquele homem se foi há mais de quinze anos. Eu não posso dizer que “conheço” o Renato, pois nunca fomos realmente íntimos, e ele sempre me pareceu reservado contra mim, em todo o caso. Talvez por isso, enquanto eu passava por uma revolução interna, tenhamos permanecidos alheios um ao outro.

Mas posso dizer, hoje, que o Renato Fontes não me conhece. E nem eu o conheço. Me conhecem minhas filhas, minha mulher, meu pai – que é pastor do Renato – o irmão do Renato, que é vice-presidente da igreja Esperança. Me conhecem os que se aproximaram de um homem mudado, que aprendeu o valor do evangelho. Me conhecem os irmãos da Esperança, e os que vem à minha casa, no L’Abri, e tomam café com queijo na minha mesa.

Lamento muito por isso. Lamento que Renato Fontes jamais tenha se libertado das feridas que sofreu, e que agora continue impingindo-as. Lamento que ele viva dia e noite preso a esse meu velho corpo podre, que larguei anos atrás. Lamento que, nessas condições, a amizade seja impossível, e o conflito de ideias, que poderia ser interessante, uma antítese total e absoluta. Lamento que outras pessoas, que sofreram violências, unam-se em uma onda de ressentimentos e queiram chamar de amor, o ódio.

UMA ESPERANÇA

Espero que muitos dos que estão confusos e tem dúvidas tenham um dia uma oportunidade de vir ao L’Abri e tomar café com queijo comigo. E conversaremos, talvez, sobre tretas de internet. Mas meu assunto principal – e meus amigos sabem muito bem – é outro hoje:

A ressurreição!

 

APÊNDICE E AVISO DE REVISÃO DO POST – 06-04-2017

Este post foi, no geral, muito bem recebido pelos  meus leitores, que não viram nenhuma instância agressiva. Houve, no entanto, quem considerasse o post “forte demais” ou “fraco demais”. Os que o consideraram excessivo ou forte viram nele uma nova acusação – como se eu estivesse lançando toda a culpa de nossa dificuldade de relacionamento na troca de emails que se seguiu ao “block”. Os que o consideraram fraco entenderam que o pedido de perdão deveria ter sido feito diretamente, não cabendo resposta pública.

Sobre a acusação do “excesso”: alguns amigos do Renato tiveram acesso aos emails que se seguiram ao block, alegando que os fatos foram exagerados, e que o Renato teria escrito de boa fé. Estando na situação, afirmo que não foi assim, e que o comportamento posterior do Renato deixou isso claro além de qualquer dúvida.

Mas nada disso importa muito. Em primeiro lugar, minha intenção não foi a de revelar erros privados do Renato nem a de acrescentar uma acusação nova contra ele além do fato óbvio e autoevidente que foi o conteúdo do seu próprio comentário. Em segundo lugar esse argumento foi usado claramente para desviar a atenção do print e de seu conteúdo temerário. Assim, dada a insignificância relativa dos termos daquele parágrafo, ele foi modificado por mim nesta data, de modo que o leitor se atenha ao essencial (a modificação está entre colchetes).

Quanto à acusação da “fraqueza”, explico: não, o meu post não foi em primeiro lugar um esforço de reconciliação com o Renato. Não estou fechado para isso, mas muita coisa precisa acontecer – coisas realmente pessoais, entre nós.

Acredito ter me comunicado inadequadamente, ao passar a impressão de que esse seria já o meu ponto principal. Mas mesmo que eu não tenha sido totalmente claro, o ponto principal do post está enunciado no título: “Confissão e Lamento”.

Eu queria me retratar e lamentar. Ponto. Precisava acertar as contas com esse pedacinho do passado, se não para mim mesmo, certamente para os leitores, para que a compreensão de mim fosse menos obscura. E precisava lamentar os efeitos disso e o ódio que usa esses erros como justificativa. A confissão foi feita no tocante a um modo antigo de viver a religião, e não em relação a comportamentos e palavras específicas em uma situação definida a uma pessoa definida. Por isso o pedido de perdão foi geral e público, mas não citou um fato específico; e certamente não faria sentido confessar o erro de meu modo de ser sem pedir perdão imediatamente por esse modo de ser.

Por outro lado, é claro que eu não poderia pedir perdão ao Renato privadamente e ao mesmo tempo avisá-lo de que apresentaria uma resposta pública. Será que ele aceitaria bem essa alternativa? De modo nenhum, obviamente. E quanto aos que “ajudam” ao Renato pedindo agora “privacidade”, são hipócritas se não ajudaram ou ao menos não pensaram em ajudar o amigo antes advertindo-o contra seu comportamento temerário. Afinal, o que dói agora não é nada privado, mas as coisas públicas que ele mesmo diz.

E este post teria que ocorrer de qualquer modo, porque seu ponto central foi lançar luz primeiro, pois com luz e verdade a justiça pode acontecer e, quem sabe, até a reconciliação; mas sem luz e verdade nada de bom pode acontecer.

De agora em diante a reconciliação é possível se o Renato estiver disposto a cessar seus esforços contra mim, naturalmente, e aí, no contexto pessoal, podemos falar de coisas específicas e resolvê-las. E o pedido geral de perdão poderá se materializar em algo mais específico no caso dele.

Enfim, advirto a meus leitores: as futuras respostas das pessoas envolvidas poderão indicar uma nova direção no seu comportamento virtual em relação a mim, ou poderão apenas confirmar meu ponto tudo o que eu disse no post. E isso saberemos em breve.

 

****[é possível que por falha de memória eu tenha misturado mensagens de email com coisas que foram faladas e não escritas, e posso ter cometido alguma imprecisão. Em todo caso, tivemos uma discussão difícil e me senti realmente ameaçado; e preferi desfazer o relacionamento. Em parte, também, pela forma como a Norma Braga foi tratada, o que me deixou extremamente ofendido. Mas se eu tiver mais culpa no episódio do que me lembro, que o Senhor me perdoe e que isso não seja lançado na conta do meu desafeto].

5 comentários em “Uma Confissão e um Lamento

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  1. Louvo a Deus pelo que Ele tem feito na minha vida e na de minha esposa por meio dessa Comunidade de Fé chamada “Igreja Esperança”.

    Não temos “Esperança” de ter pastores perfeitos -o que temos hoje é a alegria de termos pastores quebrantados diante de Deus.

    Obrigado Senhor pela Vida de Igor Miguel, Aender Borba e Guilherme de Carvalho e suas respectivas esposas.

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  2. Te conheci há 3 anos. E você foi usado por Deus para mudar a minha vida e meu caráter. Te confesso que, mesmo abstraindo, é difícil enxergar esse fariseu ao qual você menciona. Desejo que não só eu, mas vários outros Davis por aí, tenham também o privilégio de tê-lo como amigo. Fique na paz excede todo entendimento.

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  3. Sou grato pela sua vida e sua família. Vi o cuidado de Deus em conhecer o L’abri. Acredito que o texto esclareceu sua posição. Renato Fontes, 15 anos pra esquecer o que não tem a menor relevância.
    P.s Mágoa, não compensa.

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