Não é fundamentalismo: é a teologia Cristã

Decidi hoje que seria apropriado apresentar uma palavra em defesa do nosso movimento “kuyperiano-schaefferiano”.

Recentemente um pensador da esquerda evangélica afirmou, a respeito “de boa parte” dos divulgadores de Kuyper e Schaeffer no Brasil, que eles seriam “fundamentalistas” e que sua leitura é “totalmente enviesada por uma lógica teológica (ideológica, também chamada de “Cosmovisão”) nascida, crescida e criada no Sul dos EUA, no famosíssimo Bible-Belt”.

Se esse pensador houvesse realmente se informado sobre a ideia de “Cosmovisão Cristã” dessas pessoas, como lhe recomendei há tempos, saberia que sua origem não é o Bible-Belt, mas o emprego da ideia Diltheyana de “Weltanschaaung” pelo Escocês James Orr; e que ela foi apropriada e popularizada por Kuyper depois que este leu James Orr em sua viagem de navio para ministrar as Stone Lectures em Princeton, para expressar sua visão neocalvinista; e que Francis Schaeffer nunca gostou muito da ideia, preferindo falar em “realidade” (Reality), como seu amigo Hans Rookmaaker; e que só muito tardiamente alguns Cristãos norteamericanos se apossaram extensivamente do conceito – que continua rejeitado pela maior parte do “Bible-Belt”; e que quando publicamos o livro “Cosmovisão Cristã e Transformação” em 2006, já de saída relativizamos a ideia de cosmovisão Cristã como sistema teórico a partir da filosofia de Amsterdã; e que nossas ideias sobre o tema passam longe do republicanismo dos EUA, tanto antigo como novo.

Além disso – preciso dizer – algumas dessas ideias tem sido apresentadas e discutidas com filósofos, teólogos e cientistas Europeus com pouca ou nenhuma relação tem com o “Bible-Belt”: nossas fontes formativas e parceiros de diálogo são a teologia evangélica inglesa e o neocalvinismo holandês. Os argumentos considerados “fracos” por este pensador de esquerda não foram considerados fracos, por exemplo, por filósofos como Egbert Schuurman, René van Woudenberg ou Gerrit Glass (menciono os gringos em resposta à alegação de que nosso uso de pensadores Cristãos Europeus é “oportunista”. Será que ele pensa que discutimos nossas ideias apenas na venda da esquina?). É possível, sim, que ele seja um novo gênio, e por isso tenha essa opinião sobre nossos argumentos; mas o tempo dirá.

Ora, sob todos os aspectos, essa crítica popular não passa de um desonesto mosaico de caricaturas, que pretende lançar areia nos olhos do leitor desinformado. Em todo o caso, a base dessa acusação de “fundamentalismo” não tem sido uma compreensão clara ou mesmo uma refutação clara e claramente Cristã das nossas ideias pelos militantes desse novo progressismo evangélico, mas sua rejeição em bloco por serem incompatíveis com a nova moralidade e a micropolítica da nova esquerda. Em conversa após conversa nos últimos anos fui constatando, abismado, que tudo girava em torno, sempre, das novas afetividades, do uso do corpo, do que se pode ou não fazer antes do casamento, de como “superei Jaime Kemp”, etc. Para meu espanto, descobri eventualmente que somos “fundamentalistas”, acima de tudo (até mesmo acima da questão da inerrância Bíblica), por causa do que pensamos sobre… sexo!

É mesmo bastante irônico que a esquerda, depois de fracassar sob os mais diversos aspectos (ainda que produzindo aqui e ali alguns benefícios incidentais), tenha se tornado basicamente um empreendimento moralista. Ela não consegue mais progredir na macropolítica, a não ser quebrando um país e realizando um gople em seguida (como aconteceu ontem na Venezuela) e por conseguinte decidiu levantar um púlpito moral para nos civilizar a todos. Sua obssessão agora é nos enquadrar por força de lei em assuntos de sexualidade, afetividade, gênero e corpo, pregando não mais o socialismo mas o mais acabado “liberalismo possessivo” (possessive liberalism). Havendo começado como uma jovem guerreira, acabou essa insuportável velha ranzinza.

Penso que que algo muito sombrio está em curso: esse movimento da nova esquerda Cristã pretende legitimar a nova moralidade afetivista com um verniz Cristão, para aparelhar o movimento evangélico Brasileiro. E para isso será necessário desnaturar a teologia evangélica conservadora, relativizar a Bíblia e as Confissões, e combater toda e qualquer articulação intelectual Cristã que impeça a sua legitimação.

Virando a fé evangélica de cabeça para baixo, esse movimento quer tornar a teologia uma expressão de outro contexto e de outra práxis: a dos novos experimentos afetivos, corporais e de gênero. Mas isso é realmente esquisitíssimo: no lugar de termos Cristo e as Escrituras no fundamento, e então os credos e uma teologia orgânica, e então uma teologia moral e uma visão Cristã do sexo (o que, ademais, é um padrão estrutural na teologia moral neotestamentária, que vai dos fatos do evangelho para as implicações morais, o que é moeda comum entre os biblistas), temos um outro fundamento – uma nova práxis afetiva, corporal e identitária altamente problemática – para sobre ele construir a nossa “teologia contextualizada”. E a nova ética sexual torna-se inadvertidamente a nova pedra angular.

Esse tipo de teologia de ponta-cabeça é, na verdade, uma antiteologia. Seu incômodo com o “fundamentalismo” é, na verdade, um incômodo com a própria teologia Cristã, pura e simplesmente, e uma tentativa de transformá-la em símbolo ou metáfora de outra coisa que “sabemos” a partir das ciências sociais, ou do pós-estruturalismo, ou dos novos movimentos sociais. É antiteologia porque não trata a fé como voz autônoma e soberana, mas como um olhar espiritualizado que damos para os fatos humanos – eles sim, as únicas realidades. E quem quer ver os “fatos” humanos como secundários ou menos reais que a voz do evangelho é um… fundamentalista.

Claro, essa inversão de prioridades não é feita sempre intencionamente; ainda assim, é o que está acontecendo, e muitos estão contribuindo para isso com a sua militância, mesmo que sem querer.

Enfim, isso torna o famigerado “neocalvinismo” um sério obstáculo, mas um que não pode ser confessado em público; a estratégia alternativa é então a desqualificação intelectual: “oportunistas, fracos de argumentação, etc”. Ora, isso é justamente o que não poderia funcionar; o nosso movimento não é feito de cristãos alienados e pouco educados, mas de pessoas altamente instruídas em ciência, filosofia e teologia, e capazes de pensar por si mesmas (sinto-me tolo como o apóstolo Paulo, quando caiu sob a ridícula condição de ter que defender sua competência). E também de amigos e simpatizantes que, mesmo não sendo neocalvinistas, aprenderam a respeitar essa tradição. Não somos dois ou três gatos-pingados manipulados por algum pastor iracundo, milionário e centralizador. Os associados da ABC2, uma das nossas iniciativas, são academicamente treinados. Hoje já somos um movimento espiritual e intelectual que se espalhou por vários cantos do país, e que sabe ler e pensar.

Sem dúvida intelectuais sérios podem estar em campos opostos; e não penso que o mais treinado e perspicaz pensador seja sempre o que está certo. Eu não alegaria nem por um minuto que estamos certos porque temos entre nós bons cientistas (como também não aceitaria que meus oponentes estariam certos tão somente por terem bons nomes também). Mas posso afirmar com segurança que nossas ideias tem plausibilidade e qualidade arquitetônica. Concedo isso também a esse intelectual, por que não?

Mas exatamente por isso, considero desonesta essa sorte de crítica: “é fraco e intelectualmente inferior porque é… fundamentalismo”. Meus amigos… isso não vai colar.

Zombando da nossa inteligência com acusações baseadas em erros e desinformações flagrantes (como o caso acima do “Bible-Belt”) e falhando em produzir algo teologicamente convincente para o movimento evangélico (não apenas intelectualmente, mas espiritualmente e teologicamente convincente), temos um quadro típico de falso testemunho sendo mostrado assim desavergonhadamente, à luz do dia.

Pelo andar da carruagem, não penso que a onda de interesse no diálogo de fé e Cultura que temos promovido já há mais de dez anos venha a ser impedida por semelhantes despropósitos. Mas confesso tristeza ao ver o mal que isso causa a não poucos jovens que tem sua mente bloqueada por esses jogos difamatórios e que perdem a oportunidade de pensar.

Por isso recomendo a todos os que conhecem pessoas manipuladas e desorientadas por esse tipo de difamação: convença-os a entrar em contato conosco antes de cristalizar opiniões. Recomendem-lhes livros, artigos, áudios e vídeos, e até visitas in loco. Somos vasos de barro, mas carregamos o tesouro do evangelho, e temos o que mostrar. Não estamos falsificando a mensagem para torná-la palatável, e a qualidade da tradição de mente Cristã que promovemos, e que não foi invenção nossa, já foi testada pelo tempo.

E quanto ao sexo… bem, não vamos mudar a nossa teologia por causa disso.

VERITAS VINCIT

5 comentários em “Não é fundamentalismo: é a teologia Cristã

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  1. Caro Guilherme, Prezo-lhe muito e respeito a sua capacidade e dedicação e escrevo esta resposta em clima de respeito e admiração. Li os livros do Schaeffer ainda adolescente e, então, cheguei a Kuyper. Aprendi holandês para poder ler os textos neo-calvinistas na sua língua original. Tive a oportunidade de fazer um doutorado em teologia na Universidade por ele criada e admiro muito todo o legado de Kuyper. Deixei Schaeffer de lado quando vi que o seu trabalho é muito apologético mas pouco construtivo. Kuyper e Bavinck ainda são importantes parceiros em minha reflexão. Tendo dito isso Guilherme, posso começar minha resposta. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente e fizemos várias disciplinas juntos no Mackenzie. Não conheço pessoalmente o autor da crítica ainda, mas o conheço através das redes sociais. Não moro mais no Brasil e não estou envolvido em nenhum movimento nem fundamentalista nem liberal, nem de esquerda nem direita. E com isso em mente deixe-me trazer os meus pontos críticos. Não acho que seu texto contribui muito para a discussão. Em primeiro lugar, por que não dizer o nome do pensador evangélico de esquerda? Você o cita ipsi verba em aspas inclusive. Se há haspas, há um autor. Tal atitude soa bastante arrogante e não contribui para o diálogo. Em segundo lugar, Kuyper e Schaeffer eram fundamentalistas e ponto final. Querer negar isso é desonestidade acadêmica. B. B. Warfield que deixou Princeton e formou o Westminster em defesa dos “fundamentals” era leitor de holandês e interagiu com Kuyper e Bavinck, e, na verdade, Warfield era considerado menos ortodoxo pelos holandeses. Ou seja, não há dúvida que os neo-calvinistas estavam do lado de Warfield e de todo o movimento fundamentalista inicial. Schaeffer foi oficialmente ligado ao movimento fundamentalista norte-americano e, inclusive, se ofereceu para trabalhar pelo movimento no Brasil. Agora, o fundamentalismo de Kuyper é bastante diferente do fundamentalismo de Schaeffer, pelo simples fato que há muito pouco do fundamentalismo do início do século XX no fundamentalismo da segunda metade do século. Acho que cabe a qualquer movimento que se diz ligado tanto a Kuyper ou Schaeffer lidar com o fato. Acho que a sua resposta deveria começar com o reconhecimento do fundamentalismo dos autores e se posicionar em relação a isso. Em que sentido você é ou não fundamentalista? Se você é fundamentalista, qual tipo de fundamentalista você é? O de Kuyper? O de Schaeffer? Um terceiro? Ou você não vê diferença entre o fundamentalismo dos dois?. Em terceiro lugar, acho que a maneira como você se refere a esquerda é tão fora do contexto que fica difícil até dialogar. A esquerda que Schaeffer combatia era o comunismo russo, enquanto Kuyper combatia o Socialismo pré-revolução. No Brasil, não existe nenhum dos dois, ou pelo menos não dá para dizer que o PT levou o Brasil para algo parecido com o modelo econômico russo ou mesmo venezuelano. Seria muito desonesto academicamente dizer que a esquerda brasileira propõe um modelo econômico marxista ou mesmo um Estado totalitário. Foram 14 anos de PT no poder e continuou-se uma economia de mercado. Aliás, o ministro de Temer é o mesmo do Lula. E ainda mais, muitos dos valores da esquerda atual sempre foram os valores do Anti-Revolutionaire Partij, ARP, o partido de Kuyper. Ele sempre defendeu um Estado que cuida de todos e, especialmente, dos mais necessitados, sejam eles estrangeiros, pobres, etc. Acho que, muitas vezes, você dá a ideia de que o Estado Mínimo ou mesmo o Neo-Liberalismo fossem compatíveis com o Neo-Calvinismo. A crítica de Kuyper ao liberalismo teológico não deixa de ser também uma crítica ao laissez-faire socio-econômico. Acho que pegar a crítica de Kuyper ao socialismo e aplicar à esquerda brasileira não é muito produtivo. Kuyper defendia um Estado forte e atuante em questões sociais e esta sempre foi a política cristã na Holanda. Finalmente, acho que os Kuyperianos e Schaefferianos brasileiros deveriam fazer um trabalho maior na construção de opções viáveis para o Brasil. O Neo-Calvinismo sempre foi um movimento de se engajar com visões diferentes em busca de soluções. Mantinha suas posições críticas, mas trabalhava (ainda hoje trabalha) junto com outras ideias e partidos e buscava cooperação. Assim, acho que o distanciamento entre o movimento de Missão Integral e o Neo-Calvinismo no Brasil é, no mínimo triste, num país onde há tão pouca gente interessada em se debruçar sobre as questões brasileiras. Os dois movimentos têm muito em comum. Um dos pioneiros a trazer Kuyper para discussão no Brasil foi Paul Freston. Foi através dele, quem eu conheci ainda criança que me fui incentivado a estudar Kuyper. Ele poderia ser ligado tanto ao Neo-Calvinismo quanto ao movimento de missão integral. Freston esteve hospedado comigo por uns dias pouco antes de eu me mudar para a Europa e, sem dúvida, acho que ele têm feito um trabalho muito bom em tentar contextualizar alguns princípios de Kuyper na realidade brasileira. E ele está longe de seguir esta agenda do gênero/corpo/sexo que você mencionou. Ou seja, há muito mais a ser feito do que excluir grupos ou mesmo do que se afastar da esquerda brasileira. Concluo dizendo que escrevi porque eu tenho fé de que vocês têm muito a contribuir para a reflexão brasileira, mas o diálogo precisa melhorar.

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    1. Caro Kleber Machado,

      obrigado por seu comentário. Mostra que você realmente ficou preocupado com o assunto. E em alguns momentos foi bem irênico. Isso é bom.

      Fora isso, na maior parte não me pareceu muito interessante. Uma razão é que não ficou realmente clara qual a sua relação com o movimento e com as afirmações em particular que foram alvo da minha crítica. A outra é a evidente falta de contexto para me ler.

      Um problema menor, de ordem prática, é que no seu comentário vc levantou pontos demais, e inclusive pontos que não dizem respeito ao post. Isso dificulta a minha resposta, já que não é o caso de eu responder a todas as objeções e questionamentos possíveis ao nosso movimento no comentário de um post que trata apenas de poucos assuntos! Mas vamos lá:

      1. Em primeiro lugar, digo algo sobre o seu incômodo com o meu tom, por não contribuir ao diálogo e por não citar o autor, etc. Sei que vc o conhece, curtiu o comentário em que ele foi injusto conosco, e está interagindo com ele. Ora, ele faz críticas de qualidade duvidosa e indireta a nós sem dar nomes, e não vi nenhum incômodo seu a respeito. Pior: ele confessou diretamente em comentários que não escreveu o comentário para mim, longe de procurar diálogos. Também não vi observação sua. Isso é muito incoerente.

      Quanto a mim, não reclamei de não ter meu nome citado. E, na verdade, não vejo problema nenhum nisso. E também, tenho pouco interesse nesse diálogo em particular; nem toda diferença merece ou é resolvida com diálogos, e há tempo para dialogar e para deixar de dialogar. E o movimento ao qual ele se associa não é bom nisso, em todo o caso. Só de abrir a boca para fazer objeções, por sinal, já fui xingado de todo tipo de palavrões, ridicularizado de forma baixa e atacado com mini-swarmings. Enfim, talvez no futuro as coisas sejam diferentes.

      Em “A Abolição do Homem”, Lewis alude a seus oponentes sem dar nomes. Dá a eles pseudônimos (Gaius e Ticius). Em meu caso, tenho duas razões: (1) dada a atitude de desprezo que a pessoa já mostrou recentemente, não quis dar-lhe palanque e (2) na verdade noto que algumas pessoas que me seguem tem comportamento de “haters” e isso o exporia imediatamente. Como tal já ocorreu comigo e foi muito ruim, não entendo o que ele ganharia com isso. Só chateação. E dado o conteúdo ruim do comentário, prestei-lhe um favor ao reservar-lhe o anonimato. È claro que isso pode mudar no futuro.

      2. “Em segundo lugar, Kuyper e Schaeffer eram fundamentalistas e ponto final. Querer negar isso é desonestidade acadêmica”.

      Não sei como devo tomar isso. Fui acusado de desonestidade ou quase?

      Bem, você está profundamente enganado. E a razão – tão óbvia que não compreendo como isso pode lhe ter escapado – é que o termo “fundamentalismo” designa hoje, acima de tudo, uma patologia espiritual e social. Mas quando o termo foi empregado no contexto do lançamento do “The Fundamentals”, designava uma postura teológica e intelectual conservadora em relação à fé clássica. Sim, é fato que, em parte, o movimento histórico do fundamentalismo protestante americano apresentava traços patológicos (de novo sim, inclusive em sua visão fundacionalista de verdade), mas eles não eram uniformemente distribuídos, e não se ligavam necessariamente à mera posição teológica. Sabemos por exemplo que um homem como Warfield podia ensinar a inerrância mas aceitar a evolução Darwiniana.

      Ora, o “Bible-Belt” mostra ao longo do século XX não apenas um cristianismo conservador ou clássico mas também um agravamento de vários daqueles sinais mais patológicos, e atualmente o termo “fundamentalismo” é uma referência a esses traços, e não meramente ao sistema de crenças teológicas. Por outro lado, Cristãos evangélicos como John Stott ou um neocalvinista como Dooyeweerd ou um Rookmaaker mostram que, mesmo tendo sólidos pontos de contato com o fundamentalismo enquanto movimento protestante histórico, eles não poderiam, honestamente, ser denominados fundamentalistas agora que o termo designa principalmente um fenômeno patológico.

      É claro que aqui entraríamos numa interminavel discussão sobre como definir o fundamentalismo como fenômeno espiritual, intelectual e social patológico, e eu posso apenas indicar como vejo a coisa: em minha perspectiva, trata-se de uma combinação de ressentimento (mais do que mera indignação, resultando numa sensibilidade gnóstica), dogmatismo teórico (mais do que mera crença) e uma recusa de qualquer pluralidade social – e, daí, pode-se progredir até à eliminação do outro, como hoje no Islã (tem um pouco de James Davison Hunter nessa definição).

      Kleber, você sabe muito bem que o assim-chamado movimento “evangelical” separou-se do fundamentalismo por assumir uma atitude diferente em relação à cultura e à sociedade, apesar de manter as afirmações teológicas fundamentalistas básicas. Mas não se descrevia como fundamentalista por isso. Você pode alegar que os evangelicais ainda são todos fundamentalistas, mas teria muita gente – muita gente mesmo – contra essa alegação. Incluindo gente da estatura de George Marsden, por exemplo. Se é assim, boa sorte para você. Mas não trate essa asserção como consenso acadêmico. Isso, sim, seria desonesto.

      Por isso não reconheço em Kuyper e Schaeffer o “fundamentalismo”. Não no sentido dado pelo post por mim criticado – sentido esse que você ignorou enquanto preenchia o termo com a SUA própria visão sobre fundamentalismo ao me responder. Não reconheço isso em relação a esses homens eles porque, a despeito de afirmarem fortemente o princípio da antítese, conviveram com o diferente, passaram por interessantes evoluções teológicas e não expressaram esse ressentimento gnóstico.

      Mas sendo específico: a pecha de fundamentalismo é, no que se refere a mim, ridícula a não mais poder. Não me sinto ligado a nenhuma negação avertiva da cultura, nem somos atraídos por movimentos de recusa da natureza ou da cultura. Como vc sabe, sistemas teóricos são, para mim, relativos à profundidade espiritual do homem, e não reconheço sistema perfeito (para dar um exemplo: acredito, e já disse várias vezes, que nossa interpretação da Bíblia pode sim ser corrigida, por exemplo, pela ciência moderna, e que ela é uma fonte cognitiva soberana); sou a favor do “principled pluralism” – já leu meu artigo “Doze Teses sobre o Pluralismo Cristão”? – e de uma sociedade aberta.

      O problema, no entanto é que “para quem está à esquerda do mundo, o mundo está à direita”. Sei distinguir onde estou em relação a onde está o fundamentalista. E também onde estou em relação a um liberal. Eu sou um evangelical, Kleber. Extremamente próximo de um Alister McGrath, por exemplo. Por outro lado, você sabe se (ou que) não é um liberal? Como se distingue dele? Aonde você está confessionalmente? Ao dizer que não é nem fundamentalista nem liberal (no sentido teológico e não patológico), você bem pode ser um liberal. Mas se não é, deveria ser capaz de notar que estamos muito próximos, mesmo que minhas posições sejam bem mais conservadoras do que as suas. Então, por favor: seja cuidadoso com o uso dessa palavra, e não leviano como a nova esquerda evangélica (ou uma significativa parte dela) vem sendo.

      3. “Em terceiro lugar, acho que a maneira como você se refere a esquerda é tão fora do contexto que fica difícil até dialogar”.

      Kleber, essa parte me deixou mais “chateado” do que a do fundamentalismo! Tenho vários textos sobre esses assuntos, expressando uma posição política na qual temos trabalhado devagarinho, há mais de 10 anos. O assunto sobre o Freston por exemplo: cara, que preguiça… No livro que editei em 2006, eu já havia citado isso… Escrevi sobre a proximidade entre TMI e neocalvinismo, e expus diferenças. Robinson Cavalcanti leu e concordou 100% com a minha leitura. Achei que voce tinha lido isso. Mas pelo jeito não leu. E os outros textos ao longo desses anos? E minha recente discussão sobre a “Revolução Afetiva”? Nada? Nadinha? E como você se arrisca a fazer uma crítica tão abrangente? Pra quem me detesta, seu comentário pode parecer muito perspicaz, mas para quem tem acompanhado o que venho fazendo, é óbvio que vc pegou o bonde andando.

      Por sinal, esse foi o meu ponto nesse post de blog. Não foi discutir economia política. Vi que você falou de montão sobre isso, como se eu fosse um anarco-capitalista. Ora, sou um Goudzwaardiano. Não sei de quem você está falando com aqueles comentários. Só porque me coloquei em oposição a essa péssima esquerda que tivemos no poder nesses anos? Mas isso é um posicionamento condicional e circunstancial, Não significa que eu seja liberal, e já cansei de falar disso. Tanto que não vou falar de novo.

      Mas sobre o meu ponto: sob a caricatura do “sexo”, eu me referia à micropolítica do corpo sexual e da afetividade, que é um recurso bem mais recente da nova esquerda – recente como estratégia central. Nos últimos comentários, o pensador que critiquei aludiu a isso várias vezes. Daí a minha única gota de macropolítica ter sido ironia sobre a Venezuela.

      Sim: sobre Paul Freston estar longe dessa agenda: acredito em você. Mas nunca disse que o Freston está nessa agenda. Aliás, exceto no livro que citei, e num comentário muito infeliz no qual citei o pai e o filho juntos, nunca disse nada sobre o PF. De onde você tirou isso? Essa agenda está pulverizada em vários lugares: algumas igrejas, seminários, ministérios, ongs, festivais (como o Reimaginar)… Que confusão…

      Acho, como já disse, que você está muito, mas muito distante do que está acontecendo no Brasil. Hoje mesmo, no seminário da ABC2, conheci um antigo militante da Rede Fale e ainda ligado à ABU/ABP que me procurou feliz. Ele disse que conhece “a turma toda”, e se afastou um pouco ao ver o descompromisso com a tradição evangélica e a pesada ideologização. Mas que estava feliz por ver novos sinais de fé sadia e intelectualmente responsável. Nos últimos três anos peguei o avião mais de 50 vezes para vários lugares do Brasil e encontro a mesma coisa. Voce pode permanecer desconfiado, mas sei do que estou falando. Agora, amigos confiam. Depende de você decidir em quem vai confiar.

      Embora tenha uma atitude mais positiva comigo, Kleber, me desanima um pouco ver você tropeçar em caricaturas sobre mim. Onde você comprou essas caricaturas? Claro, ninguém tem obrigação de acompanhar meu trabalho e saber de tudo o que faço e digo. A não ser que pretenda pintar um quadro total. Nesse caso, a obrigação existe.

      ****

      Uma última palavra: concedo-lhe um benefício: como eu disse, vc está longe. Mas sei que vc é bom de cabeça. Às vezes a gente escorrega. Mas o diálogo com você segue. Só não exija de mim permanecer em diálogos nos quais a outra parte deseja, na verdade, me pegar desprevenido, ou demonstre claramente que não enxerga valor ou sentido em minhas ideias. Nesses casos, não tenho interesse, como acho que Barth estava certo ao mandar Schaeffer passear. O trabalho me suga muito, e para gastar-me em diálogo preciso encontrar coisas interessantes e sábias.

      abraços meu amigo. Espero que dê certo a nossa cerveja em Cambridge!

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      1. Em primeiríssimo lugar, Guilherme, muito obrigado pelo tempo e energia que você gastou para me responder. Sei o quanto você é ocupado e só posso tomar sua resposta como sinal de respeito e consideração. E fico muito grato por isso. Reconheço que meu texto fala sobre assuntos muito diferentes. Desculpe-me mas o texto acabou saindo estilo facebook mesmo.
        Em todo o caso, permita-me agora a tréplica. Com respeito a você não citar o nome do Marcus Vinícius. Bem, se você olhar bem, você vai ver que eu não curti os posts em que ele fala que o movimento neo-calvinista é fundamentalista. O que eu curti foi o post em que ele publicou a sua resposta no seu facebook. Esta atitude dele eu gostei e, principalmente, o que ele disse na introdução: “É também a oportunidade de fazer uma resposta direta ao Guilherme de Carvalho, sem intervenções estilo “tropa de choque” militante, como frequentemente ocorre nos debates nas redes sociais.” Por isso, também que pedi permissão a ele para colocar a minha resposta a você no facebook dele também. Ele fala do movimento neo-calvinista como um todo e, portanto, achei que não precisa de dizer o nome de todos do movimento, mas se há aspas, há um autor. Agora, eu posso imaginar o contexto. Não sei se você se lembra, mas uns 10 anos atrás, antes ainda do L’Abri Brasil, você me convidou para escrever um artigo para uma publicação que vocês estavam planejando. A minha resposta foi que eu gostaria muito, mas não iria porque minha participação poderia até prejudicar o movimento, porque eu havia adquirido fama de liberal e não queria expor o movimento. E isso eu disse antes do facebook se tornar esta febre. Você gentilmente tentou me convencer e eu resisti, porque estava ainda magoado com um ocorrido. Um amigo meu havia sido desconvidado para ser candidato ao pastorado de uma igreja em São Paulo porque o presbitério disse que ele era meu amigo e o presbitério não deixaria um amigo meu entrar no presbitério. Portanto, eu sei do que você está falando, mas a gente tem que mudar isso. Fui muito próximo do Boanerges Ribeiro que era conhecido por humilhar pessoas em público com suas respostas e, de fato, eu o vi fazendo isso pessoalmente numa reunião. Mas ele me contou que quando Karl Barth foi para Princeton para dar as “Warfield Lectures” ele estava lá e foi ouvir a palestra e disse o quanto ficou impressionado com a maneira dócil e gentil que Barth respondia aos quase “xingamentos” que vinham das perguntas depois da palestra. Mas como você menciona no final, até Barth cansou e a carta que ele escreveu ao Schaffer mostra isso. Curiosamente, Boanerges me contou que ele foi à Suíça convidar o Schaeffer para dar aulas no mestrado do Seminário JMC. Disse-me que teve uma ótima conversa com o Francis Schaeffer, mas que ele declinou o convite pois achava que não tinha mais saúde e energia para longas viagens. Confesso também que fiquei horrorizado como algumas pessoas reagiram no seu facebook e no do Marcus Vinícius. É gente que parece estar assistindo jogo de futebol. Mas cabe a você e ao Marcus Vinícius e a todos nós tentar mudar isso. Estes “haters” não têm lugar na construção de uma reflexão teológica séria.
        Com respeito ao fundamentalismo, a sua resposta agora foi bem mais completa. Acho que por você defender autores que estavam ligados ao fundamentalismo desde a sua origem é melhor dizer, como você disse agora, em que sentido eles eram fundamentalistas e em que sentido você acha que eles não são. E clarificar, como você agora também o fez, que forma fundamentalismo está se falando. Acho que simplesmente dizer Kuyper e Schaeffer não são fundamentalistas é academicamente desonesto. E o meu ponto não era dizer que você estava sendo academicamente desonesto, mas sim, que você deveria começar a partir do fato que eles eram fundamentalistas então qualificar que tipo de fundamentalismo estamos falando. Agora, ainda há um ponto para se aprofundar aqui e gostaria de ouvi-lo a respeito. Eu não vejo Schaeffer tão distante do fundamentalismo mais radical tipo “Bible Belt”. Eu sei que ele teve fases diferentes, mas é preciso pensar sobre o assunto. Ele estudou no Faith Theological Seminary e eu tive um professor que também estudou lá (1973/4). Este professor, o João Alves dos Santos, até hoje meu ídolo, estudou lá pago pelo movimento fundamentalista e foi ele que me contou que o Schaeffer se candidatou para trabalhar no seminário teológico do Seminário Presbiteriano Conservador do Brasil que na época era ligado ao movimento fundamentalista. O João Alves me disse que alunos fiscalizavam a biblioteca de alunos para ver se tinham livros não reformados com eles e se havia eles denunciavam e exigiam punição. Ouvi longas entrevistas do filho do Schaeffer. Claro, que não se pode tirar muitas conclusões de entrevistas como estas. Mas Schaeffer é, ao meu ver, muito próximo do tipo de fundamentalismo que nós repugnamos. Claro, que ele apresenta uma visão mais aberta. Afinal, ele propõe ler liberais e ateus para entender o nosso contexto. Mas ele está falando para gente que é “bem” fundamentalista. Ou seja, é preciso situá-lo a partir deste contexto fundamentalista. O meu ponto Guilherme é que há muita coisa ruim feita em nome de Kuyper desde o Apartheid na África do Sul até o home schooling do sul dos Estados Unidos. Um pastor norte-Americano que estava querendo fazer PhD na VU Amsterdam veio para a conferência anual dos estudantes. Eu fiquei abismado porque a ideia dele parecia uma espécie de projeto do tipo “Eu vou evangelizar e fazer a VU voltar aos princípios de Kuyper.” Mas, depois conversando com ele, ele disse que ele não era tão conservador assim, pois ele até lia autores não-reformados. Mas que isso era um problema na igreja dele, pois por causa de ele não ser tão conservador algumas famílias da igreja dele não deixavam os filhos deles terem qualquer tipo de contato com os filhos dele que era pastor da Igreja. Eu acho que o movimento deve sim ter cuidado em combater o fundamentalismo que pode advir de uma má compreensão do que é “cosmovisão”. Sei bem que você não é fundamentalista neste sentido “Bible Belt” e você, ao meu ver, é responsável para tentar evitar que pessoas interessadas no movimento enveredem por este caminho. Ao menos, talvez explicando sempre e de novo qual fundamentalismo é saudável e qual não.
        Com respeito a questão política-econômica, meu ponto é que há críticas demais ao PT, mas parece que muita gente se esquece o que era o Brasil antes do PT, com fome e miséria e tantas outras mazelas. Não acho que o PT não cometeu erros, acho que cometeu e muitos. Mas qual a alternativa? É preciso pensar e refletir, o atual governo de Temer é melhor que o PT? Eu acompanhei os debates políticos na Holanda e, por exemplo, o partido ChristenUnie que representa os reformados mais na linha conservadora de Kuyper deixa bem claro que é preciso se afastar da direita nacionalista. Eu até postei uma parte do debate no meu facebook. Agora, se dei a impressão que você é neo-liberal economicamente me desculpe. O que eu queria dizer é que, eu acho, que você deve enfatizar mais o quanto a direita no Brasil pode ser nociva ao Brasil. Infelizmente, muitos têm visto o movimento Neo-Calvinista no Brasil como um movimento de direita política. A culpa não é sua necessariamente, mas gostaria que você fizesse algo para tentar mudar isso.
        Com respeito ao Paul Freston, eu só o mencionei porque ele é alguém que é um profundo admirador de Kuyper e ao mesmo tempo de esquerda, sem cair nessa questão de género/sexo/afetividade que você coloca. O meu ponto é que é preciso ir além dessa questão sexual. Você coloca que isso é agenda deles e não sua. E é bem possível que seja mesmo. Mas gostaria de ver você e todo o movimento se concentrando mais em outros assuntos. Sei que é difícil no Brasil. É incrível, a Igreja da Escócia teve uma batalha nos últimos anos com a ordenação de ministros homossexuais, mas ainda assim se fala menos de sexualidade que no Brasil. De novo, a culpa não é sua, mas é preciso tentar mudar isso e você tem capacidade e espaço para isso. Talvez pegar avião mais de 100 vezes!? Eu sei Guilherme que não é fácil.
        Você também me perguntou sobre a minha própria posição. A maioria dos teólogos que são meus companheiros de reflexão são holandeses. Em especial eu gosto muito do Henk Vroom que infelizmente faleceu recentemente. São teólogos que tentam aplicar os conceitos de Bavinck e Kuyper para o presente contexto. Dos de língua inglesa, sem dúvida, McGrath é um dos preferidos. Obviamente tenho ressalvas, mas está entre os que mais aprecio. Na crítica a modernidade Hauerwas é um que admiro muito. Discordo da visão dele com respeito ao papel do cristão na sociedade, mas ele apresenta, ao meu ver, a melhor crítica teológica à cultura americana e consequente toda cultura que se espelha na norte-americana. Claro, também não há como negar um certo Barhianismo da minha parte. Esta semana ainda falando com um amigo holandês eu disse a ele: “Barth é o teólogo que eu não gosto de ler, que eu não concordo com muito do que ele diz, mas, ao mesmo tempo, é o que melhor conseguiu construir uma teologia que não se vendesse ao liberalismo sem ser fundamentalista. Tento sempre ser um Barthiano anti-barthiano” Talvez, esta frase explica o que eu tento fazer.
        Guilherme, falando de coração para coração, recebi várias mensagens de pessoas que eu não conhecia dizendo que gostaram do meu post porque era num clima pacífico e também porque tentava uma forma equilibrada de debate. Na minha opinião tanto você quanto o Marcus Vinícius são equilibrados, e acho que se ele passou dos limites com você e você com ele (obviamente não posso julgar nenhum caso) é por causa desse clima de torcida de futebol em debates teológicos no Brasil. Por anos, achei melhor me afastar do que me envolver neste tipo de disputa. Mas acho, por outro lado, que estou negligenciando o debate. Pretendo continuar na retaguarda pois estou vivendo noutro contexto, mas quem sabe minha função não é apenas incentivar as melhores cabeças a pensarem juntas.

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